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Ao Poeta ausente

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Flávia Fontes · Macapá, AP
18/9/2008 · 102 · 12
 

Declarações, silêncio e ausência de poesia


“_Não sofra, ele não merece você...” Estou saturada de ouvir isso! Quem pensam que sou? Alguma “deusa”? Faz menos de uma semana que eu e Arthur, rompemos o relacionamento prematuramente conflituoso. O pecado dele? Ser diferente de mim. É crítico, mas tenho que admitir, sou uma daquelas mulheres dominadoras, gosto de ter o controle das emoções, e do “mundo”! Não pude controlar Arthur... Como? Ele é solto demais: calça sandálias; adora bermudas, e evita porta-cédula. Imaginem! Anda por aí, literalmente, anda, com o dinheiro amassado no bolso. (Dinheiro é coisa séria! Não pode amassar!) Repreendia-o, mas não adiantava, parecia liberto de vozes alheias ao interior dele. Embora homem, tinha fama de ambíguo, poeta e ator. Ele é um poeta, vive a poesia solta no cabelo encaracolado, naquela pele morena, nos olhos claros (Que olhos claros!). Enfim, ele é poeta.
Conquistou-me como mulher e como admiradora, antes mesmo de conhecer o timbre daquela voz poética. Silvia, minha amiga, havia comentado de um amigo dela, bonito, inteligente, gostava de literatura, etc. Apaixonei-me! O que?!... Por onde andava ele?... Pelas ilhas da vida, talvez... Mas as ilhas prendem? Sei não... Ele não estava perto de mim, disto eu sei. E sua ausência foi a primeira impressão que tive do homem-livre. Embora ele fosse “meu futuro esposo”. Mas, não se assustem, vou explicar. Eu sei que é difícil entender, como um poeta desconhecido, pode ser o “futuro esposo ausente”. (Pois é, brincadeirinha...) Mas tenho que admitir, a poesia daquele moço de pele morena, e cabelos encaracolados, chegou bem antes: “meu dia fica melhor quando tu vens primeiro que tudo em minha mente, em minha vida”. O verso atravessou o Rio Amazonas, chegou ao meu olhar. E foi tão intenso que me tirou da cama cedo. Olhei ao lado, Marcos dormia ainda. Uma criança, ou melhor, um homem imaturo. Ainda dormia o "sono dos inocentes".
A poesia de Arthur despertou-me para várias realidades: saudades; dúvidas; falta e excesso de amor; covardia; família; dogmas; preconceitos; e mais saudades. (Não necessariamente nesta mesma ordem)
Entre a biblioteca e a igreja, o poeta fez-se amor total. Soneto, em verso declamado. Ao som de clarinetes! Isso foi real, parece mentira, não é?... Mas foi real, e do jeitinho que falei. Além da paz, ele me roubou um beijo. Beijo roubado faz a gente suar frio, coração bater forte, mão tremer. Beijo roubado é bom... E para devolver o beijo do poeta, deixei quase tudo para trás: uma casa. Dentro dela: um futuro casamento. E o noivo sorria feito bobo. (Mas de bobo não tinha nada).
Alguém tinha que acordar Marcos! Quem?... E, agora, ele implorava para eu não deixá-lo, e chorava feito criança despertada no meio da madrugada. E eu seria a noiva bandida, a noiva perdida. E fui. Marcos calou-se, para sempre.
Daqui em diante é difícil escrever. Dá saudades, e dói. (...) Fui amada, profunda e demasiadamente por Arthur. Sufocantemente... Manhã, tarde e noite... Ah! E às madrugadas também. Assisti ao teatro, como arte, e não como hipocrisia. Ouvi mais poemas, confissões, declarações. Em condição amorosa, limpei a face do poeta, uma, duas, três, sei lá quantas vezes! Ele suava sempre! E aquele líquido escorrendo na face dele me incomodava, assim como aquelas sandálias empoeiradas, e o dinheiro amassado... Além do mais, roncava... Como dormir ao lado de alguém assim?... A vida inteira! E o que mais me incomodava é que eu o queria ardentemente, e por tanto, definitivamente, não apenas dormiria, mas viveria ao lado daquele poeta, que já não era ausente. Havia se afigurado à presença, ao toque, aos beijos, aos amassos, etc...
Tornei-me tão dele, tão pecaminosamente vulnerável aquela voz máscula... Imagine eu! Mais alto que a voz do Arthur, foi a voz da imprecisão. Alguém beliscou meu braço. Minha irmã, ela também me cutucou. “_Nossa família não vai aceitar”. Não teria importância, se ela não fosse minha segunda mãe, meu apoio, minha amiga, minha família... E mais que vulnerável ao Arthur, eu era vulnerável a minha ao meu sangue.
E agora?! Todo mundo queria falar! E foi um blá, blá, blá desgraçado! E como diz meu pai, “um furdunço”! Discussões de Boteco, Batidas fortes de asas de borboletas. Lindas Butterfly´s! Extra! Extra! Zum zum nas redações! “_Covarde, indecisa, deus, confusa, boba, te amo, besta, menina, poeta, amiga, burra, fala sério, pensa, fala, senta aqui, cuidado, olha, porra!”
Pára tudo! Alguns minutos de silêncio pelo amor de qualquer coisa! Eu pedi... Eu precisava de paz. (lágrimas)
Quanto tempo de silêncio?... O poeta não queria calar, queria me amar. Eu pedi silêncio. Foi um bom plano: “o silêncio fala mais alto ao coração”, já dizia a música. Entrei em mim, pensei, escrevi mais versos, desenhei meu rosto, mudei de máscara... Silêncio e solidão, duas adoráveis companhias... Troquei de roupa, calcei chinelo, andei... “_E se eu fumar maconha, só para entender melhor as coisas...” Pensei, mas, não considerei uma boa idéia. Gosto de ver bem onde piso, ou mesmo, quem pisa em mim... Olhar nos olhos ainda é melhor que fumar maconha, acho...
E os minutos de silêncio se prolongaram, e foram dias, até que... Tive a certeza, amava-o de verdade... Não eram apenas clichês... Mas, como ele ficava charmoso de sandálias, e, imagine, quem precisa de porta-cédula?...
“_Oi, liguei para saber se estavas bem... Que bom, então até outro dia”... O poeta, não estava mais lá... E a “poesia”, estava diferente. O poeta do amor estava longe, ou talvez nunca existisse de verdade. Agora, eu estava diante de um homem, que escreve qualquer coisa, de qualquer sentimento, menos do amor... As águas do Rio Amazonas não foram atravessadas, nem precisava. Eu estava diante do homem sem “controle remoto”... E vi bem pertinho, indiferença. (Bem feito)
“Eu o amo de verdade”, falei, chorei... Tarde demais... Sobrou espaço para completar um abraço, faltou lugar para guardar o desapontamento. Entre um bar e o Rio Amazonas, silêncio... Não meu... O poeta calou... Adormeceu?... Sei, não... Eu podia ter ido embora, mas preferi cair nos braços daquele homem estranho... E me entreguei a ele. A face dele estava limpa, o olhar distante... O corpo quente, e o vento: forte...
Depois: “Falas novelas”, “Cenas Clichês”, “email´s estranhos”... Silêncio... Não disse! Não era mais o “meu” poeta... Era o garoto propaganda da campanha eleitoral... E ele não precisa de mim... “_Eu ainda gosto de você”, disse o homem publicidade. Mas depois ele sumiu, e eu nem sei onde ele mora...
Eu até tentaria ser a menina clichê... Aquela que permite ser “sorriso Kolgate”, e vê-lo de vez em quando... Só para aliviar a carência hormonal e a vontade de ser visto ao lado de “alguém”. Mas, esse tal “garoto propaganda”, não faz meu tipo... Ele tem um sorriso forçado, e uma fala robotizada, copiada do retroprogetor... Além do mais, nem poesia ele escreve...
Então, eu não quero chorar, nem ouvir de ninguém “Ele não merece você”! Cala boca família! Eu ordeno!... Não é o caso de ser melhor ou pior... E o fato de sermos tão diferentes, já não impediria... Eu não sou uma deusa... Sou poeta... Talvez se a saudade doesse menos... Mas, mulher dominadora, não pode chorar... Borra a maquiagem...
Fala do garoto propaganda: “Ainda gosto de você, mas estou confuso”...
Fala da mulher dominadora: “_Arthur, desculpe, somos diferentes, melhor não insistirmos numa relação que já perdeu o encanto”
Silêncio: mulher dominadora desliga o telefone, disfarça as lágrimas, pensa: “Ele não me merecia mesmo”...



Flávia Fontes

Em 04.09.08 Macapá - AP

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Flávia Fontes
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delen
 

belo trabalho .
Amores pq existem?
As vezes deixam magoas e tristezas , teu texto demonstra bem este sentimento que nasce , cresce e morre , parabéns . Bjs...

delen · Cotia, SP 16/9/2008 00:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Flávia Fontes
 

Delen, fases do amor... rsrs
Mas, enfim, se não podemos definí-lo por completo, ao vamos descrever as ações dele... srrsrs
Obrigada pelo comentário...

Flávia Fontes · Macapá, AP 16/9/2008 20:06
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito bom.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 16/9/2008 22:36
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Juscelino Mendes
 

É algo nascido da atitude de, à exemplo
da ovelha ao passar sob um cerca de arame farpado,
arranhar-se, mas não perder a pose.
Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 17/9/2008 19:30
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Juscelino Mendes
 

Votado.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 17/9/2008 19:31
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Vanessa Anacleto
 

Gostei do texto, Flávia. Sua personagem perdeu uma chance mas ao menos olha no espelho e sabe o que é.

abraço e meus votos.

Vanessa Anacleto · Rio de Janeiro, RJ 18/9/2008 10:23
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delen
 

delen · Cotia, SP 18/9/2008 11:07
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clara arruda
 

Gostei imensamente do texto.
carinhosamente publicado.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/9/2008 11:44
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Flávia Fontes
 

Antes de qualquer coisa, obrigada pela atenção e comentários valiosos!
É tão interessante para nós escritores esse contato direto com os leitores e saber de forma dinâmica o que nossos textos passam...
Estou mui admirada... e contente com as percepções...
Abraços a todos...

Flávia Fontes · Macapá, AP 19/9/2008 16:44
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Cintia Thome
 

Alguém me disse uma vez que Poeta não pode amar Poeta...texto primoroso.ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 19/9/2008 19:28
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Flávia Fontes
 

rsrs... Estou começando a considerar a opinião desta pessoa... Nós poetas somos mais que humanos, somos... bem... Somos, Poetas! rsrsrs
Abraços Cintia, e obrigada!

Flávia Fontes · Macapá, AP 22/9/2008 15:13
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Raiblue
 

Maravilha, Flávia!!!

E concordo plenamente com a Cíntia!!
Texto bem construído e narrativa gostosa de se ler!!

Parabéns!
beijinhos azuis...
Blue

Raiblue · Salvador, BA 15/10/2008 19:31
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