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Ao rés do chão jazia o sujeito impertinente

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ignis liberati · Porto Velho, RO
21/6/2007 · 22 · 5
 

A casinha de dois cômodos ficava na curva da rua. Ao lado, a entrada para o conjunto arquitetônico da antiga estrada-de-ferro, construída a duras penas no início do século passado. O que fora um projeto arrojado, hoje era um ponto turístico abandonado e jogado às moscas.

Um dia apareceu o fiscal da prefeitura. De dedo em riste disse ao casal septuagenário que teria de desocupar a casa. A intimação era categórica: ou saíam dali imediatamente, com todas as quinquilharias e molambos, ou passaria com um trator por cima de tudo.

Não adiantou nenhum argumento, o fiscal mandou vir o trator: a casinha azul de madeira, coberta de eternite, inclinada para o leste, seria derrubada. Para onde iriam? “Sei lá” – foi a lacônica resposta.

O juiz do lugar ordenou, atendendo a uma petição, que os septuagenários ficassem ali até o julgamento final do processo. O juiz era bem conhecido na cidade como de decisões justas; um homem que só rezava para um deus. Em primeiro lugar vinha a sua jurisdição, que era inegociável. Tinha estatura mediana, ombros largos, braços fortes e fisionomia com relevante sinal de inteligência e destemor; usava cabelos longos, naturalmente pretos, que chegavam aos ombros; a barba espessa estava grisalha, mas o bigode ainda conservava a cor ruiva de seus ancestrais celtiberos.

O oficial da justiça tentava convencer o fiscal de que tinha de cumprir a ordem do juiz, porque “decisão da justiça não se discute se cumpre”. A pequena multidão olhava atônita para o fiscal com olhar de desprezo e de pena e cumplicidade para os pobres velhos, cujos cabelos brancos refletiam o sol daquela manhã de sábado de temperatura morna.

O fiscal virou para o aglomerado de gente, bem em frente a um personagem de óculos escuros Silhouette. Aproximou-se com o mandado na mão, levantou um pouco, mostrando para o público, ao mesmo tempo em que perguntava e respondia: “Eu não estou com razão”? “Este é um bem público e ninguém é obrigado a cumprir decisão ilegal”.

Uma mão fechada cruzou duas filas dos presentes e atingiu em cheio o nariz da teimosa “autoridade”. Ouvi um grito de dor e um baque no chão. Olhei para baixo, ao rés do chão jazia o sujeito impertinente com a cara enfiada na lama.

“Tome” – soou em coro a voz do povo. Procurei o dono da mão forte. Nem sinal. Olhei ao redor e, lá longe, virando a esquina, calmamente, ia aquele sujeito de ombros largos, cabelos negros longos, que balançavam ao vento. Trajava calça jeans, camiseta de malha branca e botas de andarilho. A mão forte agora segurava com leveza a mão de traços bem femininos de uma jovem mulher, de quem só tive tempo de admirar as pernas torneadas da cor da boa terrabrasil.

Na rua mais adiante, o ipê soltou um flor amarela. A brisa do início da primavera chegou devagar aos espíritos banhados de justiça-feita.

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Autoria
Ignis Liberati
Ficha técnica
Conto curto. A justiça nem sempre é formal. Às vezes, na prática é mais eficiente.

Data: 19 06 2007
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Benny Franklin
 

Ignis, texto enxuto...
Palavras de fina estampa.
Ah! Estou com FLÔRES DE UNDERGROUND na fila de edição do banco de cultura. Convido-o a ler. O link é este: http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=8505
Forte abraço,
Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 23/6/2007 00:00
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ignis liberati
 

Benny, legal a sua opinião. Vou ver o seu FLORES DE UNDERGROUND agora.

ignis liberati · Porto Velho, RO 23/6/2007 01:28
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ignis liberati
 

Benny, vi e gostei do seu flores de underground. Depois retornarei, para a votação.

ignis liberati · Porto Velho, RO 23/6/2007 01:34
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Humberto Firmo
 

Belo conto.
Quantas manhãs de sábados, como esta, não acontecem por esse Brasil a fora.
A descrição, o momento, a ação, tudo bem contadinho.
Uma jóia de narrativa.


Humberto Firmo · Brasília, DF 14/8/2007 20:00
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ignis liberati
 

Fico grato por sua leitura e comentário, Humberto. É um estímulo. Obrigado.

ignis liberati · Porto Velho, RO 17/8/2007 01:12
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