AOS DOUTORES DA ACADEMIA
DIACUI PATAXÓ
Estou farta desses intelectualóides titulados e tutelados que permitem a privatização estatal de sua vidas e querem exigir o mesmo de mim. Cansada de suas hipocrisias, mediocridades e suas bobagens livrescas e enciclopédicas. Enojada de suas exigências minuciosas que não levam ninguém (a não ser eles mesmos) a lugar nenhum, mas podem tirar muita gente do caminho. Enjoada de suas caras bobas, de onde me fitam olhos de desprezo, desprezíveis. Realmente, assumo, eu não sei filosofar, eu não decorei vossos livros, vossas coleções, vossos sábios de gabinete. Sócrates não leu ninguém nem escreveu nada! Eu não sei vossa filosofia, eu não sei filosofar!
Muitos de vós, a maioria mesmo, sabeis apenas repetir o que houvestes lido e, juntando pedaços e recortes de um e outro forjais o que chamais vosso próprio pensamento, vossa própria filosofia.
“Eu tenho a minha loucura, levanto-a como um facho a arder na noite escura... não me peça definições... não me diga: vem por aqui..só vou por onde me guiam meus próprios passos...” “Olhai os lírios do campo...” e poderia deter-me aqui em muitas poesias - lêde poesia ou só filosofia? – a explicar-vos vossa soberba e ignomínia, vossa fraqueza e mediocridade; vossa vida e insanidade, assim, recitando versos...
Deixaste-vos carimbar, rotular, registrar, vendeste-vos! Paciência! No mundo das aparências em que viveis, pensando estar no das idéias, não sou nada e até para ser mais uma sombra necessito de vossa aprovação, de vossa avaliação. Mais medíocre eu, que me submeti a tal, expondo-me ao ridículo, colocando-me a mercê de pobres diabos ignorantes como vós, todos que se julgam “sábios” e “doutores”, porque outros, tanto quanto (parvos), assinou-vos um pedaço de papel, assim testemunhando, após haver escrito páginas e páginas sobre o que os outros disseram, fizeram e pensaram!
Pensais ser grandes! Desiludi-vos de vossa grandeza, despi-vos de vossa megalomania pseudo-sábios. Sois pó, lama, como todos nós, outros mortais! Acaso ides ao banheiro? Excretais ou não? Necessitais banhar-se ou não fedeis nunca? E drogas? Usai-as às escondidas dentro de vossos feudos para que a Academia não saiba que sois drogados, hipócritas?
Fazeis troça de quem não conheceis, Sentindo-vos donos da situação ousais humilhar os pequenos, mas só a vós mesmos tendes diminuído quando tentais desmerecer a outrem.. Ouvi e entendei , sepulcros caiados, a farsa que representais já está desnuda na própria filosofia. Não calareis nunca o meu, o nosso grito que, como as lições de Sócrates, continuará ecoando em outras bocas, como as bombas de Bakunin continuará explodindo em outras praças; como os tiros das armas de todos os revolucionários mortos em combate e continuará alvejando outros mercenários como vós, séculos após séculos, milênios... a denunciar vossa pusilanimidade e os interesses escusos que motivam suas ações.
Usais brincos na orelha, andais com ginga, tendes tatuagem nos pés e nas mãos para com tudo isso compor a “persona pós-moderna”, o novo, o futuro, mas vossa mente sustenta-se no atraso, na tradição, no preconceito e na discriminação... bobos da corte, marionetes, fantoches macabros, dançais dentro de sedas e ternos caros o ritmo lúgubre da morte dos excluídos. Sois cúmplices dos encapuzados, dos endinheirados, dos capa preta, dos mandantes, dos coronéis, dos assassinos de colarinho branco, dos carrascos sangrentos do analfabetismo, da fome e da doença... até em vossos livros os bajulais e isto é fácil de provar!
Quereis representar a modernidade, mas viveis fechados em vossos próprios feudos (alguns conformando-se com pequenas baias brancas, cheias de computadores e bugigangas dentro)! O inusitado, mas não passais de repetição. Quereis representar a vanguarda intelectual, mas sois racistas, tolos, rasos e atrasados! Fazeis o discurso da democracia e da igualdade mas sois tiranos nojentos, ditadores pusilânimes, capazes sabe-se lá de quê para conquistar vossos objetivos. Representais o passado! Subliminar à vossa bandeira branca da paz pode-se ver as fileiras disciplinadas, carregando a suástica de Hitler, as traições de Stálin, os assassinatos cometidos por Pinochet, Mussolini, Vargas e tantos outros ditadores de carteirinha pelo mundo afora que se locupletaram do poder público para enriquecer suas próprias contas bancárias e perseguir aqueles que pensam diferente dos seus instintos genocidas, etnocidas, homofóbicos, fratricidas, elitistas, desumanos!
“Viva o país do bandido, salve pátria do jaguar!”
Eu sou filósofo, mas também sou pataxó,
e entendo o seu lamento, a sua fúria,
o seu desgosto, a sua desilusão.
E para crer mesmo que sou seu
irmão pataxó, leia meu poema:
http://www.overmundo.com.br/banco/as-chamas-de-almas-mortas
Um grande abraço!
Gostei de seu brado
à lá Sócrates.
Seu poema, Juscelino, é trste como a morte de Galdino e de tantos outros índios vítimas da vilania e tirania, no passado - dos invasores e atualmente - daqueles que insistem em herdar seu legado de traições, crueldades, perversidades para com esses povos que habitam o continente pelo menos há 30.000 anos. Milênios de história negados pela indiferença, pela ambição, pela exploração e expropriação das terras que por direito lhes pertencem. Meu coração chora e sangra o corpo queimado de Galdino, chora o choro de sua mãe, de sua tribo, do chão que ele pisava!
O que podemos fazer senão lutar a vida inteira? Lutamos porque está em nós essa luta, escrito nas nossas veias, pontuado e acentuado no sangue que jorra em nossos cérebros... lutamos porque essa é a única maneira que encontramos para ser livres ... não concebemos o silêncio e a omissão - isso é morrer!
O "imprescindível" foi demais pra mim por hoje, ás vezes eu mesma sufoco com tanta angústia por causa do outro , mas eu sou esse outro também, eu sinto a dor dos escravos espancados em praça pública, torturados, esfomeados, sinto o pavor das crianças indígenas vendo queimar suas aldeias, vendo morrer seus pais e seus avós, sinto saudade de nossas cantigas de roda, de caçar e pescar, de dormir na rede e plantar mandioca... sinto falta dos tantos banhos diários nos rios e nos oceanos e meu paladar se delicia com o cheiro do peixe assado na areia... minha memória ancestral atávica ecoa pelos meus poros... quantas palavras perdemos, quantas pessoas, quantas famílias, quantos saberes, quantas danças, e pior de tudo, resumindo: Quanta identidade!!! Parabéns por falar de Galdino, Forte abraço
Diacui,
fico contente que tenha me visitado e gostado
de meu poema.
Há, certamente, identidade em nossos sentimentos
a respeito da causa. Espero que seu texto seja logo
publicado em definitivo, a fim de que muitos overmanos
possam lê-lo.
Grande abraço pataxó.
Sim, fui guerrilheiro e sempre fui
um sobrevivente mistiço.
Grande abraço.
Nasci em Conquista. E minha avó, pataxó, em Canavieiras....
Juscelino Mendes · Campinas, SP 18/9/2008 23:14MARAVILHOSO SEU TEXTO... PRECISAMOS DE PESSOAS COMO VC, SENSÍVEL ;ELIANE POTIGUARA
Escritora Eliane Potiguara · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2009 12:06
Diacui é bom quando se encontra alguem que fala o que sente, desafia a hipocrisia.
gostei muito
bjs
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