Depois de Fernando Pessoa, o que poderia vir?
Depois do português de Portugal, qual gramática?
O que podem os escafandristas diante daquele dominó ou daquela tabuleta?
“Onde é que há gente no mundo?”
Em que mundo?
:
_ Diante da imposição civilizatória que trago em mim, subverto a metafísica que me implode de encontro à masturbação de Fernandos Pessoas...
_ E você, modelado no olhar que o mundo lança e que percebo em mim, poderá resistir nesse lado de fora hipotético?
:
Manada de mamíferos!
_ Você e eu pegamos o mesmo trem algum dia... pegamos?
_ Quem somos quando manada?
_ Desconhecidos.
_ Quem somos quando pai, irmã, chefe, motorista... conhecidos?
_ E quando atiramos a roupa suja que somos e ficamos em casa sem camisa? (E quem não tem casa, nunca tira a camisa, sabe quem é?)
_ Quem é você quando está também no trem onde estou comigo? E agora, no aqui?
De nós mesmos estranhos, estrangeiros.
Um Atlântico de distância entre meu eu e o que não é meu em mim!
Como se não acordássemos todas as manhãs cada qual com sua cara amassada, endividados com tudo, com todos e com nós mesmos!
_ Aprontados para encher a consciência de indiferença, partimos para a vida lá fora.
Pedintes, pedantes e pendidos!
(O juízo final nosso e de cada dia, nos dai hoje?)
Olho bem para nós, espalhados pela Terra...
Com nossa cabeça redonda,
Nossa mão espalmada,
Nossos pés para a frente.
_ Endurecidos!
como se tudo não fosse água.
_ Alinhados!
como se a Terra ainda fosse plana.
_ Imobilizados!
como se tudo não fosse só movimento.
_ Padronizados!
Como se o deus único não fosse múltiplo!
Esquecidos de nós mesmos seguimos rumo ao ponto de partida.
Milhões de seres humanos calcados os pés na Terra,
uns sobre os outros, enfeitados, enfadados, enfileirados, entrincheirados!
Manada de mamíferos seguindo em frente marchamos pesados e numerados sobre a Terra. Passamos pela vida como se o tempo que nos leva até o jantar não tivesse nenhuma serventia outra que não a de tocar (e sermos tocados) adiante.
_ Cegos, como toda fé deve ser!
Concordamos, concedemos, consentimos...
Controlados e anulados, conseguimos.
_ Estamos incluídos!
E continuamos....
(_ Nossa existência a serviço daquilo que não entra na nossa cabeça.
E me falam de evolução, evoluídos? Dominam toda natureza, nos tomam a Terra e nos oferecem o mundo, o 1º mundo?
_ Sim, mas, prá amanhã, porque hoje tem, mas acabou.
_ É a vida!
Que vida?
_ Prazeres!
Prazeres?!
(É a cegueira que guia o cego! Gastar por impulso num shopping qualquer do hemisfério norte, ainda que no sul, tudo o que a Terra produz para nutrir gerações inteiras de seres vivos seus, que vivem alienados dela e ela deles? Extintos a cada dia mais e muitos. Tantos que nem contados foram e já se foram! Tudo para esquecermos de nós, com todo o resto lá fora também.)
Desenvolvidos.
Consumidores satisfeitos.
Devoradores distraídos no veneno!
(_ Perdoai as nossas dívidas...
_ Enquanto tomamos tudo de nossos devedores?)
Come chocolates, pequena, come! Porque há mais conivência no açúcar do que em qualquer outra iguaria trazida do além mar pelos avós dos avós dos que nos sorvem dela e agora.
_ Esquecidos...
Nos vejo crianças, aprendendo a confiar sempre na verdade, a respeitar a autoridade da sabedoria e a achar doce o açúcar. Enquanto a vida se mostra a cada dia mais traiçoeira, as autoridades sem sabedoria e tão amargo o rastro de sangue que a açúcar molha por nós e ainda.
E nos deixamos vendar por alusões passadas, ilusões presentes e perversões futuras.
Assumimos personagens que, em nós, funcionam no piloto automático.
Respondem o que calamos, torturam nossas mentes com cotas e metas alheias, comem por nós o que nos mata todo dia, nos distraem do que realmente nos importa. Nossas emoções mais profundas transformadas em vício romântico onde a felicidade se chega é no final. (_ E salvem a nossa aposentadoria!)
Se trocamos o desenho animado pelo noticiário da TV, o super-herói é o político antes da eleição e o vilão é ele mesmo depois de eleito!
O que devo ser quando crescer?
:
Ola Carla!!
O que vc deve ser, quando crescer?
Não sei, sei o que vc já é, fez ser ao postar
seu poema aqui no over...
Eis grande, nós possibilitando ver tão belo poema,
bem estilo de um poema em linha reta...
certeiro, ao fazer pensar em muitas direções...
Bela poética que espero poder ler mais aqui no over...
"...Um Atlântico de distância entre meu eu e o que não é meu em mim! "
At +, 1 abrço.
Tem um parente meu, Bernardo Soares, que não gosta de noticiarios (xii! noticiário perdeu acento? não me recordo na nova regra), mas é que ele não gosta de quase nada. Penso até que "gostar" para ele é uma coisa meio obtusa, de gosto excessivamente plebeu e caráter deliberadamente prosaico.
Acho que isso é um mal de família.
Mas, queria perguntar: ele foi convidado para está masturbação?
Fernando, em pessoa, não existe, propriamente falando.
(risos)
Do cacete, o texto. A estrutua lembra muito o Monsieur Teste, do Valery, de quem Pessoa era assíduo leitor e tradutor.
Se não leu ainda, tá mais que recomendado. Só é foda de achar aqui no Brasil em português. Mas vale a pena caçar.
Até mais ler, menina Carla.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!