Aos pais, órfãos de filhos

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Noelio Mello · Belém, PA
5/6/2007 · 142 · 27
 

Outro dia, conheci numa loja uma senhora, que entre um choro sentido e palavras angustiadas, entregava para a moça que a atendia vários convites para a missa de dois anos de falecimento de seu único filho homem. Ele que trabalhara naquela loja por um longo tempo, teve, no seu novo emprego, sua vida cerceada aos 26 anos de idade num acidente de moto.

Comovido, esperei a saída daquela mãe e sabendo do gigantismo da sua dor, a chamei para ser naquele instante o seu remanso, seu confidente, numa ousada tentativa de emprestar-lhe o lenço da minha alma, que talvez pudesse recolher suas tristezas e suas desesperanças. Nada fiz por simples curiosidade, mas, sim, porque a vida me ensinou a sofrer e ser solidário com as feridas e as dores alheias.

Como ela, também perdi um filho adolescente há três anos e sabia, portanto, que seu caminho era um chão de fogo de saudades. Tinha a consciência do grande castigo do cortejo das suas dores e do seu infortúnio espiritual.

A princípio éramos duas almas que conversavam sobre as emboscadas da vida. Sobre as traições do destino. Ela ouvia atentamente o que eu queria e precisava lhe dizer e me respondia o que os meus também angustiados ouvidos ansiavam escutar. Nossos corações tatuados pelos cravos das saudades uniram-se em comoventes núpcias.

Ali não mais existiam confessor e confessado. Naquela conversa não havia lugar para pieguismo, nem para as inverdades da alma. Eram apenas dois cúmplices sofrendo no arder das mesmas chagas. Dois pais, carregando nas paredes dos seus corações a dolorosa cor do luto por um filho que partiu.

Enquanto dividíamos nossas tempestades afetivas, contei-lhe o que aprendi nesta minha dura jornada - as tormentas que revolvem as entranhas de pais que perderam um filho só podem ser acalmadas pela bondade e misericórdia divina. Só a mão acariciante de Deus poderá ser o remédio miraculoso para cicatrizar essas feridas. Ela concordou.

Seu nome é Maria José. Lembrei-lhe que seu nome era duplamente santo e de repente já não havia mais pranto naquele diálogo. Disse-me que era encontrista em Marituba, município próximo de Belém, e que era imensa a quantidade de pais que buscam na fé católica, nos encontros dominicais, o bálsamo que possa amenizar esses açoites da vida.

Nossa história é semelhante. Perdemos nossos únicos filhos homens, mas Deus, em sua caridade infinita conserva ao nosso lado, saudáveis e amorosas, as nossas filhas amadas. Não foi preciso consultar nossos corações para sabermos o quanto é infinitamente grandiosa tamanha dádiva divina.

Falamos da efemeridade da vida terrena. Bisbilhotamos o céu azul. Se pudéssemos rasgaríamos seu ventre na tentativa de ver o invisível. Apesar dos passos vacilantes da nossa fé, pensamos no Reino Santo. Respiramos, vindo de muito longe, o aroma de um perfume novo, talvez gerado pela floração da eternidade.

Sem lutar contra o tempo de Deus combinamos continuar amando a vida, nossas filhas, nossos cônjuges e não desacreditar no fantástico momento de um reencontro.

Que todos os pais órfãos do amor de um filho, hoje ressuscitados, seres alados de Deus, mesmo que chorem a cada amanhecer, freiem suas justas revoltas, não desistam da vida e alimentem sempre suas esperanças nos encantamentos de todos os céus. Eu acredito. abençoadamente, eu acredito.

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Noélio A. de Mello
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Andre Pessego
 

Noélio, fiquei esperando tanta coisa, até mesmo saber se ficçao ou real. Lindo o enredo e a urdidura, um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 2/6/2007 22:31
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Noelio Mello
 

Andre.
Infelizmente ou felizmente tudo é real. O encontro, as conversas, as nossas perdas, as nossas desesperanças, as esperanças, o sonho do reencontro. A fé me conduz entre todas as ondas de dores.
Obrigado pelo comentário
Abraços
Noelio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 3/6/2007 02:07
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Adroaldo Bauer
 

Vamos combinar assim, caro amigo. Estou aqui porque convidastes e, como jornalista, pelo bom título que encontrastes, não por tempo que tenha sobrado, que não é disso que vivem as relações.
O tempo não existe, é o que sempre digo.
Criamos o que podemos enquanto o espaço não se dobra.
Agora vou ler o postado, depois comento o voto.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 4/6/2007 17:16
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Adroaldo Bauer
 

Querido amigo Noelio.
Senti dores algumas na vida. Da perda de amigos próximos, do tipo unha e carne, crescidos juntos ou muito perto.
Da perda de pai, de avós.
E tenho por minha mãe completando 82 anos em 14 deste mês um carinho e uma afeição, ainda que à distãncia pouca, que ela prefere morar só (vê se pode?) que talvez se aproxime do que falas em relação às filhas mulheres.
Ouvi e vi já por diveresas vezes pessoas de todas as idades, em muitas diferentes línguas falarem o que a lei natural nos faz acreditar: pais não deveriam remanescer aos filhos em vida.
Reluto em ir, já disse em um outro postado.
Pudesse ia ficando, disfarçando, fingindo de outro, porque a vida é o bem maior, único em cada ser.
Então, ainda assim, amigo, não sei estar próximo de ti em tamanha dor, que não é passageira, momentânea, nem rápida, nem ligeira.
É dor perene, cicatriz funda, de raiz forte.
Tão forte como és e mostra-nos a todos que és porque inclusive consegues, além de sobreviver a ela, amparar uma outra pessoa em dor igual.
Acredito que essa é tua forma de estar junto do teu querido filho ceifado em hora rasa.
E tua fé te embala e embala outros que te lêem e sentem o vigor da tua coragem se impor a dor.

Ternamente,
Teu amigo,
Adroaldo Bauer Corrêa

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 4/6/2007 17:31
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Noelio Mello
 

Adoaldo, amogo querido.
Obrigado por tuas santas palavras. Meu amor, minha paixão, partiu deixando-me a certeza que era um filho amado de Deus que apenas veio sentir a efemeridade do aroma terreno. Haverá o reencontro infinito com sua alma santa.
Por enquanto cumpro minha missão de consolar outros corações feridos.
Um forte abraço.
Noélio Mello.

Noelio Mello · Belém, PA 4/6/2007 18:16
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Thury
 

Noélio.
Crônica emocionante, real, comovente. Texto com colocações belissimas. Sei do seu talento de escritor, da sua dor e do seu poder de superação.
parabéns
Do amigo
Edu

Thury · Belém, PA 4/6/2007 18:59
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Marluce Freire Nascasbez
 

Noelio,


(..." há sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas"...)
Defino assim tuas mãos, teu coração...



Admirável criatura de Deus, quão grande sabedoria DIVINA é a tua! Mina de teus versos sabedoria, fé, doação, elevada nobreza de espírito. Parabéns!

Tão bela criatura és tu!

Um aBRAÇO meu já tão querido e amado AMIGO, Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 4/6/2007 23:01
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Cida Almeida
 

Escutar a dor do outro, ouvir a própria dor... Sem mais palavras!

Grande abraço.

Cida Almeida · Goiânia, GO 5/6/2007 10:12
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Noelio Mello
 

Cida.
Obrigado por teu carinho. A vida continua, apesar das suas emboscadas, dos seus gestos traiçoeiros. Chega-se a um certo momento na vida, que mesmo que não seja insípida a vida terrena, os segredos do infinito nos parecem belos como os lirios nos campos.
Apesar dos pesares, continuo sendo um homem feliz. Deus sabe nos consolar.
Abraços
Noélio Mello

Noelio Mello · Belém, PA 5/6/2007 11:01
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AZnº 666
 

Meus pais foram orfãos de filhos vivos, por ignorancia de meu pai fomos, 3 filhos, separados da nossa mãe na idade de 5/6 anos. Isso me fez não ter amor nem pelo pai, nem pela mãe!Criado pela tia sem carinho ou previlegio algum, cresci endurecendo, e endurecendo amadureci! Vai se separar amigo leitor: PENSE NISSO!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 11:59
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Noelio Mello
 

Posso perfeitamente compreender tua revolta interior. As tuas dores, as desesperanças. O podar do amor, dos teus sonhos. A vida nos ensina o cinza de muitos destinos. A insipidez de muitos amanheceres. Mas, a bondade divina te conservou a vida, a saude. Mais do que isso só encontraremos nos segredos dos céus.
Lamento, mas não entedi o que queres dizer com " Vai se separar amigo leitor". Para Noélio Melloquem vai esse recado?

Noelio Mello · Belém, PA 5/6/2007 12:19
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marcio rufino
 

Amém caríssimo Noélio,
que Deus te abençoe. O seu conto me deixou comovidíssimo, pois, apesar de ainda não ter filhos, sou único filho homem e amor não se recebe se sente e se transmite e tudo nessa vidaé taão r''apido que quando pensamos em dizer um simples e mísero "ëu te amo" já era, já passou tudo e a gente nem percebeu.
Não tenho mais palavras, foi lindo, parabéns.
Abçs!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 5/6/2007 13:14
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marcio rufino
 

Seu filho onde quer que esteja está te olhando com os olhos do mesmo amor que o gerou que é o amor de Deus Criador.
Fique com Deus!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 5/6/2007 13:21
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marcio rufino
 

Se um dia eu sofrer tão intensa dor como essa quero ter pelo menos a metade de tua força.
Agora chega, tchau!!!

marcio rufino · Belford Roxo, RJ 5/6/2007 13:24
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Noelio Mello
 

Marcio.
Obrigado por palavras tão ternas. Infelizmente a vida é feita de glórias e perdas. Temos que aprender a conviver com elas, mas só com a ajuda de Deus, não importa a religião, conseguiremos deter as lágrimas dos olhos. As da alma serão eternas.
Obrigado meu já querido amigo. Deixo claro que esta crônica nunca visou o pieguismo, mas, sim, despertar nos corações ateus o sublime poder e a bondade divina. Na verdade são incontáveis os pais que neste momento vivem uma alucinação de saudade e tentariam, se pudessem, rasgar o ventre da terra para buscar um comovido abraço dos filhos amados.
Não podeesquecer, todavia, caro amigo, que a eternidade nos espera com a sua profusão de luzes. a Felicidade plena.

Um forte abraço

Noélio A. de Mello

Noelio Mello · Belém, PA 5/6/2007 16:26
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Egeu Laus
 

Um abraço, Noélio.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 16:31
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Noelio Mello
 

Egeu.
A prpmessa está de pé. Vou te visitar. Obrigado pela presença.
Abraços
Noélio mello

Noelio Mello · Belém, PA 5/6/2007 17:08
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Benny Franklin
 

Noelio, Salve!
Perfeito. Sua última postagem no Diário e aqui, no Overmundo, é pão na mesa do mundo.
Abçs, Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 7/6/2007 16:04
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Saramar
 

Noelio, meu querido, confesso que relutei e neguei o comentário.
Perdoe-me, sou frágil e fraca para dores tão imensas.
Votei, li, reli, chorei, fiuei emocionada e fugi.
Porém, meu doce amigo, essa não é uma história (ainda mais de duas pessoas) que possa ficar sem uma palavra.
Digo-lhe que a palavra é de agradecimento. Já percebi que você é um anjo muito mal disfarçado (anjo não sabe mesmo dessas coisas de disfrace) e, no mais profundo "arder de sua chaga" ainda consegue oferecer o "lenço da alma" para seu semelhante.
É profundamente humano e, ao mesmo tempo, ultrapassa a própria condição da humanidade em sua doação.
Permita-me dizer, com reverência, que o admiro como a flor admira o sol.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 8/6/2007 01:00
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BETHA
 

Não pensei que, num primeiro contato com sua leitura, fosse aprender tão grande lição de vida, coragem e fé. Seu texto não é um presente apenas para a literatura, mas sobretudo para as almas.
Abraços.

BETHA · Carnaíba, PE 8/6/2007 15:49
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Sérgio Franck
 

Bem, Noelio, sou um cara que iniciou muito jovem seus processos de perda. Ainda estou digerindo a última delas que foi a maior.
Tive que reinventar minhas maneiras de viver. No inicio até pensei que jamais suportaria, porém, o mundo, mesmo com seus ladridos de desigualdades, é o único lugar que se sabe ao certo, onde podemos sentir prazeres e experimentar das essências e dos sabores das coisas.
Digo, mesmo sendo um simplório usuário das palavras, que cronistas como Rubem Braga beberam da fonte e não foram egoístas, deixaram aos próximos a porta aberta e um bom gole de inspiração.
Abraço, bom cronista.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/6/2007 13:59
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Tati MOTTA
 

A fé nos faz caminhar... Abraços! Lindo, parabéns!

Tati MOTTA · Belo Horizonte, MG 11/6/2007 10:08
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Cintia Thome
 

Noélio, prantos...
Mas a vida faz a gente aprender a fazer da dor um estímulo para mostrar aos desavisados que a roda não gira tão certa assim...
vou imprimir...

Leia: Quando acontecem coisas ruins a pessoas boas...Talvez tenha lido, eu leio e releio...
Eu não preciso comentar nada, apenas posso, se permitir, assinar...

Cintia Thome · São Paulo, SP 30/8/2007 07:24
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Marcos Pontes
 

Vim, Noélio, e me comovi. Entendo melhor seu comentário em meu texto a partir dessa sua crônica. Não há nada que possa dizer, a alma fica gaga diante desses relatos, a não ser me solidarizar com você nessa dor que nunca acaba, apenas se disfarça de conformismo.

Marcos Pontes · Eunápolis, BA 18/11/2008 15:49
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Ivette G.M.
 

Noélio, me desculpe, mas, primeiramente quero dizer algumas palavras ao AZn. Meu querido, sente-se em você uma revolta gritante, pois lhe faltou o amor de mãe e de pai. Trabalhei alguns anos com crianças abandonadas e senti que, para o abandono, o perdão fica muito difícil. No caso dos órfãos, fica a tristeza, mas para os abandonados, ficam uma mágoa e uma revolta difíceis de abrandar.
Essas crianças com quem trabalhei, são hoje adultos. Me dão exemplo de força, de coragem e de sublimação. Três delas são minhas afilhadas, que me telefonam todo dia das mães e, muitas vezes, em momentos decisivos de suas vidas.Telefonam para conversar, ouvir um conselho ou simplesmente uma palavra amiga. Quase todos e todas se casaram e tiveram, como premissa, nunca abandonar seus filhos, por pior que suas vidas possam ser. Um deles, Lúcio, acabou por abrir, em sua própria casa, um lar, um abrigo para outras crianças desamparadas. Isto se chama amor e fé irrestritas.
Nada amarga mais nosso espírito e nossa alma do que o rancor, a raiva e a revolta. Faça alguma coisa por você mesmo: perdoe seus pais, sua tia. Ilumine sua vida com objetivos no seu trabalho, na sua vida particular. Tenha filhos e dê a eles todo o amor que está guardado em seu coração. Não deixe o amor secar dentro de você.
Escreva, escreva muito, conte sua história, desabafe na literatura todo o amargor de sua alma. Depois, revisite sua história e faça-a bela e alvissareira. Espante seus demônios, exorcisando-os na sua escrita.
Não sei como posso lhe ser útil, mas daqui do overmundo, se for necessário, pode me contatar. Conversar não custa nada e não cobra pedágio.
Um abração muito carinhoso para você.
Noelio, desculpe utilizar o seu espaço, mas tendo a força, a alma e o coração que você tem, tenho certeza que o AZn encontrá guarida em seus ensinamentos.
Esta sua crônica é apenas mais um pouco de revelação, para mim, de como o sofrimento pode aperfeiçoar o ser humano. Continue oferecendo um pouco de sua luz a todos nós.
Um abraço apertado e um beijo em seu coração e de sua família.
Ivette G M

Ivette G.M. · Cotia, SP 26/1/2009 20:52
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Fatima Paraguassu/Santa Cruz de Goiás
 

Meu filho, aos 19 anos, sofreu um AVCI. Na época, chorei, me angustiei, mas Deus o retornou sem nenhuma sequela. Quem o vê hoje, se não souber do incidente, não imagina o que lhe aconteceu.Ele está vivo! Agradeço a Deus e rezo pelos pais que viram seus filhos partirem para o outro lado do caminho.

Fatima Paraguassu/Santa Cruz de Goiás · Santa Cruz de Goiás, GO 30/12/2009 15:11
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Fatima Paraguassu/Santa Cruz de Goiás
 

Acidente

Fatima Paraguassu/Santa Cruz de Goiás · Santa Cruz de Goiás, GO 30/12/2009 15:13
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