Ela naquela manhã acordou sentindo seus 42 anos como se fossem 50. Enquanto levantava, juntou seus pedaços como sempre fazia em todas as manhãs. Após o inevitável café da manhã, feito por ela e só para ela, foi até a mercearia onde comprou algumas coisas para cozinhar no almoço, que também serviriam para colar seus pedaços durante o dia. Fez o almoço, antes da hora como sempre, e esperou o marido. Como sempre. Engoliram em silencio a comida sem gosto. Enquanto ela tirava os pratos da mesa ele a agarrou por trás e fez sexo, em pé, encostado na pia. Gostou tanto da refeição quanto da sobremesa. O marido se limpou rapidamente, com o pano que estava mais ao alcance da mão, e voltou ao trabalho, pedalando, com raiva, a velha bicicleta sob o sol forte. Chegou na industria antes do horário de entrar e ficou esperando tocar a sirene. Tocou. Entrou.
O amante dela chegou no meio da tarde e a encontrou estendendo roupas no varal, no fundo da casa. Novamente sexo em pé, em meio aos lençóis e toalhas de mesa secando sob o sol forte. O amante após se limpar rapidamente com o pano do varal que estava mais ao alcance da mão, se foi, sorrateiramente como os amantes devem-se ir.
O marido vivia aos pedaços, mas, como todos os homens, preferia não pensar muito nisso. Na verdade, como alguns homens, preferia não pensar em nada. Se achava vivendo dentro de um sonho triste, que não era dele, sem saber que ninguém vive um sonho que não seja o seu. Naquela manhã pegou sua velha bicicleta e foi trabalhar sem o café da manhã. Chegou atrasado. Na hora do almoço chegou em casa suado de pedalar sob o sol quente. Mastigou sem vontade a comida enquanto pensava que estava tão gostosa quanto a sola de seu sapato. Não disse nada, não reclamou de nada, mas para se vingar fez sexo com a esposa-cozinheira, em pé, encostado na pia. Após se limpar rapidamente, com o pano que estava mais ao alcance da mão, voltou ao trabalho pedalando, com raiva, a velha bicicleta sob o sol forte. Chegou adiantado e teve que ficar esperando a sirene tocar. Tocou. Entrou.
O amante vivia juntando o pedaço das mulheres dos outros, ou talvez, despedaçando-as ainda mais. Naquela tarde, mais uma tarde, ele ficou parado atrás do balcão da mercearia observando se o marido dela iria passar pedalando sua velha bicicleta rumo ao trabalho. Passou. Então ficou esperando que o dono da mercearia o mandasse fazer alguma entrega de bicicleta. Mandou. Encontrou-a em meio às roupas estendidas no varal do fundo da casa. Fizeram sexo, em pé, tão gostoso quanto um café frio e amargo. Após se limpar no pano do varal que estava mais próximo de suas mãos, ele se foi, sorrateiros como devem-se ir os amantes.
Naquela manhã, como em todas as manhãs, enquanto o dono da mercearia varria a calçada, de cabeça baixa, o marido passou pedalando sua velha bicicleta rumo ao trabalho. Um não viu o outro. Um pouco depois chegou o funcionário e se posicionou atrás do balcão, esperando pelas mulheres mal-amadas. No meio da manhã uma delas chegou fingindo comprar coisas para o almoço.
Um mini-conto aspero, pontiagudo, prá deixar um gosto amargo na boca.
Eita Heraldo que labirinto narrativo.
Muito bom
Parabéns
abraços
Enredo e trama não faltam neste conto gostoso, Heraldo. Gostei bastante!
beijos poéticos,
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