Como diz o desassossego de Fernando Pessoa, os Homens que querem pensar o que sentem precisam estar acima da gramática. Ele bem colocou em seu único livro de prosa que, para fotografarmos em palavras, é preciso abdicarmos muitas vezes da correção gramatical. Ele cita:
“Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, “Aquela rapariga parece um rapazâ€. Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, “Aquela rapariga é um rapazâ€. Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, “Aquele rapazâ€. Eu direi. “Aquela rapazâ€, violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de gênero, como de número, entre a voz substantiva e adjetiva. E terei dito bem. Não terei falado: terei dito.
(...)
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente.â€
Proponho, baseado na desconstrução proposta por Pessoa, uma criação coletiva caótica e infinita, onde todos os participantes poderão criar a qualquer hora e por quantas vezes desejar através do campo “comentáriosâ€, em prosa ou versos – em qualquer estilo. Então não falemos: Diremos:
LIVRO 1
Aquela rapaz caminhava sozinha na multidão. O silêncio absurdo na avenida caótica da cidade grande era explicado pela interiorização interna do espÃrito dela. Não da mente, do espÃrito. Caminhava ali, mas seus passos ali não estavam. Pisavam nas lembranças do passado.
Ela desconfiava que fazia parte de uma história coletiva. E que se o destino realmente existisse ele não estava escrito e sim sendo escrito por diversas pessoas desconhecidas. Essa era mais uma de suas sensações loucas responsáveis por levá-la até aquele beco.
LIVRO 1.1
Parecia-lhe que o mundo avernal lhe cercava, um estupor que reverberava nos seus recônditos de intimidade punha-se de cara com o lado mais assustador do ser humano. Fariam-lhe uma devassa e ditariam o seu ritmo, a despeito do que quisesse. E esse facho de luz intermitente traria um incômodo extra, a possibilidade de ser conduzida por lugares escuros e nojentos por outras mãos. Tornar-se-ia uma boneca de vaudeville? Ou seria apenas protagonista involuntária de um sequestro experimental sob o jugo de dândis criativos? Tudo ainda era muito confuso, e por um momento desistiu de se imaginar como Perséfone, em eterna vigÃlia pela alma dos falecidos. Mas onde estariam os mortos que cometeriam tais arbitrariedades? Só perguntas, mas nenhuma resposta.
LIVRO 1.2
A cadência do pêndulo extra carnal aumentara nos últimos minutos, o que a condicionava a ser espectadora dos próprios movimentos, como se fios, cordões ou varetas se prolongassem pelos seus músculos, tendões e ossos. O seu manipulador era preguiçoso, talvez aguardando a chegada dos trovadores provençais, enquanto eu, figura antropomórfica para ele, estava entregue a ancestralidade de uma arte da qual nem gostava. Eu, figura perdida nos arrabaldes do imaginário, fantasiada num arremedo de Guinhol para os meus próprios olhos. Não haveria de dar certo, mas também não havia escolha alguma a ser feita.
LIVRO 1.3
ela riu, ele riu
penou devagar por entre palavras
palavras pretensiosas
o infinito coube no horizonte dos avessos
uma estrada
uma pessoa
o jovem rapaz morreu de susto
assim:
O sonho acabara. Ela já não era ela, era eu. Nós eramos todos e todos eramos um. Perdemos a identidade, o caos instalara-se e a loucura se apoderou dos corpos trazendo o medo.
Correndo em cÃrculos enquanto asas cresciam em nossas costas precipitamo-nos no abismo em direção ao infinito.
Amanhecia e o sol parecia felicitar nossa nova existencia.
Eu achei a tua proposta muito interessante amigo. Meus sinceros aplausos e abraços.
Carlos Magno.
Levantei e percebemos que o sonho era tão real quanto aquele quarto, aquela cama. Não lembrava daqueles móveis imóveis, nem daquele imóvel que girava em minha cabeça. Levantei-me e fui ao banheiro. Não tinha espelhos, o que me fazia refletir através do tato. Tateando minha face não me recordei de quem eu eramos. Homem, mulher, um, muitos... Precisava saber a verdade.
Paulo Esdras · Brumado, BA 16/10/2007 11:51
Molhado dia
Manhã de chuva
Minha sombra
cativa da atmosfera
em versos assopra
no vôo das andorinhas
na copa do destino
Lembrei-me dos versos que são a minha vida. Uma manhã de chuva... Precisamos passar novamente a escrever nosso destino!
Aquela-rapaz veste-se e sai nua, sem máscaras. Nunca mais aceitaria ser quem nunca fora de fato. Na copa do destino...
Bom!!! Muito bom!!
VotadÃssimo. Volto outra hora, mais inspirada a completar...
Abraços!
Ela desconfiava, como já disse, que o seu destino era escrito por diversas pessoas ao mesmo tempo; assim, tudo que ela fizesse ou desejasse já estaria pronta nas intenções daqueles que escreviam. Tudo o que ela viveu e então vivia em sua casa cujos quartos não conhecia direito, tudo isso já esteve escrito em algum lugar. Ela desconfiava que, aquela morte antiga, por exemplo, fora coisa de outro alguém, um dos que ela tanto temia e desconhecia.
Ela desconfiava etc, etc.
Por exemplo: há duas noites não conseguia encontrar a escova de dentes azul com cerdas amarelas e o creme dental branco com listras vermelhas. Tais objetos, extremamente pessoais, só poderiam ter assim desaparecido por obra de um daqueles que em algum lugar pensou algo assim e escreveu no livro de sua vida. Entretanto, ela ficou ainda mais espantada ao considerar que, aqueles objetos tão Ãntimos - a escova de dentes azul com cerdas amarelas e o creme dental branco com listras vermelhas - não eram, visto que também haviam sido pensados e definidos por outro desconhecido que escrevera isso no livro. Um tremor ainda mais perturbador atravessou-lhe a espinha: tudo o que pensava, agora, e escrevia em sua agenda, narrando ponto por ponto, nada mais era do que um texto já escrito, escrito neste segundo por alguém desconhecido etc, etc.
Ela chegou à conclusão definitiva para a sua angútia de então:
- Eu sou um texto.
Eu sou uma escrita perdida nos contratos entre ciclos, entre sonhos, entre luz, entre sombras... Eu sou duplo das dimensões vividas nos represamentos da insônia manhã que me foge... E sou a manhã profana... Eu sou o sagrado do alvorecer e a linguagem dos pássaros ao amanhecer... Eu sou o câncer que me corrói... E sou um coletivo câncer que caminha a passos largos para o suicÃdio do aquecimento global... Eu sou a instituição!
Estou no limite...
Confirmando "Pessoa"
Quem não sabe pensar o que sente
pensa que faz boa literatura
se obedecer o que a gramática dita.
Entretando, assim fazendo
construirá obra que nunca será prima
da melhor escrita.
O grande Fernando Pessoa,
citando exemplo ocorrido
com sua própria pessoa,
ensina que prima da melhor
construção fraseal
acontecerá quando o autor criativo
mesmo sem falar,
tiver dito,
já que "falar é dizer".
Prova o que disse
revelando que sua frase
"Aquela rapaz"
sintetizou melhor aquilo que os olhos viam
ou seja,
desfile de alma masculina em corpo de mulher!
Eu sou o limite...
O limite imposto, o autolimite.
A prisão de idéias, as fronteiras e a consciência, o bom senso.
Escrevo linhas retas e perco-me em meu emaranhado de palavras aparentemente sem sentido. Apenas neste momento deixo-me respirar sem dificuldade. É quando eu sou o absoluto ser de mim mesmo.
"Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem..."
Eu hoje anoiteci Adriana Calcanhoto.
Amanhã, quem sabe, amanheço Ney Matogrosso...
os sonhos já se sucediam há algum tempo. o palavrear lhe parecia absolutamente fugaz, ou perdido nas lonjuras do dicionário enciclopédico que se tornara sua vida. vida finita mas capaz de durar eternidades sem limite! sim , limite é a melhor de todas as palavras, ele era o limite mas também a ousadia e a coragem. E aqueles sonhos reverberavam além de todas as fronteiras. os mitos, os hipócritas e os loucos, todos se ajuntavam no horizonte de titânio, no caminho dos tijolos amarelos, na estrada para perdição. a mente extrapolava um riso tolo , enquanto a face se organizava em abrasivo sofrimento: éramos todos um, aquele do limite, do rapaz, da moça, um único pensamento fugidio, isolado no lado sombrio da lua, escancarado num equinócio de verão...Foi quando lhe chegaram ao conhecimento os sonhos apocalÃpticos: queria simplesmente dizer que existia, não podia, existir é ser em si, ele se sentia fora de si, uno, mas cindido em várias existências. Aquietou-se quando da janela brotou o primeiro raio áureo da manhã, o dia alvorecera e com ele todo aquele embaraço, todo aquele paradoxo anacrônico, todas as dúvidas agora lhe cabiam dentro de um gole dágua que perpassava suas cordas vocais...Encontrava-se novamente em si.
Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 28/1/2008 20:11
Digo o que sinto aqui por dentro, ainda que os olhos desdigam e o verso não contenha em suas sÃlabas-caixas tão iguais, o sentido do que percebo.
Digo o que vejo e beijo. Preciso que o lido do que digo seja outro mundo, se assim for.
Só digo o que quero, ainda que seja o avesso do trânsfuga de qualquer dizer porque no que digo há um só ser: eu (e meus desejos).
(que meus desejos)...Ainda que por serem egoÃstas sejam meus desejos que posso compartilhar com aqueles que buscam no ser a razão das coisas. Suponhamos que "Aquela rapaz" fosse o que nunca cogitarÃamos que fosse? PoderÃamos julgá-la? E que vivam os opostos e diferentes dentro do mesmo espaço. Pois me ponho a andar e não observar os demais, somente áqueles que me chama atenção pelo belo, másculo, contido para mim no caminhar do Eros do sexo oposto a mim.
Boa idéia...da parceria..que venham muitas! Tenho bons resultados compartilhados entre amigos-poetas, letristas e compositores em minha terra. Legal Paulo. Valeu a idéia!
oposto a ti e entre minhas pernas, balançando sem cueca, sem sentido. mas com um cérebro imaginário pedindo a você: abrigo. ele é amigo apesar de machucar as vezes, ele é amigo acredite, deixe ele entrar e acredite! e se não acreditas fique com sua melancolia e blá blá blá de solidão e poesia. podem até dizer, esse ai é maluco, mas vou oposto a ti e ereto e ardendo e sedento, sendo o outro inclusive você, por mais que me negues, não tem como fugir e sim te como com os dentes só pra dizer melhor sobre minha vertente que também não é nada. entro e saio e entro e saio, sou você, gozo em você. aceite e acredite, saia dessa burrice e da pretensão de ser só. Venha, vamos.
... (...) ela saiu de casa por ser infinitamente contrária ao totalmente chatÃssimo polÃticamente correto e por não perceber a diferença dos pares sem pares que a vida lhe trouxe...
Ela, para muitos era ela...
para alguns ela era...
para ela, ....
....
(...) era simplesmente um ser ávido a viver intensamente tudo o que acreditava no seu Ãntimo... para ela, pouco importava os olhares ferozes, mesquinhos, julgadores, ela queria era ser livre e feliz. E, chegando o entardecer, ela parou para refletir sobre tudo que até o momento tinha vivido, sentido, perdido... e pensou: prosseguir é necessário...
ILZE SOARES · Salvador, BA 30/1/2008 00:09
... e até um certo ponto útil. Mas, que preço pagaria pela sua liberdade? O fato de ser livre implica em uma série de responsabilidades... Lembrou da história do Cachorro Encolheirado do Azuir Filho que ao se ver livre da colheira sentiu vazia a barriga... Seguir, prosseguir... irá conseguir? ....
W@nder · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2008 09:21
Paulo Esdras · Salvador (BA) ·
As Coisas relativas ao Humano merecem um tratamento dialectico e náo lógico.
Somos pela defesa da lingua e em determinadas circunstáncia,
......abdicarmos muitas vezes da correção gramatical.
AsRegras para os Direitos e o Entendimento Humano estáo acima das regras da gramática.
Com Boa vontade amor ao próximo se constroi a solucáo necessária.
Experimente se compreendeu.
Vai uma imensidáo neste discurso que náo se esgota aqui, mas ficou a idéia e a indicacáo do Livro Principios Fundamentais de Filosofia de George Pollitzer.
Parabéns pelo Seu Trabalho, é uma imensidáo.
Abraco Amigo
Parabéna
"Seguir, prosseguir... irá conseguir?" "Seguir, prosseguir... irá conseguir?"
Parecia uma canção agourenta de algum duende inexistente fora de minha cabeça, martelando e provocando.
As pessoas me julgam uma pessoa boa. Mas não deixam cair a cortina e ver que na verdade nenhum de nós é verdadeiramente bom, pelo menos o bastante para ser aprovado por todos que teimam em segurar com todas as forças a sua própria cortina.
Os caminhos que me levam a estas ruas são os mesmos que durante milênios trouxeram os homens e mulheres sem horizontes.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!