O Rio de Janeiro é famoso por dar ao mundo suas figuras folclóricas, seus personagens antológicos, suas criaturas insuspeitáveis. E uma dessas personagens da Cidade é sem dúvida alguma o herói, ou anti-herói para ser mais preciso, das rapsódias que se seguem. O nome do rapaz para os íntimos, e para os não íntimos também, é Arapinga. Uma ternura de nome e uma ternura de pessoa. Mas já começo a falar e devo, sem demora, apresentá-lo mais detalhadamente aos leitores.
Cumpre adiantar, no entanto, que as pessoas costumam, ao mais leve contato com suas peripécias pela vida, se tomar de amores desmedidos pelo Arapinga. Esse ímpeto é plenamente justificável, porque o rapaz é, como já disse, uma figura doce, terna, cativante. São esses rompantes que levam a cenas como a que vivencie outro dia mesmo. Estava passando próximo à estação Uruguaiana do Metrô quando fui abordado e agarrado pelo braço por um dos admiradores de nosso amigo. O transeunte ao me ver não titubeou e disparou de imediato e com toda efusividade: -“E o Arapinga, como vai a figura?” Ao que eu tive de responder:- “Vai bem, obrigado. Vai bem, obrigado.” Outros, que já conheciam uma ou outra passagem da vida do nosso protagonista (mais íntimos e mais interessados, portanto), queriam saber detalhes sobre o rapaz e pediam a mim os pormenores. Chegavam mesmo a indagar: “-Mas como é o Arapinga fisicamente?”
Bom, descrever o Arapinga é falar basicamente de duas de suas características mais evidentes: a franja e o sorriso. Vejam que coisa insólita: apesar de ter a nuca raspada à máquina zero, o Arapinga carrega uma franja alada e extravagante que se projeta acrobaticamente sobre sua fronte. Diriam alguns que o cabelo do Arapinga cresce para a frente. Fato com o qual eu teria de concordar de maneira inapelável: “-Exatamente, exatamente.” Pois o rapaz tem mesmo uma coreografia, que exercita o dia inteiro, que consiste em arremessar a todo momento a franja para o alto e para trás e depois ficar aguardando que ela se rebele e volte em movimento contrário a cobrir o seu rosto. E é no instante mesmo em que a franja é lançada ao ar que surge o que é mais emblemático na pessoa do Arapinga: o seu sorriso. O surpreendente desse sorriso é que ele não sai da cara do nosso amigo em ocasião alguma. O Arapinga passa seus dias sorrindo para os outros. Perguntariam alguns: “-Mas ele nunca gritou, brigou, esbravejou?” E eu teria de responder: “- Nunca, nunca.” O mundo pode vir abaixo que o Arapinga segue com seu doce sorriso.
O FARAÓ E SEU CODINOME
Pois eis que no afã de descrever assim de sopetão e para marcar o começo dessa narrativa o Arapinga acabei, há pouco, por cometer uma gafe indesculpável. Um erro tamanho e irreparável para com um amigo. Esqueci mesmo, senhores, de fazer menção ao seu estatuto de nobreza. E nobreza que faz par com a linhagem historicamente mais rica da galeria de faraós egípcios. Além do topete alado e do sorriso, o Arapinga também exibe como adereço adicional na parte inferior de sua face um soberano cavanhaque. A presença da barbicha é tão pronunciada em seu rosto que leva alguns amigos mais próximos a usá-la como referência jocosa para se dirigir ao rapaz pelo apelido de Tutancamon, ou, de maneira mais breve, Velho Tuta.
Mas, e Arapinga, de onde vem esse nome? Bom, não se trata obviamente de nome de batismo. Muito embora, não faltem aqueles que jurem de pés juntos que o nome dele sempre foi esse antes mesmo do nascimento, dada a dificuldade de se encontrar outro qualquer (Raimundo, João, Francisco, Severino, Roberto) que combine mais com aquilo que descreve. A história nasceu no balcão de um distintíssimo pé-sujo e partiu da cabeça inventiva de uma figura não mesmo folclórica da vida carioca, o Comandante Nelson.
Dono de um talento inquestionável, uma verdadeira biblioteca ambulante, saber intelectual e boa conversa em todos os campos do saber. Este é o meu professor. Além de tudo, escreve maravilhosamente bem. Minha nota é 1000 !!!!!!!!!
Eduardo Teixeira · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2006 10:37
O Eduardo Teixeira disse tudo. E eu adorei!!!
Adorei a figura e a coreografia da franja! Muito bom!
AndreaR · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2006 19:28
Conto de sotaque extremamente carioca, cheio de simpatia, bom humor e malemolência, vide o movimento da franja, do já nosso querido, Arapinga.
Adorei! Conta, aí, Kiko, quais são as novas da ilustre figura?
Ae tio coronha!
Mandou muito bem!
Bjuxx da sua sobrinha predileta,
Ana Carolina
Marcos Pedrosa é uma pessoa que tive o prazer de ser aluna e aprender em poucos meses como "viajar" e adquiri conhecimentos com as literaturas e pesquisas jornalísticas. Professor, o texto está muito bom, adorei. Parabéns!!! Quando é que teremos outra estréia literária? Beijos, Cristiane Barros.
Cris Barros · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2006 14:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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