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ARAPINGA - RAPSÓDIAS DE UM ANTI-HERÓI CARIOCA NASCIDAS NO FOLCLORE DAS RUAS

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Kiko Pedrosa · Rio de Janeiro, RJ
10/6/2006 · 83 · 7
 

O Rio de Janeiro é famoso por dar ao mundo suas figuras folclóricas, seus personagens antológicos, suas criaturas insuspeitáveis. E uma dessas personagens da Cidade é sem dúvida alguma o herói, ou anti-herói para ser mais preciso, das rapsódias que se seguem. O nome do rapaz para os íntimos, e para os não íntimos também, é Arapinga. Uma ternura de nome e uma ternura de pessoa. Mas já começo a falar e devo, sem demora, apresentá-lo mais detalhadamente aos leitores.
Cumpre adiantar, no entanto, que as pessoas costumam, ao mais leve contato com suas peripécias pela vida, se tomar de amores desmedidos pelo Arapinga. Esse ímpeto é plenamente justificável, porque o rapaz é, como já disse, uma figura doce, terna, cativante. São esses rompantes que levam a cenas como a que vivencie outro dia mesmo. Estava passando próximo à estação Uruguaiana do Metrô quando fui abordado e agarrado pelo braço por um dos admiradores de nosso amigo. O transeunte ao me ver não titubeou e disparou de imediato e com toda efusividade: -“E o Arapinga, como vai a figura?” Ao que eu tive de responder:- “Vai bem, obrigado. Vai bem, obrigado.” Outros, que já conheciam uma ou outra passagem da vida do nosso protagonista (mais íntimos e mais interessados, portanto), queriam saber detalhes sobre o rapaz e pediam a mim os pormenores. Chegavam mesmo a indagar: “-Mas como é o Arapinga fisicamente?”
Bom, descrever o Arapinga é falar basicamente de duas de suas características mais evidentes: a franja e o sorriso. Vejam que coisa insólita: apesar de ter a nuca raspada à máquina zero, o Arapinga carrega uma franja alada e extravagante que se projeta acrobaticamente sobre sua fronte. Diriam alguns que o cabelo do Arapinga cresce para a frente. Fato com o qual eu teria de concordar de maneira inapelável: “-Exatamente, exatamente.” Pois o rapaz tem mesmo uma coreografia, que exercita o dia inteiro, que consiste em arremessar a todo momento a franja para o alto e para trás e depois ficar aguardando que ela se rebele e volte em movimento contrário a cobrir o seu rosto. E é no instante mesmo em que a franja é lançada ao ar que surge o que é mais emblemático na pessoa do Arapinga: o seu sorriso. O surpreendente desse sorriso é que ele não sai da cara do nosso amigo em ocasião alguma. O Arapinga passa seus dias sorrindo para os outros. Perguntariam alguns: “-Mas ele nunca gritou, brigou, esbravejou?” E eu teria de responder: “- Nunca, nunca.” O mundo pode vir abaixo que o Arapinga segue com seu doce sorriso.

O FARAÓ E SEU CODINOME
Pois eis que no afã de descrever assim de sopetão e para marcar o começo dessa narrativa o Arapinga acabei, há pouco, por cometer uma gafe indesculpável. Um erro tamanho e irreparável para com um amigo. Esqueci mesmo, senhores, de fazer menção ao seu estatuto de nobreza. E nobreza que faz par com a linhagem historicamente mais rica da galeria de faraós egípcios. Além do topete alado e do sorriso, o Arapinga também exibe como adereço adicional na parte inferior de sua face um soberano cavanhaque. A presença da barbicha é tão pronunciada em seu rosto que leva alguns amigos mais próximos a usá-la como referência jocosa para se dirigir ao rapaz pelo apelido de Tutancamon, ou, de maneira mais breve, Velho Tuta.
Mas, e Arapinga, de onde vem esse nome? Bom, não se trata obviamente de nome de batismo. Muito embora, não faltem aqueles que jurem de pés juntos que o nome dele sempre foi esse antes mesmo do nascimento, dada a dificuldade de se encontrar outro qualquer (Raimundo, João, Francisco, Severino, Roberto) que combine mais com aquilo que descreve. A história nasceu no balcão de um distintíssimo pé-sujo e partiu da cabeça inventiva de uma figura não mesmo folclórica da vida carioca, o Comandante Nelson.

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informações

Autoria
Marcos Francisco Pedrosa Sá Freire de Souza (Kiko Pedrosa)
Ficha técnica
Autor: Marcos F P S F de Souza é professor universitário (Universidade Estácio de Sá), docente da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro e doutorando em Ciência da Literatura pela UFRJ.
Esse é o começo das narrativas envolvendo nosso protagonista. Elas poderão ter continuidade, se assim os leitores desejarem.
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Eduardo Teixeira
 

Dono de um talento inquestionável, uma verdadeira biblioteca ambulante, saber intelectual e boa conversa em todos os campos do saber. Este é o meu professor. Além de tudo, escreve maravilhosamente bem. Minha nota é 1000 !!!!!!!!!

Eduardo Teixeira · Rio de Janeiro, RJ 8/6/2006 10:37
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Carolina Landi
 

O Eduardo Teixeira disse tudo. E eu adorei!!!

Carolina Landi · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2006 10:10
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Beto Fae
 

Valeu poetinha!!! Mandou bem!

Beto Fae · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2006 18:51
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AndreaR
 

Adorei a figura e a coreografia da franja! Muito bom!

AndreaR · Rio de Janeiro, RJ 9/6/2006 19:28
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andrea estevao
 

Conto de sotaque extremamente carioca, cheio de simpatia, bom humor e malemolência, vide o movimento da franja, do já nosso querido, Arapinga.
Adorei! Conta, aí, Kiko, quais são as novas da ilustre figura?

andrea estevao · Rio de Janeiro, RJ 10/6/2006 13:05
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Carol Wester
 

Ae tio coronha!
Mandou muito bem!
Bjuxx da sua sobrinha predileta,
Ana Carolina

Carol Wester · Rio de Janeiro, RJ 11/6/2006 14:01
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Cris Barros
 

Marcos Pedrosa é uma pessoa que tive o prazer de ser aluna e aprender em poucos meses como "viajar" e adquiri conhecimentos com as literaturas e pesquisas jornalísticas. Professor, o texto está muito bom, adorei. Parabéns!!! Quando é que teremos outra estréia literária? Beijos, Cristiane Barros.

Cris Barros · Rio de Janeiro, RJ 10/8/2006 14:05
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