O Plantão de Bobagens
Informa em Edição Extraordinária!
(Sempre sob o patrocínio da inconseqüência e da absoluta falta do que dizer)
Hoje apresentando:
ARAPUCA DE NFOFÓ
(Bobagem número 3)
Minha bisavó – ou teria sido minha avó? - era praticamente uma criança quando veio para o Brasil. Era uma negrinha magricela, mas, tão magricela que, quando os brancos chegaram, tremia tanto de medo que não conseguiu nem correr.
Ela dizia que eles chegavam de mansinho, como quem não quer nada, como que cercando uma caça mansa qualquer e ficavam acenando lenços encarnados, escondidos no meio do capinzal.
Quando os benguela mais curiosos (ô gente curiosa estes benguela! Chegavam a perder os dentes de tanto morder as coisas que não conheciam, só para sentir o gosto que elas tinham) iam ver do que se tratava... Pou! O laço caía, o benguela trupicava, esperneava, até que, amarrado com os outros numa fila, ia seguindo por uma trilha da selva, até chegar na praia, até chegar no navio que, depois da eternidade mais comprida deste mundo, chegava aqui no Brasil.
Esta história que conto pra vocês agora (como gostava de contar história a velhinha de quem eu tive o que puxar) é uma história que ela contou pro meu avô que contou pro meu pai que contou pra mim e que eu, repassador de histórias que sou, conto pra todo mundo que quiser ler o que escrevo aqui.
(Até ontem isto era segredo de família, mas deixa pra lá. Isso era uma vez e segredo de três o diabo fez).
A incrível história da arapuca Nfofó
Vocês conhecem o Nfofó? Não? Pois o Nfofó (numidasimilus meleagris) era uma espécie de galináceo vistoso, primo-irmão da galinha d’angola (numida meleagris) - vocês conhecem a galinha d’angola?- pois o nfofó era um pouco maior, com a penugem mais escura, com umas pintas amarronzadas como ferrugem ou pinta de leopardo. Uma belezura de bicho, se poderia dizer. Dizem que era uma ave arisca a mais não poder, cismada. Quando assustada tentava, mas, não voava mais que meio metro, coitada. Não se acostumava em viver perto de gente de jeito nenhum e por esta razão era considerado um bicho chucro, selvagem (não que fosse bicho brabo não, muito pelo contrário). O certo é que os Nfofós viviam em bandos, escondidos no meio do mato.
Um detalhe importantíssimo, interessante mesmo para os meus parentes benguelas (cuja vasta consciência ecológica não chegava ao ponto de se descuidar de sua prioridade absoluta: a própria sobrevivência) era, sem dúvida nenhuma, a saborosa carne do Nfofó.
Foi por esta prosaica razão, entre outras, que os Nfofós foram rareando, rareando, até se tornarem apenas uma deliciosa lembrança gustativa nos sonhos senis de minha bisavó.
Mas, a culpa da extinção dos Nfofós não foi de forma alguma - é preciso ressalvar - só dos benguela ou de qualquer outro ser humano que um dia teve o glorioso prazer de comer aquela iguaria.
Foi o que minha bisavó defendeu até morrer.
O cronista austríaco Kurt Böhler Hoffenbauer que visitou o território benguela em fevereiro de 1883, a serviço do Kaiser Franz Josef, nos conta, cabalmente, que o cheiro dos ovos do Nfofó era muito forte, insuportável mesmo, porém, na mesma medida, irresistível aos homens, provocando neles uma estranha sensação afrodisíaca.
(Leia o seguimento no download)
Repetindo aviso importante:
Você vai perder a graça principal da história se não ler o download (inclusive as essenciais notas e referências antropológicas) até o final.
55 votos e um só comentário? Hum...
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2007 18:57
Fui pego pela Arapuca Nfofó! hunf...
Genial o texto Spirito! Não pude deixar de baixar o final a Arapuca. Parabéns!!!
Pô, Alcy...Até você?
Como diria o dr. Kurt Hoffenbauer: _"Ent schuligung!"
Cê para de ser chorão, 55 votos antes do meu e a vida continua,
achei maravilhoso, principalmente porque tenho um interesse enorme por curiosidades e cultura da raça a qual pertenço e amo.
Se pudesse eu votaria duas vezes ao dia em sua arapuca.
Acontece que:
O pessoal que tem acesso e frequenta essas comunidades de informação e cultura são maioria branca( ou se acha assim).
Talvês por isso sejamos minoria aqui também.
Parabéns e boa sorte.
Gostei principalmente do fato de você ter valorizado a informação
transmitida oralmente. O bisavô fala pro avô ,que fala pro pai, que
fala pra mim.
Parte de nossa cultura, parte de nossa hitória, nossa identidade,
nos foi negada, e só parte dela transmitida assim, por sendas obtusas, e articulações escamoteadas.
Vou embora, se não passo a noite inteira aqui falando.
Vá mas volte ao download por que, ao que parece, você também caiu na arapuca de nfofó! Rsssss :))))))
Abs,
74 votos e um só uma vítima da arapuca assumida...? Hum...
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2007 07:32
Spirito Santo, estava lhe mandando um abraço, via Ras, está dado, como diz um Mestre de Capoeira meu amigo "caralmente", quase.
- Lamentavelmente uso computador como se usava maquina de escreve nao passo do teclado. Nao consegui ver o segundo texto.
- Não é propriamente um comentário, é um desejo de reconhecimento. até breve.
Se voc~e quisewr eu te mando num anexo de e,.mail. É só dizer qual.
Abs,
Spirito
Spirito, claro até mesmo porque falar com voce é daquelas coisas que está me lembrando a meninice do meu lugar - um dos lugares de pessoas mais misturadas, misturadas cultural e etnicamente do Brasil - garimpeiros, vaqueiros, rezadores, cantadores e contadores; dançadores - do Brasil - andrepessego@ibest.com.br
Andre Pessego · São Paulo, SP 28/4/2007 13:18
André,
Mando logo, assim que puder. Só me lembra qual é o post que você quer.
Asb,
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