No trabalho Arnaldo não era nada; incopetente? Não, não era nada. Nem isso.
Ficava a tarde inteira em frente ao computador, escrevendo e revisando relatórios sem sequer saber para quê. Ou para quem. A sala era sempre quente: os dois enormes ventiladores de ferro não funcionavam. Ficavam sempre parados, observando, atentos a seu trabalho. Eram os chefes que Arnaldo não conhecia.
Arnaldo gostava mesmo era de ver. Via tudo; lixeira, quadro, papel, sapato, sujeira. Tudo. Seu olhar, sempre atento, competia com os dos ventiladores. Mas eles pareciam não ligar; afinal, Arnaldo não era nada.
Arnaldo de la Piedad. Seu nome era sonoro. E ele gostava de repetir seu sobrenome com um orgulho hispânico - o passado que nunca teve. "De la Piedad", às vezes dizia em voz alta, braço estendido, dedos eriçados como segurando um crânio no qual fixava o olhar com severidade. Não, mas não queria lembrar Hamlet. Talvez algo mais heróico, quixotesco. Pensava em cruzadas, armadura cintilante como se esquecesse que não é nada.
Precisava de um escudeiro, é certo. Olhando por cima de seu monitor cochicha ei, Pancrácio. Seu colega - denominação errada, mas Arnaldo não pensa em nada melhor - responde o quê foi, Arnaldo.
-Como posso matar um ventilador sem que o outro perceba? Pergunta olhando desconfiado, sobre o ombro, para os chefes estacados no outro canto da sala.
Pancrácio não entende, pergunta o quê? e Arnaldo repete a pergunta. Mas Pancrácio tinha ouvido, só não tinha entendido; mas, de qualquer forma, improvisa uma resposta e diz que talvez seja possível desligando-os da tomada para que não olhem para os lados, reposta à qual Arnaldo responde hmm.
Fica encarando os seus chefes. Parecem inofensivos daqui: uma mosca pousa despreocupadamente em uma de suas pás e lá permanece - entre a vida e a morte, pensa Arnaldo.
-Ei, Pancrácio.
E Pancrácio ergue os olhos por cima do monitor e responde o que foi, Arnaldo? e Arnaldo pergunta se ele acredia que algo possa ser infinito e eterno. Sequer escuta as risadas da mesa da Lourdes, mas ela faz questão em aumentar o volume, quase gargalhando, como nas vezes em que se debocha de algo - ou de alguém, tanto faz.
-Ah, tem sim, Arnaldo: a paciência do Pancrácio com suas perguntas - e prossegue com sua profunda gargalhada.
A sala inteira ri: Lourdes, Pancrácio, Sebastião, o menino das entregas. Todos riem, menos Arnaldo - que riu algum tempo depois, em casa, um pouco antes de rasgar os pulsos.
Em seu condado Arnaldo era tudo; herói? Sim, era tudo. Inclusive isso.
Passava os dias a arrasar ventiladores, destruir-lhes as pás e a marchar despreocupadamente sobre elas. Era infinito e eterno, aquele cavaleiro hispânico: cantado a todo momento por menestréis de sua terra, era imortal. Tudo lhe pertencia: lixeira, quadro, papel, sapato, sujeira.
Hummm... a idéia é boa e gostei do estilo, começa bem... mas em algum momento parece que você cansou e terminou a história rápido... ia ser legal ver um dia inteiro de Arnaldo...
Abraços!
Mas um suicídio não é terminar as coisas de repente?
:p
Vou tentar reescrevê-lo.
Abraço.
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