Arthur! ao andar no escurecer, te vejo nietzschedamente

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Leonardo Tessitore · São Paulo, SP
14/7/2007 · 40 · 2
 

"o que é amor, o que é deus, se lhes

falta qualquer gota de sangue?"

Rimbaud


Há homens que já nascem póstumos. Olhe para a cidade, ela os exala. Este putrefato cheiro que corroe vossas narinas, a passividade que caminha e entope suas veias, o coração já bombeia torto ao descompasso do ritmo da guitarra cortante, que distorce, despedaça e esmaga as ilusões docemente azuladas dos transeuntes. Na Paulista, o cigarro inebria ainda mais meus pensamentos, a escuridão me engole naquele grito final da música: “corra, corra, corra !” grita ela, e eu sinto o vazio e corro. Olho para cima e vejo a Augusta boiando no infinito dourado do céu, lar doce lar do meu corpo leve, das minhas sensações libertas, do seu gosto alcoolizado. O barco bêbado te suga, te lambe, te penetra com gosto, e os teus sentimentos me sorriem. Ébrio sussurro ao teu ouvido “Nada disso faria sentido se eu não os pudesse tocar e degustar. Rimbaud, Pessoa, Baudelaire e Shakespeare me dizem toda a noite, você é a forma mais bela da poesia” e o barco bêbado em meio a um rodamoinho plastificado ensurdecedor, continua a viagem ao desconhecido do seu ser.

Luzes cegam o meu enxergar, rostos rosa em corpos enfraquecidos anoréxicos me cercam. Falam sobre o tempo e uma enormidade de assuntos que não compreendo. Eu não compreendo o interesse pela vida alheia, o gosto por pedaços de pano que valem o mesmo que uma vida , a preocupação exacerbada com o corpo, eu não compreendo a vontade de ter. Eu tenho os meus sentimentos embaçados, a minha existência muda, meus livros e meus discos. E basta. Não quero ter ninguém. A não ser por uma noite. Eu não quero ter dinheiro, a não ser o necessário para desregrar. Eu quero socializar meus sentimentos musicados, minha língua poética vivendo no seu corpo e esporrar meus estilhaços de vontade. Eu não quero e não preciso ter ninguém. Já tenho as toneladas enfermas ferrugem do meu existir. Mesmo com esse peso às vezes a me sufocar acabei por considerar sagrada a desordem do meu espírito, que aceita mesmo as qualidades mais pavorosas e mais equívocas da existência, mas não aceita vender ou alugar seus preciosos segundos, minutos ou milésimos por tão pouco. Para a maioria nesse país, em que o aluguel da essência é necessário para o existir, a vida não passa de um caminho sem vida para a morte. O caminho para viver com vida é saciar os desejos. Os desejos não saciados tornam-se sonhos, e os sonhos finalmente tornam-se morte. E entre os sonhos e a morte está a esperança. Falar sobre esperança é como apostar no amanhã. E o povo nesse país morreu ontem. Foram mutilados e queimados, e os pedaços estão ai, pedindo dinheiro nas ruas, ou apinhados em prisões, como merdas da sociedade regurgitadas com lepra, esperando o fogo eterno do inferno.

Não venderei ou alugarei essa magnífica incógnita atemporal, que não tem historia, não dá resposta, que não nos mostra em vida se estamos bebendo o ultimo gole do seu fim ou degustando o primeiro sabor do seu começo. Parece-me o mesmo que dar fim ao um gozo desconhecido e infinito.

Ir-te-ei engolir com arte e vida entre Paulistas, Augustas e Consolações das dores, alegrias, bocas e línguas, até o sagrado segundo do seu fim, onde bêbado, direi sim para o desconhecido e finalmente cantarei o mais puro e único momento, da verdadeira liberdade.

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Autoria
Leonardo Tessitore
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Lioviola
 

TEXTO PERFEITO, AMIGO.

"HA HOMENS QUE NASCEM, PÓSTUMOS"

NIETZSCHE.

ABRAÇOS, AMIGO.

Lioviola · Carnaíba, PE 13/7/2007 08:44
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Benny Franklin
 

LEONARDO,
Gostei do super-texto. Muito bom.
Estou com ESSÊNCIAS VERDES MASTURBADAS, na Fila de Edição do Banco de Cultura. Quando puder tardinha destas de finas estampas, dê chegadinha lá... O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/essencias-verdes-masturbadas
Te espero por lá.
Abçs. Benny Franklin

Benny Franklin · Belém, PA 13/7/2007 19:47
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