Artigo sobre o treze de maio

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Bembé do Mercado · Santo Amaro, BA
7/7/2011 · 1 · 0
 

História Social - Revista dos pós-graduandos em História da Unicamp

Artigo sobre o treze de maio, a importância acadêmica que traz uma minuciosa reflexão de como a festa do Bembé do Mercado por exemplo, que foi e ainda é tão importante para compreender o Recôncavo conservador que não ``aceitava´´ as mudanças do processo de libertação dos negros,como também a disputa pela memória do treze de maio.
O grupo Bembé do Mercado,tem o prazer de dar visibilidade a historia das lutas sociais,do nosso povo negro marcado, mas cheios de axé!! Texto em fragmentos.

Artigo: O 13 de maio e as celebrações da liberdade, Bahia, 1888-1893

Walter Fraga Filho,é professor Adjunto da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia– UFRB.
Conceituado historiador ganhador do prêmio JABUTI mais importante prêmio literário do Brasil. Lançado em 1959, idealizado por Edgard Cavalheiro quando presidia a Câmara Brasileira do Livro

Texto em fragmento do
DOSSIÊ RACISMO: HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA História Social, segundo semestre de 2010 http://uranohistoria.blogspot.com/2011/06/revista-historia-da-unicamp-racismo.html
* Walter Fraga é professor Adjunto da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
– UFRB.

Fragmento pagina: 64
O 13 de maio e as celebrações da liberdade, Bahia, 1888-189
Walter Fraga Filho*

Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra
ter visto.
Machado de Assis, rememorando o dia da abolição em 14 de maio
de 1893.

Este artigo tem o propósito de refletir sobre as celebrações do fim da
escravidão na Bahia entre 1888 e 1893. A ideia é ver de que maneira os festejos
daqueles dias inserem-se no contexto dos embates e das expectativas nascidas
no curso das lutas contra a escravidão. O fim do cativeiro representou uma
notável vitória contra setores da sociedade baiana que defendiam a protelação
do processo de abolição. Mas também a festa aconteceu em meio a muita
expectativa sobre as transformações que deveriam seguir o fim do cativeiro.
Veremos que no calor dos festejos pela aprovação da lei Áurea e nos anos
que se seguiram àquele episódio definiram-se campos de disputa em torno
da memória da abolição. As disputas giraram em torno de personagens e
acontecimentos que ganhariam relevo na memória da luta contra o cativeiro.
Essas disputas foram parte dos embates políticos que sucederam o 13 de maio
de 1888 e a instauração da República. São esses assuntos que discutiremos
ao longo deste texto.
O 13 de maio e as celebrações da liberdade em 1888
Nos dias que antecederam a aprovação da lei que aboliria em definitivo
a escravidão no Brasil, escravos e libertos das localidades do Recôncavo baiano
foram tomados pela expectativa de que o final da escravidão estava muito
próximo. Rememorando aqueles dias, o cronista de costumes Isaías Alves
contou que muitos escravos se aglomeraram na estação ferroviária de Vargem
Grande, próximo à vila de Santo Antonio, onde havia telégrafo, à espera de
notícias sobre a aprovação da lei que mudaria para sempre suas vidas.1Em
1
Sobre a repercussão da notícia da abolição entre a população escrava da vila de Santo Antônio
ver Isaias Alves, Matas do sertão de baixo, p. 257. Segundo ele, os cativos “souberam, na Vargem
Grande, onde chegava o telégrafo da estrada, sobre o grande acontecimento”.

Fragmento pagina:65

O 13 de maio e as celebrações da liberdade, Bahia, 1888-1893

muitas propriedades, os escravos passaram a se comportar como pessoas livres
e recusaram-se a trabalhar . Sabemos que naqueles dias muitos senhores se
anteciparam à lei imperial declarando forros todos os seus cativos numa
tentativa de manter alguma autoridade sobre os futuros libertos e deter a
onda de fugas que vinha ameaçando a continuidade das atividades produtivas.
Outros se aferraram à propriedade escrava, não tanto por acreditarem na
sobrevida do velho escravismo, mas para requererem indenização pela
iminente perda dos braços cativos.
As primeiras notícias da abolição chegaram a Salvador na tarde de 13
de maio. Por volta das 2 horas, as redações dos jornais receberam por telégrafo
a notícia de que o senado acabara de votar o projeto de Lei da Abolição e,
logo em seguida, o enviara para a sanção do governo imperial. O jornal Diário
da Bahia distribuiu boletim informando que o projeto de lei fora levado à
Princesa Isabel para ser sancionado. Às 4 horas, outro telegrama informou
que a princesa regente finalmente assinou a lei que abolia a escravidão no
Brasil. Um segundo boletim do Diário circulou pela cidade anunciando a
novidade.
A notícia rapidamente se espalhou pela cidade e pelos demais centros
do Recôncavo. Houve festa em várias localidades da província. Uma autoridade
da vila de São Francisco do Conde, coração da lavoura açucareira do Recôncavo,
informou com preocupação que, desde o 13 de maio, os libertos se entregaram
a “ruidosos” sambas durante noites seguidas.
2
Em diversas cidades da região,
recém-libertos juntaram-se a populares nos festejos e desfiles promovidos
por associações abolicionistas. Um jornal da cidade de Cachoeira informou
que, na noite de 13 de maio, “o povo se derramou pelas ruas” acompanhado
História Social, n. 19, segundo semestre de 2010 65
de duas bandas de música. Das sacadas dos sobrados muitos discursos e vivas
ao grande acontecimento. Naquela ocasião, a câmara mandou celebrar te
de um na matriz em ação de graças pela abolição.3
________________________________________________________________
2APEB, Delegados, 6227 (1885-1889), correspondência do delegado da vila de São Francisco,
Luís de Oliveira Mendes, para chefe de polícia, em 16 de junho de 1888.
3Arquivo Regional de Cachoeira, Requerimentos (1879-88), requerimento diversos em 30 de
junho de 1888.

(Veja fragmento do texto que fala da Festa do Bembé do Mercado e sua importância social)


Fragmento pagina:88

O 13 de maio e as celebrações da liberdade, Bahia, 1888-1893

A passeata de Iapagipe até a Ribeira continuou por muitos anos. Ainda hoje em
Cachoeira, toda noite do dia 13 de maio, a filarmônica Lyra Ceciliana fundada
pelo abolicionista Manoel Tranquilino Bastos desfila pelas ruas repetindo o
mesmo trajeto do desfile abolicionista de 1888 e executando “Airosa
Passeata” e o “Hino do 13 de Maio”. Além disso, as celebrações nos redutos
negros parecem ter sobrevivido à repressão e à indiferença. Em muitos
engenhos do Recôncavo, a festa continuou por muitos anos. Um antigo
morador do Engenho da Cruz nos contou que, por volta da década de 1920,
ninguém saía para trabalhar no dia 13 de maio. Os moradores, muitos deles
ex-escravos ou descendentes, reuniam-se no terreiro do engenho para
cantar, sambar, jogar capoeira e comemorar o que chamavam de o “dia da
liberdade”.

44
Em muitos candomblés do Recôncavo, no dia 13 de maio, realiza-se o
culto ao preto velho, uma entidade que representa a luta e os sofrimentos
dos antigos escravos. Em Santo Amaro, todos os terreiros de candomblé da
cidade se reúnem no Largo do Mercado para celebrar a abolição: o Bembé do
Largo do Mercado. O Bembé na verdade é um grande candomblé de rua
celebrando a abolição. Segundo a tradição oral, essa celebração começou em
1889 por iniciativa de famoso pai-de-santo local chamado João de Obá.
A festa tem muito samba, capoeira, maculelê e oferendas à Mãe d’Água.
Até a década de 1950, o povo de santo era obrigado a requisitar autorização
formal da polícia para realizar a celebração. Mas a ideia de “obrigação”
terminou se impondo às restrições e proibições policiais. Segundo a tradição,
a festa não pode deixar de ser realizada sob pena de que algo de mal possa
sobrevir sobre a cidade.

45
A sobrevivência dessas celebrações podem nos dizer muito sobre a
forma como a memória reatualiza antigas lutas e esperanças. E mais que isso,
podemos ver nas celebrações da abolição as projeções da memória em perene saga contra o esquecimento e a tentativa de apagamento do protagonismo e envolvimento de homens e mulheres nos embates pelo fim do cativeiro e pela cidadania.
44
Essa informação foi passada por Manoel Araújo Ferreira, antigo morador do Engenho da Cruz, em 7 de dezembro de 2002.
45
Ver a dissertação de Ana Rita Araújo Machado (2009: 12-13).



Fragmento pagina: 74

Mas a despeito dos esforços dos organizadores, os conflitos partidário
ideológicos e mesmo as tensões dos últimos dias da escravidão emergiram na
celebrações do 13 de maio. Liberais e Conservadores brigavam na imprensa
nas ruas pela paternidade da lei da abolição. No boletim que anunciou a abolição
o Diário da Bahia proclamou que o fim do cativeiro era uma “esplêndida vitória
liberal” a despeito de a lei ter sido aprovada por um ministério conservador . Por
seu lado, os conservadores lamentavam que seus líderes fossem pouco
ovacionados durante as celebrações. Nas manifestações de rua daqueles dia
os “vivas” se dividiam conforme a cor partidária. É preciso observar que as disputa
não se limitavam apenas aos liberais e conservadores. Partidários da república
monarquistas se engalfinharam em torno da abolição. Para os monarquistas,
lei era uma concessão da princesa Isabel. Para os Republicanos, a abolição apenas
transformou em lei o que já havia se consumado na prática.
20
BPEBa, Diário da Bahia, pela descrição do jornal o cortejo começaria na praça Castro Alve
desceria pela rua do Palácio, nessa praça pegará a cabocla e descerá pela ladeira Rio Bran
Independência, Gravatá, Largo de Santana, Desterro, Muro das Freiras, rua do Ferraro, Cam
dos Mártires, Lapa, Portão da Piedade, São Raimundo, Mercês, Forte de São Pedro, Car
Gomes, retorno à Praça do Palácio, Misericórdia, Terreiro, Portas do Carmo, Baixa dos Sapateir
Ladeira do Carmo e Lapinha.

O secular Bembé do Mercado, único candomblé de rua do Brasil, mistura religiosidade, cultura e sobretudo, resistência do povo negro contra os grilhões da escravatura, do preconceito racial e das desigualdades sociais que assolam ainda nosso país.
O perfil do Bembé é composto de varios cidadãos que militam em prol exclusivamente das causas legitimas para reparações do povo negro em especial do Bembé do Mercado alem de garantir a manutenção fiel dessa festa.Com a força da ANCESTRALIDADE.

VEJA O ARTIGO NA INTEGRA NO:
http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/view/316

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