As cinzas da quarta

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jair · Manaus, AM
20/12/2008 · 82 · 10
 

Quarta-feira de cinzas, seis e trinta e sete da manhã. Uma figura qualquer se resigna no calor da manhã litorânea com o seu débil corpo prostrado no meio fio e as costas apoiadas num poste de cimento cru, cercado de latinhas de cerveja, garrafas plásticas e restos de adereços de fantasias, do Ilê Aiyê, do Malê de Balê, do Ara Ketu, do Coruja, do Camaleão. O jovem folião usa um tênis Bamba velho e enlameado, companheiro de vários carnavais e ostenta, numa das mãos, uma garrafa de batida de tamarindo, a qual ele absorve de quando em vez em grandes e prazerosas goladas, aguardando sôfrego, porém resignado, o ônibus que o levará à realidade.

Weslley Snaytes dos Santos Rocha, de nome e sobrenome falsificados e etnia indefinível tem aparência de pobre comum: Jovem esguio, de tez parda como acarajé, olhos grandes e amendoados, lábios vivos e esperança latente, alguns o definiriam como pardo, outros, moreno, há quem o chame simplesmente de negro, talvez descendente de algum um grupo Moçambicano, Angolano, Sudanês ou provavelmente da mistura de todas estas, formando um caldo racial de características pessoais imprevisíveis. A sua alma vigorosa, porém cansada, perambulou desde as quatro e treze da manhã, quando a última guitarra baiana tocou o derradeiro acorde daquela trágica sinfonia e finalmente deixou à deriva os carnavalescos da Praça Municipal até a orla de Ondina.

No fim da madrugada, no meio da multidão, entre o Farol da Barra e o morro do Cristo, uma jovem e desconhecida foliã interpela-o, sem preâmbulos, como se fossem velhos conhecidos:
_ E aí, meu preto, você tem loló?
Ele, imóvel, observa apenas seus olhos escuros e os lábios carnosos, balbuciando algo ininteligível naquele instante.
_ Fala, negão, você tem loló?
Mais uma vez Weslley é indagado, mas, sem nenhuma resposta plausível, apenas ensaia um claudicante eu não sei.Visivelmente irritada, a jovem abre os braços de indignação e retruca:
_ Finalmente, preto, o que você sabe?

Contemplando a paisagem da urbe ao derredor, sentado no meio fio, àquela hora da manhã soteropolitana, entre as ondas que quebram espumantemente na areia e os caminhantes sôfregos e perdidos, buscando sons alentadores para as suas vidas, o suburbano não responde, pois naquele instante só tem uma certeza:

É com pesar que a sua alma atesta: A festa acabou... Não há mais trio, não há mais música, abadá ou fantasia, percebe-se tão somente o mar do Farol de Santo Antonio da Barra coberto da ressaca carnavalesca, findada no calor da manhã de cinzas, deixando na orfandade milhares de suburbanos destroçados que se recusam a retornar à realidade fria e sem amparo.

Apesar da desesperança definitivamente diluída nas águas salgadas da Baía das Contradições, a jovem foliã, síntese daquele microcosmo, ainda tenta achar o fog que fantasiava seu olhar ao passo que Weslley, perdido no seu pequeno mundo, não vê ninguém, não vê nada, só o vazio, a exaustão e o fim. Prosternado no meio fio, ele presencia a escuridão de um lugar ermo e sem horizonte, vê-se sozinho numa caverna úmida, finita e sem amparo e, nesse pequeno e eterno momento, nesse parco e monossilábico segundo, seus olhos, alheios ao silêncio que o mundo insiste em criar ao derredor, externam a sua alma, falam tudo que ele não gostaria de expressar, discorrem sobre a dura realidade, sobre a vida sem sentido e a inumanidade, dissipando a neblina colorida de sonhos transformadores de uma vida mascarada, esta arrebatada por alguns parcos dias pelos sabores calientes do carnaval num ponto infinitesimal da América dos Fracassados. Como diria um adágio contemporâneo:
“Afora o carnaval, só resta a desgraça.”

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Jair Chagas
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herculano alencar
 

O que mais as cinzas encobrem!?...

Aplausos!

Herculano

herculano alencar · São Paulo, SP 20/12/2008 08:49
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

excelente texto, parabéns.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 20/12/2008 14:05
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jair
 

Obrigado, caro Herculano. Estou experimentando, experimentando, experimentando, até o fim, em busca da "batida perfeita".

jair · Manaus, AM 20/12/2008 14:39
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jair
 

O texto é um fragmento adaptado de algo maior que estou tentando desenvolver. Valeu pela força, Novo Poeta.

jair · Manaus, AM 20/12/2008 14:45
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Doroni Hilgenberg
 

Jair,

É incrivel como o carnaval tem o poder de
fantasiar a realidade e deixar muitos foliões
perdidos em meio a tantos sonhos de
alegria momentânea.
Se fora do carnaval existe a desgraça,
é porque ela é provocada.
Ótimo texto, precisa ser mais explorado.
Bjs e Boas Festas

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/12/2008 16:11
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jair
 

O carnaval é o Deus que nos alivia das tensões e frustrações diuturnas ou o demônio que nos impede de enxergar a realidade sombria?
Sem querer "explorar" o seu comentário, cara Doroni, fale-me mais sobre a a sua exploração citada. Será de grande valia.
Valeu, conterrânea manauara!!!!

jair · Manaus, AM 20/12/2008 16:41
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Isabel Furini
 

Um texto que explora de maneira profunda, a alma humana.

Isabel Furini · Curitiba, PR 20/12/2008 20:39
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jair
 

É, cara Isabel, às vezes observamos o outro nas ruas, no trabalho e nas festas e, pela urgência diária, esquecemos que ele também tem alma. Creio que estamos estamos automatizando a vida a tal ponto, que o outro virou apenas uma tênue paisagem no horizonte.
Valeu!!!

jair · Manaus, AM 20/12/2008 20:52
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GABRIEL BARROS
 

O Carnaval nos resigna a nossa ignorancia... vestimos as fantasias do nosso alterego e iludimos nosso cosciente coletivo.

Parabéns!

GABRIEL BARROS · Rio de Janeiro, RJ 28/1/2009 09:14
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Doroni Hilgenberg
 

Jair,
só agora estou vendo o seu questionamento

pois então, você esta dizendo no texto:
Afora o carnaval, só resta a desgraça"

e eu pergunto, porque?
temos o livre arbitrio...
e o mundo não é um carnaval a vida inteira.
E se a pessoa tiver fibra e coragem
ela pode virar a mesa,
deixar de ser um fracassado.
É dificil?
É, mas não impossível.

bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 7/5/2009 16:59
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