LITERATURA DE CORDEL
Peço a Mavutisinim
Que por favor me atenda,
Dando-me paz e cuidado
Para falar nesta lenda
Dos três partos pioneiros
Da vinda dos estrangeiros
Que causou enorme fenda
Diferente da do Cristo
É de crença, amor e sexo,
Tem a mãe ali presente,
O macho e o reflexo,
E o nascimento da cria
Diferente de Maria
Cai tudo dentro do nexo.
Em tudo tem um começo
Mas não se sabe do fim,
Antes de começar tudo
O velho Mavutisinim
Fez gente e os animais,
As pedras e os vegetais,
Ficou contente assim
Na feitura se esqueceu
De no povo botar cor,
Passou raiz passou barro,
Tudo ficou um horror:
Pintar gente é um tormento
Só se dá por cruzamento,
Mudou todo seu labor.
Pelo poder do encanto
entrou em ação o boto
Ora peixe e ora homem
Muito bonito e maroto,
Tendo sempre ação ligeira,
Só cruzar com estrangeira,
Nascer menina e garoto.
Pegou remo de biriba
Por ser mais forte e maneira;
Canoa de canjarana,
Sendo leve é mais ligeira
Desceu rumo ao Morená
Encantou-se ao chegar lá
Daquela gente faceira
O primeiro parto está
Dentro do oral perdido
De gêmeas aquele fato
Está estabelecido
Os atos que ele gerou
O tempo já os misturou....
Mas nunca foi esquecido
Porém não tenho as datas
Para botar no final,
Mas isto não compromete
Pois cada fato é real,
No rodapé o breviário
Para indicar o glossário
Desta história natural.
Do segundo parto, porém
Temos noções de data
Foi por ocasião do cisma
De que a História trata:
O descobrir d'outras terras,
E com elas tantas guerras,
Em busca de ouro e prata.
De um grupo navegante,
Descobridor ou pirata
Um galeão desgarrado
Parou na beira da mata
Num descuido de momento,
Fez-se luz no firmamento,
Ane desceu da fragata
Tinha avistado um rapaz
Que para ela acenou,
A noite chegando, rápído
Uma canoa aportou,
Ane saltou para o centro,
O boto botou pra dentro
Ali mesmo engravidou.
Ane Contou ao cacique
Que contou para o pajé,
Que chamou o comandante,
Por ordem dos Mamaé,
A este deu a notícia,
Assim, com sábia perícia
Foi falando como é.
Araci já descansando
Um Mamaé comemora,
Falou para o comandante:
- O Senhor não vai embora.
Espera o parto e assim,
Fica! pode crer em mim,
Está perto, não demora.
Consciente do encanto
O comandante chamou
Cada um dos navegantes
E prontamente falou:
- Fico esperando o parto,
Com o veleiro de um quarto
E vocês levam o "batou"
A tripulação porém
Sugere ao almirante:
- Façamos umas entradas
Pela mata não distante,
Visitemos estas terras,
Ao menos àquelas serras
Nos parece interessante.
- Ficamos todos, então,
Parece-me de boa sorte.
Exploramos para o sul,
O reino indo para norte,
Vamos ter um grande império
De posse deste mistério,
Vamos ser um povo forte.
No barco do estrangeiro
Nasceram as duas meninas
Uma chamou-se abaré,
Esbeltas, quase franzinas,
A outra, Coaraci,
Foram primas de Araci
De belezas muito finas.
O fato assim calou fundo,
Do boto as duas filhas,
Abaré, o par do homem,
Seguindo nas mesmas trilhas
Coaraci, dona do dia,
Lá fora ninguém sabia,
Distante de muitas milhas.
As feições são diferentes,
Mamaé pega explicar,
Do nariz à cor da pelo,
Dos cabelos a brilhar:
- Os traços delas são raros,
Demoram pra ficar claros,
Agora, pois, vou contar.
Menino filho do boto
Nasce em todo lugar
E apenas cumpre o rito
Pra lenda continuar,
Nada tem de novidade,
Só mede a tonalidade
Pra ver como vai ficar.
"Filha do boto, mulher!?"
É difícil de encontrar,
Acontecimento raro,
que carece levantar,
Uns tantos ocorridos
No sertão foram vividos
Só o sertão pra contar.
Meninas gêmeas, então!
É fato raro, perdido,
Às vezes demora séculos,
Para ser esclarecido.
Este que está se dando,
Pode até ir anotando
Faz o mundo estremecido.
Ane ainda de resguardo,
Para uma dando o peito,
Chegando pela janela,
Disse, assim, meio sem jeito:
- Mamaé, fala pra mim,
Isto é bom ou ruim?
E por que este preceito?
- O parto não cria o fato
Ele é apenas notado,
Porém será nestas terras
Que tudo será passado,
Num rebuliço tremendo,
Vai demorar ter remendo,
Para o povo vitimado.
Um ano já decorrido,
É hora de retornar,
Mas Ane não quis partir,
Estando sempre a chorar.
Diante do alvoroço
Ela fez um fino esboço
E começou a explicar:
- Minha filha co'esta tez
Tantos irão rejeita-las.
Elas sendo maltratadas,
Eu sem direito de falas,
Fico aqui, nesta paragem,
Não posso seguir viagem,
Tampouco posso deixa-las.
Quando todos pararam
O pajé foi explicando:
- Há anos a terra de vocês
Crises vai espalhando:
No Cristo, há um choque;
Em Oxalá, já há um toque;
Ñhanderu, vão manchando.
O terceiro parto se deu
Já lá nos Andes, distante,
Entre maias, incas, tupacs,
No treze século findante.
A América acolhe a morte,
A África teve má sorte,
Na nova ordem reinante.
O batismo do estrangeiro
O costume se invertia,
Dando-lhes nome cristão,
Ambas chamaram Maria,
Sem ligar para seus ritos,
Abandonando seus mitos,
Começa aí a porfia.
Uma do Verbo Divino,
Do negro o filho gerou,
Desentendido o chegante
De cafuzo lhe chamou;
Maria do Ventre Sagrado,
Pelo escambo enganado,
Mameluco fecundou.
Dor e lágrimas se verteram
Pra nascer o mameluco
A índia foi enganada,
Como coisas de maluco:
Ser escravo ou morrer,
Não ter mais onde esconder,
- Entra a cruz, e o trabuco.
Os outros reinos, então
Preparam-se para a guerra,
Começam as invasões
Pela água, pela serra.
Portugal, um reino frágil
No índio, um povo ágil,
Vale-se do filho da terra.
Enganando o indígena
Ao casamento incita,
Forma imunda de escambo
Que a união facilita,
Pelo amor dos seus filhos
O índio quebra impecilhos,
E na guerra se agita.
No combater a invasão
Do holandês bem armado,
Estimulam "o casamento
Para produzir soldado"
E depois, o triste fim:
Dizimaram o janduim,
O povo mais misturado.
Quando acabava a guerra
O pai lhe abandonava,
Ao filho era ensinado:
"Tudo da mãe não prestava".
Viver sem aulas, sem pães,
Enquanto despreza as mães,
"O próprio pai lhe odiava".
De Portugal nada vinha
Foi, pois, do índio a vitória,
Das invasões ou das guerras,
Que se reconte a história,
Dizer do índio traído,
Logo depois excluído,
Hoje sem paz e sem glória.
De sua feita o mulato
Em quase tudo igual,
Também viveu sem o pai,
O mesmo tipo venal.
Mas, ter vivido c'os seus,
Ter cultuado seu Deus
Isto lhe fez mais leal.
Oh! Danado mameluco,
O seu complexo destino:
Sabe quem somos, senhores?
Somos sim, desde menino,
Beatos, uns revoltosos;
Jagunços, outros medrosos;
Somos, sim, o nordestino.
Vou terminar definindo,
Falando desta maneira,
É a lenda mais completa
E somente brasileira,
Passando para novato,
A conta dentro do prato,
Pros letrados de carreira.
Lenda é, pois, a resposta
De fato ou de contenda
Que depois de investigado
A ciência não emenda,
Os dois não se alteram,
E nunca se destemperam,
Nem o saber nem a lenda.
..................................
.................................
Em cordel, não é praxe a colocação de rodapé, nota do autor, etc.
No entanto, como utiliza-se de origens indígenas daremos algumas explicações.
As referências aqui são do povo KAMAIURÁ, região xinguana, ou das terras do Morená.
. Abaré, companheira do homem
. Araci, a luz, ou a luz da lua.
. Araci, a menina gêma nasceu na época do assassinato de Tupac Amaru, talvez do Tupac I, já que o Tupac II é do Séc. XIX.
. Coaraci, dona do dia, ou dona da luz, ou a luz do dia
. Janduim, tribo nordestina que habitava o sertão nordestino, notadamente no Rio Grande Norte/Paraíba. E que foram "mortos, todos: homens, mulheres e crianças", segundo carta do Bispo de Salvador na época, logo após a expulsão dos holandeses.
. Morená, região xinguana, também a terra da origem.
. Mavutisinim, o primeiro homem. Mas também o espírito criador. Somos todos netos de Mavutisinim.
Guarani: Ñhanderu, Deus, nosso Pai, o Criador.
Desde a época em que um dos netos de Mavutisinim, se encantou, no boto, que o povo do Morená tinha informações sobre técnicas de pintura do corpo empregadas pelo povo do Congo, do Reino do Congo, do Rei-Congo, a que chamam de Diarru. Sobre o emprego do cobalto como fixador das tintas
para a pintura corporal. O indígena das Américas não dispondo
do cobalto usa o genipapo, o urucum, etc. Por sua vez o negro
não dispunha destas árvores, ao que parece.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
As citações se baseiam notadamente nas seguintes fontes:
Disponível em Internet.
SERTÃO NORDESTINO.... Prof. Tayguara Torres de Castro.
SOBRE A MESTIÇAGEM NO BRASIL.... Prof. Darcy Ribeiro.
COMPLEXO MAMELUCO.... Prof. Carlos Fernandes.
Não disponível em Internet.
O POVO BRASILEIRO, Darcy Ribeiro.
XINGU, OS INDIOS E SEUS MITOS, Claudio e Orlando Vilas Boas
LITERATURA DE CORDEL
- "Filha do boto, mulher!?"
É difícil de encontrar,
Acontecimento raro,
Que carece levantar,
Uns tantos ocorridos
No sertão foram vividos
Só o sertão pra contar.
O Cordel é relativamente novo entre nós, 1889, com o Leandro G. de Barros. Por que? - Porque até o inicio do século XIX, foi proíbida toda e qualquer produção editorial, no Brasil.
Do início do cordel, podemos dizer que foi a grande alavanca
na alfabetização e da compreensão da leitura. A interiorização da escola encontrou no cordel o melhor "instrumento". Ajuda sobremodo o repentismo, fixa, registra o seu pensamento, sua evolução.
Por outro lado, o cordel que inicia, com forte apelo social e o rudimento de uma literatura própria, descamba para o gracejo e a privilegiar a metrópole, e se mantém até nossos dias.
O gracejo foi o viés da formação social do nordestino. Forma de estigmatizar e esconder a sua origem: mameluco. Fato ainda "ignorado" pela grand
Ola André!!
Bela composição lenda e mito com qualidade q ñ posso ficar sem lhe dizer:
lê_n_da vontade ver mais cordel unindo-se assim,
com criatividade, saltando pra realidade.
Espero poder ler mais de seus escritos aqui no over...
At +, 1 abrço.
Andre Pessego · São Paulo (SP)
AS FILHAS GÊMEAS DO BOTO COR DE ROSA
Lenda linda Legal, Bota o Boto Bamba.
Esmiuça toda a magia deste personagem de romantismo e periculosidade relativa.
Fascinante encanta e desafia, fazendo s3mpre alguém desavisado ou desavisada se perder.
Um Trabalho admirável que nos leva a fazer esse passeio fantástico no mito.
Parabéns pelo Tema encantado.
Abração Amigo.
Andre
Tuas palavras Cordel é primoroso
O Boto seja sempre bemvindo
Meu querido conterrâneo, também sou piauiense exilado em São Paulo. Adorei ler este cordel que remonta às nossas origens. Parabéns. Obra muito bonita e de grande importância. Parabéns!
Clésio Tapety - Cultura da Paz · São Paulo, SP 8/12/2009 19:28
André,
que legal seu cordel...
cada povo com suas crenças, mitos e lendas,
que se alternam com a realidade e se perpetuam por seculos,
mas oriundos de um só criador.
bjs
Sabe meu mestre e amigo,coisa estranha acontece aqui no over com esse seu trabalho.me lembro perfeitamente que fiz um comentario aqui e votei.Hoje fico surpresa de tudo ter desaparecido.
Como amigo não precisa de convite,sempre que posso venho ver o que meus amados estão escrevendo.
Aprendi muito com seu cordel.lenda que conhecia apenas de ouvir.
Um beijo em seu coração,quanta saudades sinto de ti meu amigo.
Um feliz natal e um ano novinho de saúde e paz.
...passando aqui pra reiterar os comentarios que eu já fiz na primeira versão do seu poema. Parabens, meu amigo cordelista. Paz em Ñanderu.
graça grauna · Recife, PE 8/12/2009 21:35
Ate o seculo XIX foi proibida qualquer produção editorial brasileira...
Depois eles acham ruim de fazer piadas...Ta explicado porque isolaram Minas da saida para o mar...Queriam proteger o ouro que era tirado das Minas Gerais...
Belo trabalho, de folego, que valoriza muito o espaço do overmundo, fazendo capitalizar gente da melhor estirpe da cultura brasileira
abraços
Belissimo. Belisimo.
O boto namorador agradece.
Abs.
Belíssimo cancioneiro amigo Andre,
Só mesmo um artista com a riqueza cultural e vivência folclórica como a sua para criar um épico popular tão interessante e arrebatador. Adorei. O boto faz e sempre vai fazer a cabeça de todos nós. Assimn como o saci, a Iara, o Curupira, a loura do banherio, o Lobisomem, etc. Quero te agradecer o carinho se sempre e te convidar a ler mais poemas meus, de Ivone landim e de outros integrantes do Pó de Poesia em http://po-de-poesia.blogspot.com. Abrçs!!!
Se não conseguir acessar. Tente
http://po-de-poesia.blogspot.com
JÁ CONHECIA ESTA LENDA...
VOTEI! GOSTEI! AMO CORDEL!
Lenda é, pois, a resposta
De fato ou de contenda
Que depois de investigado
A ciência não emenda,
Os dois não se alteram,
E nunca se destemperam,
Nem o saber nem a lenda.
Cordel. Genuinamente a Alma de nosso povo. Maravilha amigo!
Saúde e longa Vida. jbconrado.
gostei.......mas num ta mtooooooo grannnnnnde nao?!
como filha de nordestina, aprecio o genero.....
aplauso da mama (aqui do meu lado) pra ti.
bjssssss;
André, estou maravilhada com o seu cordel, ele é bom demais. E essa lenda tão bem contada assim me deixou realmente mais informada e feliz.
É muito bom fazer parte do Overmundo para sentir essa emoção que só a Arte nos passa.
Um bj
Parabéns amigo André Pêssego!
O CORDEL tem seu espaço
Com todo o merecimento.
É poesia alinhavada
No crivo do pensamento,
Faz movimento constante,
É estrela cintilante
No alto do firmamento.
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Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia
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