As Mil Faces do Herói-o mito, o cavaleiro e suas razões androcêntricas nas HQ's

Carlos Hollanda - http://www.historiaimagem.com.br/portfolio.php
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Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ
28/6/2008 · 103 · 11
 

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A liberdade extra é, evidentemente, a das viagens no tempo e no espaço: aventuras históricas ou exóticas. Esse outro mundo mais livre é o dos cavaleiros e mosqueteiros como o das selvas, das savanas, das florestas virgens, das terras sem lei. Os heróis desse outro mundo são o aventureiro, o justiceiro, o cavaleiro andante.
Edgar Morin


Parte I – O herói nas diversas literaturas e as questões sociopolíticas de seus esquemas de base no imaginário coletivo



Este artigo contém duas partes que, embora abordem problemas diferentes, são complementares. Em ambas é feita uma análise dos discursos das HQ’s num contexto sociocultural e histórico e de suas apropriações de formas visuais, mitos e lendas. Elas serviriam como elemento promotor de modelos ideológicos e de conduta, potencializando sua circulação através do que autores como Edgar Morin e Umberto Eco entendem ser um procedimento preparado para gerar identificação entre o público leitor e a obra ou personagens. O principal foco desta primeira parte são os quadrinhos de aventura surgidos nos anos 1930-40, com ênfase no “Príncipe Valente”, embora sejam citados outros personagens que aludem a figuras-tipo associáveis ao topos narrativo do cavaleiro medieval (cortês), discutindo-se o modo como tais modelos encaixavam-se na propaganda anti-nazista e como os quadrinhos de aventura podiam servir como apologia a uma espécie de sentido “civilizador”, como alegorias do homem desbravador e do “sonho americano” e como um recurso catártico para anseios e expectativas coletivas. Já na parte 2, concentramos nossa atenção nas construções de estereótipos masculinos e femininos que recebem um olhar androcêntrico de seus produtores, que adaptam as estruturas narrativas e seus esquemas de base a normas, padrões, ideologias e interesses vigentes.

O senso comum e o preconceito quanto aos quadrinhos

Ainda hoje é possível que muitas pessoas ao verem um adulto lendo uma revista de histórias em quadrinhos fiquem intrigadas, vendo naquilo algo um tanto paradoxal: “um adulto divertindo-se com ‘gibis’?! Isso é literatura de criança!”. Em parte uma afirmação como essa é verdadeira: dependendo da linha editorial adotada, dependendo do público que se quer atingir, quadrinhos realmente podem ser “literatura de criança”. Entretanto, é incorreto pensar que toda obra quadrinizada necessariamente é voltada para o público infantil ou que seria uma espécie de leitura de segunda categoria em relação a outras formas narrativas. Elas são, em grande medida, uma expressão do imaginário e podem servir, tal como outras obras da Cultura de Massa, como resposta a anseios e expectativas coletivas ou como modelos ideológicos e comportamentais, tanto em suas expressões textuais quanto em suas seqüências narrativas em imagens. É nesse ponto que reside um dos problemas a serem destacados aqui: de que maneira um personagem como Príncipe Valente vem a ter uma recepção tão profunda do público leitor a ponto de até cerca de 70 anos depois de sua aparição continuar a ser republicado em edições especiais? E quanto a servir de referência para desenhistas que lhe copiam cenas e a funcionar como um estereótipo do cavaleiro medieval? Tal coisa tem sido freqüente tanto nos Estados Unidos quanto para leitores, aficcionados ou não, que, por exemplo, aqui no Brasil, com ele tiveram contato através do Suplemento Juvenil (a partir de 1937) e da publicação Gibi, nos anos 70 .
Diferentemente do que se costuma pensar, entretanto, publicações com o detalhismo realista de boa parte dos quadrinhos heróicos e de aventura de um período anterior aos anos 1980 , são direcionados a um público majoritariamente adolescente, especialmente quando falamos de personagens centrais que representam justamente essa fase da vida, como ocorre em grande parte das aventuras do Príncipe Valente. O adolescente e seu fulgor passional, suas contradições e necessidade de provar a si mesmo, desafiando ou não uma autoridade, tudo isso está envolvido num padrão que pode ser visto tanto em personagens de quadrinhos, como o nobre de nosso tema central, quanto em heróis do cinema, como James Dean, verdadeiro modelo cinematográfico da adolescência. É Edgar Morin quem escreve todo um capítulo sobre o ator/exemplo, associando-o ao mito do herói que aspira ao absoluto e que acaba por encontrar a morte , coisa que apesar de destruí-lo, torna-o imortal. Diz ele:

(...) James Dean exprime as necessidades da individualidade adolescente, que, ao se afirmar, recusa as convenções da vida embrutecida e especializada que se abre à sua frente. A necessidade de totalidade e de absoluto é a necessidade real do indivíduo humano quando ele se liberta do ninho da infância e das amarras da família – e só vê diante dele as novas amarras e mutilações da vida social. (MORIN, 1989, p.115)

Aqueles quadrinhos tinham como uma de suas prováveis propostas levar àquele tipo de público algo com o que se identificassem, mas ainda assim grande parte dos leitores de HQ’s é composta de adultos. Estes estão entre os que consomem as tiras de jornal e as páginas dominicais, até os que adquiriam seus comic books e as modernas graphic novels e que podem, tanto quanto fãs de astros de cinema, assumir um ou outro trejeito, uma ou outra forma de expressão/crença propagada pelo modelo com o qual se identifica. Em vista dessa relativa amplitude de acesso ao público, fica difícil não pensar nas possibilidades disseminadoras de condutas exemplares e estereótipos de acordo com as posições de seus produtores, e na promoção/legitimação de categorias de pensamento e percepção sobre o universo circundante. Pressupondo que tanto narrativas textuais quanto imagens podem servir como um passo na identificação de visões de mundo, de interesses de um ou outro grupo detentor formas variadas de poder em sociedade, chegar a pensar nas HQ’s como um potente e eficaz elemento propagador de idéias, crenças e modelos, sobretudo em momentos de intensa crise ou política ou econômica como os anos 30 e 40 do século XX nos EUA e Europa, não é absurdo. É o que começaremos a verificar a seguir (...)

Sobre a obra

Este artigo, escrito em 2005 e publicado em 2006, parte do início de uma pesquisa que resultou em minha dissertação de mestrado, intitulada ENTRE LUZES E TREVAS - O PRÍNCIPE VALENTE E AS REPRESENTAÇÕES POLÍTICAS E CIVILIZACIONAIS NOS QUADRINHOS (1936-1946). O material não alude apenas àquele personagem. Ali há diversas referências a heróis como Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Homem-Aranha, entre outros que respondem ao imaginário norte-americano e repercutem no imaginário ocidental. Percorre-se aqui uma trilha ligeiramente diferente do material normalmente publicado a respeito dos quadrinhos, uma vez que a abordagem é histórica, sociológica e antropológica. As HQ's em questão são tratadas como instrumento de popularização de crenças, valores, conceitos e legitimações, tendo por base as matrizes culturais do ocidente, bem como as narrativas míticas que as originaram e que sob vários aspectos condicionam o comportamento coletivo e as formas políticas contemporâneas.

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informações

Autoria
Carlos Hollanda - Mestre em História Comparada

Prof.-Hist. da Arte, Teoria Inform. e Comunic., Teoria Percepção - dep. História e Teoria da Arte - Esc. Belas Artes - UFRJ

Prof.- Des. Artístico, Des. Anatômico - dep. Análise e Represent. Forma - Esc. Belas Artes - UFRJ
Ficha técnica
Autor: Carlos Hollanda

Endereço da publicação original:
http://www.historiaimagem.com.br/edicao2abril2006/milfacesheroi.pdf

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celina vasques
 

Excelente! Bravo!!!
Parabéns!!!!

Meus votos com carinho te desejando Sucesso!

Beijos

celina vasques · Manaus, AM 27/6/2008 11:24
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Cintia Thome
 

Muito bom texto .Adorei mesmo.ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 27/6/2008 18:31
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Renato de Mattos Motta
 

Gostei!
Uma abordagem teórica das HQ diferente da maioria!
Sou um aficcionado por quadrinhos, inclusive já cometi alguns roteiros - um dos quais foi publicado pela WS Editora de Porto Alegre (A Salamanca do Jarau - adaptação da obra de J S Lopes Neto) em parceria com Saulo Morales (desenhos).
Talvez um dia tome coragem e publique algumas das outras histórias que fiz com o Saulo por aqui...
Por enquanto, te convido a visitar uma poesia minha que está nesta mesma fila...
http://www.overmundo.com.br/banco/a-flor-e-o-asfalto
Abraço e boa sorte!

PS - Você é o mesmo Carlos Hollanda da Astrosíntese?

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 28/6/2008 08:54
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Carlos Hollanda
 

A todos, antes de mais nada, perdão pela demora na resposta. Estive viajando num dos melhores lugares do mundo para quem gosta de arte e cultura: Buenos Aires e só retornei hoje. Seguem as respostas e agradecimentos.

Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 16:40
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Carlos Hollanda
 

Oi, Celina, obrigado mesmo!

Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 16:41
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Carlos Hollanda
 

Cintia, só posso agradecer as amáveis palavras. Obrigado!

Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 16:42
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Carlos Hollanda
 

Renato, que bom saber que um especialista como você gostou do conteúdo. Quero depois conhecer seu material quadrinizado. Pode ter certeza de que também visitarei, aliás, já visitei sua página. Excelente!

Sim, sou eu mesmo, editor do Astro-Síntese.

Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ 1/7/2008 16:45
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silviaraujomotta
 

Gostei muito.
UM VOTO CERTO e um beijinho doce, Sílvia.

silviaraujomotta · Belo Horizonte, MG 3/7/2008 09:33
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Bat-Cristina
 

Muito bom!
Parabéns!

Bat-Cristina · Belo Horizonte, MG 29/9/2008 14:30
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Carlos Hollanda
 

Olá, Silvia, olá, Bat-Cristina, obrigado!

Carlos Hollanda · Rio de Janeiro, RJ 29/9/2008 17:22
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marcosbnpinto
 

Muito interessante!

Esse trabalho está disponível ?
Eu gostaria muito de le-lo!

marcosbnpinto · Porto Alegre, RS 10/3/2009 21:07
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