As rodas dentadas do meu Akutagawa

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Vittorio DAfflitto · Guarulhos, SP
16/3/2012 · 2 · 2
 

Estranhos esses estados de espírito. Estou aqui, próximo da Biblioteca Monteiro Lobato na estação República (a biblioteca principal de Guarulhos tem o mesmo nome).

Vim com N... para uma palestra na escola de Sociologia e Política, eu não pude entrar e fui tomar um café com leite, comer coxinha.

Liguei para o meu irmão para saber onde estava (também fará parte de um grupo de estudantes que entrevistará mendigos), disse-me que sonhou que seu dente tinha caído. Eu disse que não era nada. Depois que desliguei fiquei preocupado, como se com isso vislumbrasse meu suicídio ou a morte de alguém próximo.

Ontem uma amiga ouviu Taj Mahal de Jorge Ben, hoje no metrô vi um homem com uma sacola de papelão com um taj mahal estampado em letras e figura. Uma confusão se apoderou de mim. Um jovem meio alcoolizado veio me pedir um cigarro, dei; perguntei apontando para dois moradores de rua se eles queriam e ele falou que não sabia, que não conhecia eles, eu falei que achei que ele os conhecesse, pois tinha falado com eles...

"eles são moradores de rua porra" e tentou acender o cigarro com um dos meus fósforos já queimado. Peguei para ele outro fósforo falando que guardava-os para não jogar na rua, enquanto ele jogava o fósforo queimado na rua...

"já era" então pegou o outro de minha mão e acendeu o cigarro doado e etc...

Tive idéias brilhantes no entre-sono, idéias as quais não pude vislumbrar senão por aquele instante. Uma frase do Leminsky de certa forma é verdadeira sobre o poeta se alimentar das dificuldades, que se não houver dificuldades ele deve criá-las.

Tanto fazia pra mim, na confusão todos eram iguais, morador de rua ou bêbado. O garoto que veio me pedir cigarro está jogando bola em uma quadra no parque que dá acesso à biblioteca, esta é sua ebriedade. Um inseto pequeno caiu no meu olho que começou a lacrimejar. Afogou-se na poça do meu olho enquanto eu estava sentado no banco da praça dentro do parque que dá acesso à biblioteca. Ouvi de alguns velhos bêbados discutindo aqui dentro, atrás de mim...

"vende até na zona..."
"vendeté..." e esse primeiro "vende até" ouvi como...
"vendeténa"

Vida eterna.

Olhei para o alto de um prédio pensando em minha morte. Desconforto. Se eu saltasse de lá estaria livre desse desconforto. Pensei no conto Rodas Dentadas de Akutagawa. Estou deixando me levarem pelo tédio da espera, esse lugar onde o ser se convence de que o não-ser é mais realizável em termos de quanto a imaginação póde ser próxima do real, da cópia da natureza. Um amontoado de crimes se justifica para mim e o maior deles é não realizar.

Já é meio-dia e estou ainda aqui. N... não liga dizendo que já acabou a palestra e eu fico aqui apenas comigo e minha desordem.

Andei durante bastante tempo. Da General Jardim até Avenida Paulista próximo da Casa das Rosas. A N... e o G... ficarão lá até as 17. Vagamundei durante 1 hora e meia.

Akutagawa conecta as imagens. Transforma elas em símbolos que o encaminham a uma sensação de destino. Em Dante vê os leopardos e onças do seu próprio inferno.
Suas onças e leopardos são as relações entre o que ele considera como os avisos dos sonhos para a realidade, mas já não dorme de forma justa, toma calmantes: está trapaceando seu ciclo biológico e espiritual.
Não está na mãe ou no sangue o medo da loucura, está na interpretação da vida cotidiana como uma fonte eterna para o que é realidade: a despeito de tudo ser real, há na realidade essa fresta para a loucura, onde é possível arregalar os olhos dentro do sonho e do pesadelo, este é seu passaporte, seu ticket sem direito a volta como Giovanni no trem noturno pela via láctea de Miyazawa Kenji.
O que parece ser ficcional toma os relevos da realidade e a mímesis, a verossimilhança torna a ser uma realidade da qual o autor tem medo, a única saída para um autor adentrar os caminhos obscuros da narrativa como personagem.
Um horror se opõe ao sobreaviso "Você está louco?", não há divisão entre autor e personagem. Mas não por isso chamemos de uma autobiografia, mesmo porque esta pretende ser tal qual a realidade "aparece" para o autor:


noutro caso a loucura é lançada pela janela e sobrevive uma memória fingida de alívio.

(29/10/2011)

Sobre a obra

Um horror se opõe ao sobreaviso "Você está louco?", não há divisão entre autor e personagem. Mas não por isso chamemos de uma autobiografia, mesmo porque esta pretende ser tal qual a realidade "aparece" para o autor:

noutro caso a loucura é lançada pela janela e sobrevive uma memória fingida de alívio.

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Autoria
Vittorio D'Afflitto
Ficha técnica
Vittorio D'Afflitto escreve aos domingos.
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celia penteado
 

Muito bom!

Gostei muito. Veja se gosta dos meus http://www.overmundo.com.br/arquivo_usuario/celia-penteado

Sobre o sentimento de pertencer (Celia Penteado)

Conflito (como Celia P.)

Abraço

celia penteado · Florianópolis, SC 28/7/2012 20:57
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
alcanu
 

Acho que foi o Quintana quem disse isso:
"A Vida é a Sala de Espera da Eternidade !"
Porra, precisa dizer mais ?
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 13/2/2014 12:06
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