Willian Bonner falou em entrevista a Marília Gabriela que de vez em quando uns tapinhas nas crianças faz bem. Pergunto: Faz bem para quem? Para a educação delas, para a formação delas. Ele diz.
Mas, deixem me entender: Aprender a não gritar vale um tapa? Aprender a esperar vale outro? Aprender a não agredir vale um tapa? Aprender a obedecer?
A conduta de WB está em domínio público.
Criado a moda antiga, como ele mesmo disse, acostumou a não ver problema nuns tapinhas corretivos nas crianças. De fato. Não tenho dúvida de que ele só está ali, ocupando o cargo que ocupa e encarnando o personagem Bonner que encarna, graças à criação austera que recebeu. E que recebemos todos que vemos em seu personagem um exemplo a ser seguido, que almejamos galgar os degraus que ele mesmo galgou. Que admiramos a cultura humana que ele ostenta.
Ele e o Presidente norte americano acreditam que aumentar o contingente bélico numa região tensa como as terras bíblicas são, é uma estratégia eficiente no caminho da paz... Só pode conviver bem com a violência quem vê alguma coisa boa nela.
Esse ano faz 100 anos que o povo correu desesperado pelas ruas pensando que o cometa Halley que riscava os céus anunciava o fim do mundo. Willian Bonner anuncia o fim do mundo todos os dias e dorme tranqüilo, orgulhoso até.
Somos diferentes. Não é todo mundo que convive bem com a violência física e psicológica. Lembro dos medos todos que sofri na infância, da criação austera que recebi também. Olho ao redor e não vejo o bem pronto para agredir o indefeso, não encontro a paz em fardas e cassetetes. Encontro tensão, coerção, medo.
Amanhã será o julgamento dos pais da pequena Isabela. Esse caso me tocou muito profundamente. Fiquei tempos chorando cada vez que lembrava do assunto. Como fica a cabeça das crianças que acompanham essa novela? Espertas como estão, expostas a televisão como estão, sabendo que é fato real, que não é cinderela? Bicho papão é nada perto da realidade. Como se não bastassem os jogos violentíssimos que damos para nossas crianças, os desenhos animados bélicos, essa História violenta e cínica que ensinamos para elas nas escolas, esse mundo de guerreiros e princesas que construímos na cabeça delas.
Lembro do medo que sentia quando criança. O culto na igreja pentecostal que meus pais freqüentavam. Do medo que sentia quando todos gritavam: O sangue de Jesus tem poder! Morria de medo daquele deus. Ouvia as pessoas dizendo que são tementes a deus e entendia que os adultos também sentiam aquele mesmo medo que eu... mas tem gente que acha bom!
Quanto mais repetimos que somos todos iguais, mais negamos nossa diversidade, mais fundamentalistas nos tornamos. Quanto mais aceitamos uma única verdade padrão, um comportamento ideal, mais coerciva nossa educação é.
Os Papas acreditam que a cruz tem poder, seus adeptos carregam cruz como forma de proteção contra o mal. Nos tempos da Santa Inquisição acreditava-se que o poder da cruz era tão forte que, somado ao fogo, seria capaz de purificar até mesmo a alma de uma bruxa. Se a violência é um veneno necessário, quem medirá a dose curativa?
O índice de violência familiar é estarrecedor no mundo todo. Uma quantidade absurda de seres humanos cresce convivendo com gritos e ameaças, assistindo seus pais se agredirem violentamente, diariamente, quando menos esperam estão eles mesmos agredindo seus filhos, repetindo por condicionamento psico-emocional o tratamento que receberam de quem se espera proteção, cuidado, amparo, confiança, afeto, principalmente na hora de aprender, de errar, de amar.
Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar a nós mesmos.
Desligue a televisão.
Tire sua criança de frente das telas todas, inclusive você. Olhe o mundo com seus próprios olhos e verá que VIOLÊNCIA NÃO É MAIS EFICIENTE QUE AFETO. Aceitar o outro como é, diferente, é urgente. A educação que se adquire com violência e repressão nada mais é que formatação, imposição desse padrão de comportamento antinatural que está torturando a vida no planeta. As ciências humanas, a psicanálise, já mostraram os males que a repressão emocional causa em nosso corpo e espírito.
Não tem porque continuarmos com isso!
Deixemos que as flores brotem inadvertidas no caos que transborda dentro de nós.
Bom post viu!!! é isso aí... q raio de cultura de violência é essa...
bjs
Carla,
Seu texto é otimo e como sempre reflexivo e polemico...
Não sou a favor de surras mas um tapa de vez em quando não faz mal a ninguém e frise-se que nunca apanhei. Meus pais eram tradicionais mais amigos e corerentes...
Mas hoje em dia, como você mesmo diz a TV induz a muita coisa nociva e quando um conselho não basta, e nossa voz não é ouvida uma palmada é bem vinda sim.
Olha, eu tenho uma filha que agora tem 18 anos, mas quando criança, ( mimada pelos demais) ela era malcriada e desobediente até o dia que lhe dei uma palmada na boca. Nunca mais ela me respondeu... e hoje somos amiguissimas.
Quanto a cruz, não gosto e não a tenho em casa, é o simbolo das dores do mundo.
bjs
Estimada Carla: sua crônia é pra ser relida pois nos ajuda a refletir sobre a violência nossa de cada dia.Você escreve muito bem. Que Ñanderu proteja nossas crianças. Bjos, Grauninha
graça grauna · Recife, PE 21/3/2010 17:12
Doroni,
entendo que ações violentas, agrecivas, façam parte da natureza humana, meio bicho, meio divino que somos. O que questiono é ter na brutalidade uma didática, ainda que com resultados eficientes em relação ao fim imediato, principalmente em relação a uma criança, principalmente colocada por deus sob tua guarda e confiança.
Só os obedientes apertam o botão vermelho.
Carla,
Sou pedagoga, adoro e compreendo as crianças, não sou a favor de agressões pois sei que isso incita a violencia.
Mas que existe filhos agredindo os pais por falta de respeito isto existe sim. E muitos pais se arrependem por não terem dados umas palmadas no momento certo.
Digo palmada e isso não é violencia. Violencia ao contrario é ver um menino de 10 anos chutando a mãe em publico porque já esta acostumado a fazer isso.
Isso eu já vi...
Complexo nè?
Bjs
Eu insisto.
Melhor seria desligar a televisão.
Você já pensou, Doroni, na quantidade de estimulantes consumidos por nós desde a infância: coca-cola, guaraná, café, jogos eletrônicos, açúcar, injetados em animais enjaulados que somos todos nós. Criamos a fera e depois a queremos domar...
Mas a solução é o tapa na hora certa.
Clamo por uma visão mais holística da situação!
Precisamos buscar soluções outras. Não é fácil, mas também não pode ser cômodo.
Será que é só do tapa que esses pais se arrependem de ter carecido em suas crianças?
É justo dar tapas na criança que desobedece seus pais, mais e os pais quando desobedecem suas próprias convicções. Quando comem o que mata em suicídio, aceita o que corrompe suas convicções, se entrega a vícios diversos... deveria o terapeuta, o médico, dar uns tapas no infeliz... acredito que para muitas pessoas daria resultado educativo, mas, e aí? Esse é o caminho para nossa divindade ou para nossa animalidade?
Serve para a criança porque não tem como se defender, se pudesse, nos moveríamos em nossa inércia cômoda e buscaríamos soluções outras.
Não é fácil, nada de realmente importante é.
Ai já é outra história...
Mas é como lhe disse Carla,
o tema é polemico e complexo.
cada um com as suas convicções
e talvez cada um tenha os filhos que merecem...
Graças ao bom Deus, não tenho o que me queixar dos meus. Não fumam, não bebem, não amanhecem fora de casa e estão quase todos formados, casados e trabalhando . Não são santos é claro, mas acho que sou uma privilegiada, porque acima de tudo são unidos.
Outra coisa: " Acho que educação vem do berço" e são poucos os pais que sabem educar visando o amanhã.
Hoje vemos pré-adolescentes, consumistas, birrentos , malcriados e rebeldes.
Mas de uma coisa pode estar certa, fico indignada quando vejo pais usarem de violencia contra os filhos, porque compreendo que são crias do ambiente em que vivem .
Desculpe minha falação, mas é ótimo temas que nos proporcionam essa troca de idéias e nos incitam a raciocinar e levantar os prós e os contras né não?
bjs
Olá, gente! Parabéns pela discussão. Tá super estimulante. Peço permissão para dar um pitaco.
Além de pai, sou educador na rede pública de Salvador, atuando há 10 anos exclusivamente em sala de aula. Conheço e já vivenciei na pele situações de agressão física e verbal por parte de alunos para com seus professores, dentro e fora do espaço escolar. Então a chamada "crise de valores" é uma questão bastante recorrente no meio onde atuo. Recentemente uma colega professora de literatura chegou para mim e emitiu o seguinte juízo: "o caos atual nas relações de pais e filhos e professores e alunos tem origem na contracultura estadinidense dos anos 1960; aquilo gerou e difundiu no ocidente uma onda de permissividade equivocada, de tal forma que hoje em dia ninguém mais consegue educar ninguém". Mas acontece que a minha colega professora ainda não leu o romance "A Ilha", de Aldous Haxley, nem o livro "Arte e Gestalt", da arte-terapeuta Janie Hyne. Então deduzi que a visão dela a respeito do que seria uma educação libertária talvez estivesse muito influenciada por estigmas e estereótipos que ainda hoje recaem sobre o turbilhão comportamental da década de 1960.
Partindo da questão do tapinha nas crianças, Carla Pereira instala e expande uma discussão que inevitavelmente é cheia de ângulos e nuances. Meu querido Renato Russo, numa de suas célebres canções deixou a seguinte frase: "disciplina é liberdade". A que tipo de disciplina esse roqueiro rebelde estaria se referindo, afinal? E quantos caminhos possíveis haveriam para se chegar até lá?
Não tenho dúvida alguma de que a liberdade é a única alternativa para o fim da cultura de violência. Só podemos amar/respeitar a nós e aos outros em liberdade. Mas nosso ventre não é livre e nossas janelas estão cheias de grades.
Aprendemos que nossa natureza precisa ser moldada e as escolas estão aí para cometer, salvo raras exceções, a violência de impor verdades, prioridades e padrões ideais, adaptar a nação ao mercado de capital humano...
Sempre que entendemos que devemos impor a outra pessoa algo que ele não quer, não aceita, não entende, não concorda, estamos sendo violentos, ainda que usando de artifícios chantagistas, dialéticas coercitivas, assédio moral ou monetário.
A criança grita e apanha, chuta e apanha, cospe e apanha, morde e apanha, até que aprende com os adultos a ser política, cínica, aceita, civilizada. Aprenderia sem tomar um tapa, porque é só o que ensinamos, ou não aprenderá jamais e acabará nos tarjas pretas, presídios ou outros espaços que entendemos colocar os rebeldes. Muitos foram para a cruz.
Precisamos desconfiar de nossas convicções...
De fato não dar para conciliar ideais verdadeiramente libertários com apologia à violência física e psicológica militarmente aplicada à formação de crianças e adolescentes. Gosto da "bagunça" que a contracultura dos anos 1960 sugeriu à psicologia, à psicoterapia e à pedagogia ocidentais tradicionais e de seus experimentos educacionais nas brechas do sistema. Aqui no Brasil historicamente a transição da palmatória e do caroço de milho para atitudes mais sustentáveis vem se dando em meio a um caótico fogo cruzado. Trata-se de um processo grande e multidimensional. Acredito que escuta mútua e lucidez podem conduzir a insihgts individuais e grupais bastante úteis e interessantes.
vanzye · Salvador, BA 2/4/2010 19:06
LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papés pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
FERNANDO PESSOA
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