Fumo: minha alma.
Bebo: o silêncio (com água de côco e gelo). Eu quero me embriagar...
Animais de estimação: meus melhores amigos (e guardiães do silêncio).
Pior vício: as palavras.
Quem sou eu? Alguém que depende demais das palavras...
Porque me definir em palavras limitadas, se posso fechar os olhos e SENTIR?
Estou sedenta de silêncio, porque as palavras esvaziam tudo. O que seria o amor, se não tivéssemos a palavra amor? O que seria a culpa, se não tivéssemos a palavra culpa? E você consegue imaginar que essas palavras não existissem? Existiria amor ainda? Existiria culpa? Quando nomeamos, deixamos de sentir as coisas, inventamos sentires que se encaixem no nome, ou apenas vivemos um lugar comum... Preciso ClariceAR porque as palavras me sufocam. Eu decreto que não vou mais dar nome à nuvem, ao gato, ao beijo, ao outro. Eu mesma não tenho nome. Sou inominável e única ... porque outras são chamadas da mesma forma que eu... Ter um nome é apenas uma maneira de dar aos outros a possibilidade de falar sobre você quando está ausente. Eu sou o que sou. E a cada dia me reinvento e morro. A cada dia deixo de ser eu mesma e me torno outra completamente diferente. Claro, há fases em que é fácil pensar que somos sempre os mesmos. Hoje, porém, eu percebo a impossibilidade de continuar igual a mim mesma. Eu, que já pensei ser a mesma por anos a fio. Não percebi que era apenas o casulo. Por dentro, alguma coisa se modificava. E então, um dia, criei asas. E tive pena de quem eu era. E olhei para trás sem poder voltar mais.... Sobrevoei sobre-humana as misérias e esqueci que eu era sublime e desprezivelmente humana (foi quando fui mais humana que nunca, percebi depois). Meu nome deixou de fazer sentido... porque quando as pessoas se referiam a mim, hesitavam, perdiam o rumo da conversa... no fundo, sabiam que eu não cabia mais no meu nome. Eu cometi a audácia e a temeridade de ir além do meu nome (eu morri?). Agora, quero escolher um nome que me diga além e me negue por completo, para poder ser quem realmente sou. Belugaresmar. Espiralacol. Paralelidiz. Ilhasol. ArVoreRaiz. Lotuslázuli, Sonholar.
Foi assim, sendo covardemente audaz, que sonhei um sonho que parecia ser. Senti um jardim renascendo e me decepcionei com o que continuou lá fora (a morte? Mas ela faz parte da vida...). Não, eu não sou Sonholar. Eu não sou o que vivi no sonho ou o que vivi desperta. Eu não sou o que digo. Eu não sou o que penso. Eu não sou o que tenho. Eu não sou o que faço. Eu não sou a “realidade”. Eu quero ser agora, talvez, o jardim. O jardim ressecado, abandonado. E o pequeno pé de romãs grandes mas ainda verdes, como sinal da vida que virá... Eu ainda me vejo no sonho, mas preciso partir de mim...
Eu estou sedenta de silêncio.
Fumo: a minha alma.
Bebo: o silêncio (com água de côco e gelo). Eu quero me embriagar...
Animais de estimação: meus melhores amigos (e guardiães do silêncio).
Pior vício: as palavras.
...
Valéria,
Às vezes tentar saber quem somos, ou por que nome somos chamados, lembrados ou mesmo esquecidos, enfraquece o que sentimos. As palavras não conseguem expressar tudo que cabe dentro de nós. Elas acabam por empobrecer o que somos. Se livrar das palavras e dos nomes criados para as coisas, leva-nos à uma liberdade sem igual, de asas abertas pelo azul sem fim. Neste momento, sem nomes ou identidades, podemos ser o que quisermos, sem nos preocupar com nexos. E assim, alcançaremos o silêncio anterior às palavras. Seu texto traz muito de Clarice Lispector, da forma dela perceber as coisas, ver o mundo...
Parabéns ! Vo(l)tarei.
Bjs poéticos
Valéria,
Cá estou novamente, abrindo a votação.
Bjs poéticos
Gustavo, obrigada pelo comentário... eu adoro Clarice, é minha mestra. E ela nos exige o sentir, além de intelectualizar...
Um grande beijo.
Valéria Geremia · Fortaleza (CE)
Autobiografia
Palavras de Sabedoria e consciéncia.
Palavras de humanidade e decisáo.
Palavras de sentimento e Poesia.
Sempre o Humano vai buscar o amor e a liberdade.
Parabéns
Abracáo Amigo
"... Eu ainda me vejo no sonho, mas preciso partir de mim ! "
idem, idem
bjs ND
Valéria,
Me vi em seu texto.
Nos nos reinventamos a cada
minuto, a cada dia,
a cada palavra, a cada sonho
e cada texto.
Não somos mais donos de nos,
mas somos donos do universo todo.
somos poetas não?
bjsssss
Só agora venho a conhecer seu texto. Espero que seu vicio com as palavras continue devastador. Este vicio nos faz muito bem. Bela citação " Claricear" é bem vinda sempre e seus textos idém, escreva mais.
abç
aut!
Puxa amiga,
não economizastes palavras para a tua autobiografia.
Deu para sentir o começo meio e fim (até o momento, é claro).
Olha, eu fico com Lotuslázul. Acho que combina com vc. Pq será?!
Quem sou eu? Eis a questão...
Enquanto lapidamos as nossas respostas, vamos escrevendo a nossa estória. Quem sabe um dia podermeos abrir o livro GRANDE e ler até o fim...
Desculpa o atraso. Mas eu já havia lido e votado.
beijão
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