Agora que sua mãe também trabalhava fora, assim como fazia seu pai desde sempre, a casa estava vazia. Voltava da escola por volta das 13hs; o almoço, bastava esquentar. Depois era hora do dever de casa, que fazia com o som ligado. Falava, eventualmente, com uma amiga ao telefone, mas na verdade preferia mesmo conversar pessoalmente. Julgava frio o bate-papo feito através de um aparelho que não permitia o contato real, direto, que lhe permitisse ver com quem estava falando. Por isso detestava cartas, e-mails e mensagens instantâneas. Clarisse gostava de olho-no-olho, de observar atentamente o outro, mapeando suas caracterÃsticas e reações. Pelo menos tinha a avó para conversar.
Não se lembrava desde quando havia começado a conversar com a avó, mas havia sido um pouco depois de sua mãe ir trabalhar fora de casa. Sua avó materna era parecida com sua mãe, mas mais suave, se é que se podia descrever uma pessoa com essa palavra. Enquanto falava, Clarisse observava a velhinha. Media a anciã, captava seus detalhes. E continuava falando. A avó a ouvia e tricotava.
Clarisse contava seu dia na escola, suas descobertas e suas dificuldades de relacionamento com os colegas. É claro que evitava assuntos ou detalhes que pudessem ofender o pudor da velhinha que havia crescido num tempo muito mais contido para as moças. Não podia querer que a avó compreendesse essa coisa de ‘ficar’. Mas isso não era um grande problema, já que não precisava mentir para a avó: não ‘ficava’ com ninguém, embora tivesse muita vontade. Não que fosse feia, era só estranha. E era sobre isso que conversava com a avó.
Clarisse não sabia se relacionar com as pessoas da sua idade, achava todos muito bobos e irritantes. Talvez por isso fosse tão fácil estar com a avó. Enquanto Clarisse falava, a avó tricotava. Às vezes era muito difÃcil ir para a escola, um sacrifÃcio que só fazia para não decepcionar seus pais. Gostava de algumas matérias, de alguns professores e de alguns amigos, mas preferia não ter que passar por certos constrangimentos como chamadas orais, brincadeiras dos garotos da sala de aula e risinhos da maioria das meninas que ‘ficavam’ com esses mesmos garotos.
Sabia que aquela mania de olhar dentro dos olhos dos outros não era exatamente uma coisa comum. Assustava as pessoas. Mas Clarisse só sabia fazer assim. Precisava observar seu interlocutor com atenção e fixava o olhar de modo a perturbá-lo. Não era como uma caricatura ou algo exagerado, mas depois de alguns minutos de conversa, qualquer pessoa sentia-se invadida por aquele olhar.Alguns garotos maldosos a chamavam de Medusa e Clarisse odiava, numa reação bastante saudável, ser comparada a um monstro mitológico. Sua avó, no entanto, não se incomodava com seu olhar penetrante e desbravador. Podia passar horas olhando fixamente a avó que, de seu lado, tricotava e tricotava, sem perder nenhum ponto.
Quando mais tarde sua mãe chegou e lhe perguntou como estava lidando com o fato de ela trabalhar fora e, portanto, não estar tão presente, Clarisse quis evitar a conversa. Mas a mãe insistiu. Afinal, disse ela, fazia um mês que Clarisse passava as tardes sozinha em casa e como depois de alguns dias parou de reclamar da solidão a mãe relaxou, mas agora queria saber como estavam as coisas, o que Clarisse ficava fazendo. Então Clarisse contou que conversava com a avó. “Clarisse, minha filha, sua avó faleceu há mais de 10 anos!â€, disse a mãe espantada. Clarisse tomou um susto, mas disfarçou e logo emendou “É brincadeiraâ€. E continuou a conversar com a avó todas as tardes, observando-a em todos os detalhes, detalhes tão comuns quanto podem ser os detalhes de uma senhora idosa que tricota: cabelos brancos, corpo curvado, ombros cansados, sorriso manso, olhos lacrimejantes, meias de lã, chinelos de pano, dobras, rugas e pontos de tricô. Algo, no entanto, estava diferente. Havia no olhar da avó uma compaixão sombria; a suavidade havia abandonado aquela figura passiva e aparentemente dócil. Os olhos da velha traziam um brilho malicioso e dissimulado.
Clarisse gostava de olho-no-olho, de observar atentamente o outro, mapeando suas caracterÃsticas e reações. Pelo menos tinha a avó para conversar...
Como gostei ... parabéns - assim a gente até se anima ... continue mandando ver - escrevendo e publicando - queremos + e + de você
MárioAlmeida · Campo Grande, MS 27/4/2008 06:22
Adorei.Um conto que me deu até medo da minha avó rsrsrs
Votado.
Obrigada Ailuj, MárioAlmeida e Clara... é sempre bom ter um retorno das coisas que a gente escreve!
Lizz · São Paulo, SP 27/4/2008 16:35
Excelente!
O texto nos transmite certo suspense e boas lembranças do tempo infantil.
Abraços,
Lizz,
Muito lindo e bem escrito.
Votado!
Beijos
Voltei para vo(l)tar e re-ler este conto maravilhoso - tenho muita afinidade com o (sobre)natural. Legal cara mande + e +...
MárioAlmeida · Campo Grande, MS 20/10/2008 18:15Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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