Azul esgotado

Gisélia Duarte
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
2/7/2007 · 75 · 4
 



Goiânia, setembro de 1987. Uma cápsula de césio-137, usada em um aparelho de radioterapia, é violada. Ela é aberta a marretadas em um ferro-velho, depois de ter sido furtada por catadores de papel dos escombros de uma clínica abandonada. E a partir daí o fascínio provocado pela luz azulada do pó de césio se espalha, deixando um rastro de contaminação e morte no que se configurou como o maior acidente radioativo doméstico da história. Entre as vítimas fatais, a menina Leide das Neves Ferreira, que ingeriu césio ao comer um sanduíche com as mãos sujas do pó que brilhava na escuridão, transformando-se numa fonte radioativa viva.




Azul esgotado





O segredo que não se guardou a sete chaves

Saltou da caixa de chumbo

Do pequeno anel

Sem que ninguém suspeitasse

E não foi preciso mais que rudes

Inimagináveis marretadas

O lacre da ciência violado

A flor do mal exposta

À luz curiosa do dia

Como ossos do futuro

Que não podemos simplesmente sepultar

A ferida radioativa

Acordou o que ainda não se sabia

- Abra-se o segredo mortal

As entranhas da carne e do medo

- Abraça-te o fascínio azul

Invólucro dilacerado

Útero derramado

A cápsula

A nave

A Terra é azul

A primeira visão do astronauta

O mar é a imensidão azul

A vela

O céu é azul

As asas

A fantasia é azul

A chama

Azul esgotado e todos querem a sua porção

Num piscar de olhos

O pó

Varrido para dentro dos sonhos da menina

Que tinha nome de princesa de contos de fada

Leide das Neves

No mundo da partícula de luz azul

As bonecas esquecidas dentro da caixa

Dormem o sono de pedra

E velam por ti

Anjos atônitos

Da terra do nunca mais

E era tanto brilho

Iludível brinquedo

O pó de giz letal da pastilha de césio-137

No escuro da sala

No escuro da vida

Dançava na inocência da menina

Dançava na fantasia do pai

Dançava na impotência da mãe

Dançava na ignorância de todos nós

Dançava de mãos em mãos

Uma perversa ciranda no quintal

Enquanto desenhava-se a pó a eternidade numa noite azul

Na cidadezinha encantada dos sonhos da menina

E não era uma cidadezinha qualquer

Que cintilava bordada de estrelas

Tremeluzindo na chegada

O cair da noite

No apagar do sol

No subir da lua

No ladrar dos cães

No dobrar dos véus

No breu dos medos

No branco isolamento dos vidros

No frio céu das máscaras

Acabou-se a fantasia

Os medos da menina continuam sem nome

- Ouço teu choro, teu sopro

Querendo o colo quente da mãe

Além da noite branca e gélida

Além do azul desbotado

- Acordai, anjos, a menina desse sono de chumbo!


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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
Poesia feita para o espetáculo Azul Esgotado, que aborda o acidente radioativo de Goiânia, ocorrido em setembro de 1987.
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comentários feed

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linney
 

A lembrança de um triste episódio ,em forma de poesia é comovente.
Belo texto,embora triste.

linney · Canoas, RS 29/6/2007 15:53
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jjLeandro
 

Eu morava em GYN nessa época, Cida. Bem lembro da agonia da população com tudo isso. Coisas de um passado que esperamos seja apenas lição agora para todos.
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 2/7/2007 08:05
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Amanda Maia
 

Me faltam palavras...

Amanda Maia · Salvador, BA 3/7/2007 23:18
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Cida Almeida
 

Linney, Leandro e Amanda. agrade_Cida pela leitura e o carinho dos comentários.

Beijos.

Cida Almeida · Goiânia, GO 4/7/2007 11:10
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