Balas. Chicletes. Mentex. A voz do menino é metálica. Impessoal. Igual a dos outros ambulantes. Parece que treinaram juntos. Ou então, tiveram o mesmo professor. Impossível dizer, naquela miríade de gentes, quem foi o primeiro a usá-la. Talvez tenha sido com o trem primevo. Ou antes, berrando-se para anunciar escravos, gazetas ou editos. Talvez a voz seja reinol. Dos tempos de Dom Sebastião. O rei morto, que nunca foi posto. E ainda hoje luta a batalha de Alcácer-Quibir contra os mouros. E cai sempre no mesmo lugar. Tomba pela mesma flecha. E desaparece no tempo, mas torna a voltar. Estava em Canudos. Esteve na Grécia. Há quem o veja hoje - ainda - no Rio de Janeiro. Dizem que se espraia ali perto da Praça do Lido. Manco. Maltrapilho. Trazendo consigo a flecha cravada no coração. Não geme. Não pede. Apenas anda em busca da batalha perdida.
Mentex. Durex. Sedex. Balanço em direção à central. O trem sacode. Olho, longe, uma velha mal vestida. Escorre lenta nas areias do tempo. No sol. A cada passo, ameaça cair. Segue, contudo. Um negro suado. Magérrimo. Quase tísico. Me traz de volta à realidade. Andar aqui é como rever os navios negreiros. Agora, repletos de pardos, alguns brancos e mais - dos mesmos - negros. "A história se repete, por assim dizer, duas vezes. A primeira como tragédia. A segunda, como farsa”. 18 Brumário. França. África. Brasil. Não nos livramos de nada. Um tapinha não dói. Um tapinha. Só um tapinha não dói. E tasca cacete no andar de baixo. Na patuléia. Na turba. Freio de arrumação. É para dar sempre - e somente - um passinho à frente. Se não der, lanho no lenho. Se der mais, pau na putada. Um tapinha não doi.
O menino trocou de vagão. Agora o som é do crente. Extático. Promete o fogo. Prometeu moderno. Que não rouba. É antes roubado. E segue. Hipnótico. Transístico. E Deus descerá à Terra. E sua ira cobrirá o mundo. Tremam fariseus. Feiticeiros. Umbandistas. Todos tremam. Omolu foi salvo por Iemanjá, quando sua mãe, Nanã Burucu, o abandonou. Largou o filho à peste. E a peste o salvou - na forma de Iemanjá. Oxossi. Xangô. Exus. Erês. Ifá. Estão todos aqui. E é mamãe Oxum que desce à terra. Foi ela que, com sua dança de amor, salvou a humanidade. Trouxe de volta Ogum - o ferreiro - à cidade. E as ferramentas voltaram a ser feitas. As colheitas a serem fartas. E ninguém percebe. E seguem a dança. Ordem e Progresso. Céu azul de anil. Brasil. Brasil. Brasil. O Homem ao lado começa a falar. Fala do Congresso. Pergunta se tenho filhos. Para onde vou. Qual o meu nome. Profissão. O homem só desocupa seu tempo comigo. Desce em Cascadura. Quintino. Piedade. Abolição. Engenho de Dentro. Passam as estações. Aumenta o calor.
Desço na Central. Meio cego. Meio tonto. O sol. O som. A turba. O povo corre. Arrasta-se correndo. Chispa por mim um moleque. Chispa uma pedra atrás dele. Os malabarismos mambembes. A malemolência do morro. Os anjos tortos da guarda. Tudo lhe falha e ele cai. Sangra a cabeça. Tum. Pegou em cheio. Junta gente. Não sei porque o pego no colo. E saio correndo. Agora, é meu filho que carrego. O filho que nunca tive faz-se por si mesmo. Drummond. Pego um táxi. E toco para o hospital. O mais perto. O motorista olhou feio. Vai sujar. Sangue. Difícil limpar. O menino não fala. Respira e sangra. O chofer começa um discurso. Que conhecia o moleque. Que vivia roubando. Que mais cedo ou mais tarde ia dançar. Que se não fosse agora... Digo para calar a boca. Ele se intimida. Cala. Chegamos. Pago rápido. Nota de 50. Esqueço o troco. Vai servir para lavar o carro. Na emergência, a mesma indiferença de sempre. Mandam esperar. Chega um médico. Olha o menino. Pergunta se fui eu que o machuquei. Faz um curativo e manda esperar. Sem chapa. Sem nada. Deita o moleque e é só. Fico esperando. Duas horas. 18 minutos. O negrinho acorda. Olha assustado e quer levantar. Não deixo. Meu gesto não consegue domá-lo. Agora lhe vale a ginga malandra. Cisca de lado. Se manda. Pinote. Sobram eu. A maca. O sangue. O médico volta. Cadê o moleque? Precisava ficar. No mínimo 24 horas. Pancada forte. E um monte de coisas mais. Deixa prá lá. Vira de costa e segue adiante. Fala com a voz cansada, no indo embora, são que nem gato.
Na rua, as pessoas olham para mim. Há certo mal-estar. Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Ama o teu inimigo. Credo quia absurdum. Sangue e suor. Paro num bar. Coca-Cola e banheiro. O dono me olha com cara de poucos amigos. Lugar imundo. Lavo a camisa. Tomo a bebida. Olho o rosto no caco de espelho. Encho de água a cabeça e saio pingando. Rubem Braga, uma vez perseguiu uma borboleta no Centro. Voava há séculos, sem que as pessoas percebessem. Elas não existem mais. Nem as horas mortas da madrugada.
Já seco, entro na Biblioteca Nacional. Apesar de sujo, não impressiono mais.
Penso na volta. Eterno retorno.
Narrativa forte, densa, tensa e dolorida. Como deve ser a bala - não a que o menino vende no trem, mas a que penetra e fere.
Ilhandarilha · Vitória, ES 6/9/2008 23:12
ilhandarilha,
É isso mesmo. Seguem as balas. Seguimos nós. Eterno retorno. Até encontrarmos a saída.
Carlos, interessante mesmo. Gostei do ritmo que leva ondulando e da pontuação imprecisa. Causa um desconforto paradoxalmente cativante. Me fez lembrar, por vias tortas, da Ana Miranda. Não sei se conheces.
Abraço!,
Felipe
Prazer imenso vir ler seu maravilhoso conto.
Um beijo em seu coração.
Publicado.
Votei (último pontinho). Se ler e gostar vote atmbém.
Abs
Um texto raro de se encontrar. Ficaria naquela categoria que penso que seja: crônica-poesia-reportagem. É Drummond, Vinícius, Paulo Mendes Campos e Mário Quintana. Mas lembra, e muito bem, o estilo bate-estaca do Fausto Wollf. É página para ser guardada e não esquecida. Peço bis.
Como diria um jovem, você mandou ver.
Eloy,
Muito obrigado pelos comentários, mas a turma que você citou é realmente "da pesada". Eles estão lá na frente e eu, bissexto, cá atrás. De qualquer modo, agradeço a referência. Fico feliz que você tenha gostado to texto.
Bala
C.E.P · Rio de Janeiro (RJ)
Um Texto admirável, atual, bem redigido e cheio de coisas interessantes sobre a vida.
Grande Contribuicáo para nosso Overmundo e para todos nós.
Estamos formando uma Amizade Fraterna para toda a vida.
Muito bom o seu sorriso amigo e o amor pela cultura.
Aspiramos um mundo melhor.
Gostei muito do seu Trabalho.
Parabéns.
Abracáo Amigo.
Infelizmente tenho que te dizer que é estupidamente uma verdade em todo nosso País. Cativante, intrigante. Gostei
su angelote · Jaboatão dos Guararapes, PE 26/9/2008 19:17Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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