BALADA DO DESESPERO
Anibal Beça ©
Para Ivan Junqueira
” De nada sei, de nada quero saber;
somente sei que estou aqui, no risco absoluto.”
SOEREN KIERKGAARD
Canto I
Narciso e Sísifo
Sereno já me agasalho
No casulo do meu ócio
Com a veste leve da espera
Cobrindo todo o meu corpo.
5 Os ponteiros já me apontam
- Setas cediças ao vento -
Minutos intumescidos
Na febre lenta das horas.
Antes tão despudorada
10 Acesa em fogo de instantes
Durando enquanto durassem
Os momentos mais afáveis.
Nos limites de mim mesmo
Todo o espaço se faz pouco
15 Para abrigar qualquer gesto
Nesse meu canto insulado.
Em territórios de espelhos
Vi refletido e me vi
Sem nunca ter visto a face
20 Que outros pretendem ter visto.
Estrangeiro no convívio
Nunca me soube de mim
Aconteci para os outros
E me calco nesse acaso
25 (Agora mesmo me flagro
E não sei quem se confessa,
Se aquele solto de amarras
Ou se o preso atormentado) .
A questão é, mais que ser,
30 Saber ser o que se exporta.
Apenas sei que vim vindo
E não me vejo chegar.
Mas sei que vou para o encontro
levando todas as pedras
35 Que empurrei pela montanha.
Fogo de mim e tanta água
Nos quatro cantos do mito
Qual dos cantores me assalta?
Canto II
Íxion
Disperso ainda me vejo
40 Na roda que me aconteço
Salto a ciranda de fogo
Exortando meus pecados.
Por que fugi da parelha
Da tarefa dos moinhos
45 Dos grãos macios do trigo
Para as campinas das trevas?
Ó sombras que me pernoitam
Manto cinzento de mágoas
Afastai-me bem dessa aura
50 De incandescente tristeza.
Apenado sentencio
Os fantasmas de mim mesmo
Réu e juiz me consagro
No perdão sem ser culpado.
55 Eis que o outro lado me aflora
Do cofre das alegrias
E solta o som do repúdio
Para o cântico do vinho.
Mulheres que me habitaram
60 Vibrai comigo nessa hora
Por mim cantai e dançai
Perenes sempre perenes.
Meu desespero se escora
Em saber que novamente
65 Levanto para cair
Nessa Doença Mortal.
Escuto só a mim mesmo
Nesse torneio noturno
O som de tortas canções
70 Nos mesmos pecados de hoje .
Outrora me fui noutra hora
Anoitecido de estrelas
Do brilho que me conduz.
Fogo de mim e tanta água
75 Nos quatro cantos do mito
Qual dos cantores me assalta?
Canto III
Tântalo
Dissimulado me assumo
Na correnteza do símile.
Não eu mesmo senão outro
80 De múltipla face e só.
Existir além do ser
Constrói-se em muitas pegadas.
Árdua leitura de chão
Aprendizado de ventos
85 Em alfabeto de nuvens.
A escrita larga-se larva
Resenha multiplicada
Impressa na pele nova
De reinventada serpente.
90 Não sou eu quem se renova
Neste corpo quem me habita?
Não sou eu quem se declara
Neste discurso postiço.
Sou o que pensa e que sonha
95 Toda a magia do ser
O que se inventa de dúvidas
Para se afirmar criatura.
O que não veio beber
Mas imolar-se na sede.
100 Ó águas do meu suplício
Banhai o sal da memória
A fala que desarvora
As árvores que se afastam.
Ó sede do meu tormento
105 Umedece este egoismo
O Eu que em mim regurgita
Por demais pleno de mim.
Preso de seca sentença
Bebo das águas dos olhos
110 Nascidas da dor palustre
Da partilha dos sedentos.
Fogo de mim e tanta água
Nos quatro cantos do mito
Qual dos cantores me assalta?
Canto IV
Envoie
115 Enredado em desespero
Sozinho cuido de mim.
E o que me salva é esse outro
Que vem na viagem comigo
Ele é quem tem alegria
120 Eu de triste me confesso
Hospedeiro de agonias.
Ele é quem vem e me afasta
Do cálice da tormenta
Do vinho rubro da culpa
125 Essa invenção dos mortais.
Não conheço ninguém triste
Só tenho amigos alegres
Nem me dano por ser triste
Assim me sei vencedor
130 Subindo a escada da festa
Para o sonho dos opostos
No sono eterno dos ossos
Da negação revelada
Na consciência do ser.
135 A diferença me assoma
Na busca do anel da aliança
Entre mim e esse outro, e sermos
Nós, a terceira pessoa,
Reunidos em amor do outro
140 No sortilégio liberto
Da síntese concedida.
Assim a pedra vai leve
Calçando novos mistérios;
O espelho nunca se embaça
145 Em solitário reflexo;
A roda alimenta o fogo
Para o calor das distâncias
E as águas que nunca secam
Molham conflitos de falas.
150 Fogo de mim e tanta água
As quatro canções eu canto
Em desespero lavado.
Anibal, não poderia ser diferente. Lindas palavras casadas com a poesia.
Náthima Danel · Boa Vista, RR 25/5/2008 16:31
Anibal
Viver é mesmo arriscado... O tempo todo, um risco.
Teu poema deixa transparecer o desespero e a agonia de quem não teve medo de viver, no entando, como todos nós, não comprende ainda todos os seus mistérios. Ainda assim, é preciso cantar todas as canções que a vida nos oferece...
Abraços
Anibal, uma jóia rara seu poema!
Dúvidas e certezas, alegrias e tristezas nos habitam e afloram em cada instante. Cada momento assumimos uma personagem na nossa história da vida, no entanto somos a soma de todas elas.
Maravilha de poema!
Até mais para o voto.
Abraços!
Náthima, Nydia e Brigitte muito obrigado pela leitura e comentários. O poema em questão me foi muito duro em seu parto, mas como vocês devem ter apreendido, ele é um poema com citações a grandes poetas que se debruçaram ao tema. Inquestionavelmente, Fernando Pessoa é que se faz mais aparente. Fico contente por vocês terem gostado. É o que me dá forças para prosseguir com o meu trabalho. Sou sempre um otimista de carteirinha. Portanto, para mim, essa coisa de "que poesia não vende" é de somenos importância. Enquantoeu puder sensibilizar e emocionar algum leitor com meus versos estarei presente.
Beijos muitos agradecidos
Não consigo em poucas palavras expressar a satisfação de ter lido um poema como esse.
Só me resta ficar orgulhoso por abrir a votação.
"Minutos intumescidos
Na febre lenta das horas";
"Nunca me soube de mim"...
Utilizar de mitos para iniciar seus versos, quanta ousadia! Para poucos mestres como você meu caro, que se revela e se mostra, um ser sensível que conhece a mitologia e seus meandros, que se deixa inspirar e inspira... Oser mais humano é aquele que se descreve como ainda não conhecedor de si, mas no processo de conhecimento, seja por qual caminho for. Ousado, mestre, pertinente, original e UFA; amazônico em tamanho de densidade poética. Fico sempre contente em ler algo seu. Meus parabéns e vai ser mais um a ser votado de montão, carregamos juntos a pedra de Sísifo e quem sabe, um dia, quem sabe, conseguimos vislumbrar os pícaros além horizonte. Abração.
Anibal,
teus escritos são sempre uma obra!
Nem sei o que dizer... são perfeitos :)
abraços
Anibal, uma jóia rara igual ao seu poema não poderia deixar de retornar.
Magnífico!
Abraços!
Olha Aníbal, fazia muito tempo que não lia coisa de tão bom gosto e tão bem construído. Meus parabéns.
david.ang · Santa Cruz do Sul, RS 27/5/2008 15:24
Atentem os amigos para o privilégio de conviver neste espaço com esse escritor que nos coloca o tempo todo diante da grandiosidade da palavra escrita. Sinto-me pequena por maravilhada. E bebo dessa fonte de conhecimentos, citações, lições dos grandes poetas. A mitologia é um recurso incrível para quem conhece seus meandros e sabe costurar as palavras na teia da poesia.
Obrigada por isso e por tudo. Votado mil vezes.
Beijo de MInas.
Leitores e companheiros de OVERMUNDO, muito obrigado pelas palavras tão pródigas ao meu trabalho.Fico feliz e estimulado a continuar a caminhada pelos sendeiros do grande Enigma. Mas quem é marcado pela "tara" jamais a abandonará. Sou, de fato, um poeta compulsivo 24 h ao dia. Acordo lendo poesia, tomo café com ela, depois vou trabalhar a minha própria; almoço e janto pesia. Com ela e o que escrevem sobre ela, críticas, ensaios, teses etc.
Talvez, por isso, não sofra e nem padeça de insulamento aqui nessa minha floresta. Ademais, depois da Internet, ninguém é mais uma ilha. Agradeço ao Benny Franklin por ter me trazido até aqui. Enquanto me aguentarem vou colocando, os meus poemas. Obrigado, mais uma vez, a todos e a todas parceiros em arte e esperança.
Ternura e carinho
Difícil comentar. A perfeição da obra já diz tudo.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 27/5/2008 18:59
Parabéns, Anibal. um poema culto e belo.
abrçs;
Marco.
Marcos Pontes e Marcos Bastos obrigado pela leitura e pelo comentário.
Aos amigos, estou com novo texto: http://www.overmundo.com.br/banco/no-paladar-da-paixao
Abraço amazônico
Fechando sua votação com muito carinho.Um poema belo meu querido.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 28/5/2008 15:25
Querido Aníbal...são mais que perfeitos....tanto assim...que nos deixam sem palavras....senão 'fantásticos'!!
vc parece ter a poeis na veia...escorrendo por dentro e transbordando n agente...lindas demais!!!Gostei das referências ...e como sou apaixonada pelo Pessoa..fiquei encantada!!!
Super parabéns,meu lindo poeta!!
Besitos azuiszeninfinitos e ternurinhas procê...
Rai...blue
ops!Corrigindo....
"vc parece ter a poesia na veia...escorrendo por dentro e transbordando na gente...lindas demais!!!Gostei das referências ...e como sou apaixonada pelo Pessoa..fiquei encantada!!!"
bjks
Beleza. A Raiblue pensou certo.
Tá no sangue.
Votao
Um abraço
EG
Linda poesia... Parabéns...
Abraço Gaúcho...
Airton
Estrela-RS
Caro Aníbal
A Raiblue já disse tudo. Não tenho palavras para acescentar.
Lindo, muito profundo.
Votado.
Anibal,
De fato, penso que são as águas, a poesia, a volúpia do poema, a intensidade e a densidade dos versos e palavras que te carregam, que são, de fato o que vens a ser inteiro... são quem te lavam a alma e te carregam, e as que, afinal, porque passa a ser do mundo todo, que escapam da ilhota que somos, que és, e se tornam as grandes e caudalosas contribuintes de um rio imenso que vai ao mar e sobem, encaloradas, inflamadas, aos céus, de onde despencam arrefecendo calores outros, angústias secas ademais, forjando, se isso é próprio para o líquido, a fortaleza de outros iguais, que, contigo, também crescem.
Como nos diz Einstein, tua criatividade, teu poder criador, amplia o mundo, dá-lhe mais tamanho e dimensões novas.
Agradecido ao Benny, esse nosso outro amigo das letras, que te nos presenteou assim graciosamente.
Enfim, o que de fato se é, é o que se faz, essa tua produção rica e benvida, impede que desesperes. É tua vida. É a vida em ti animada.
Olá Aníbal!
O risco que arrisca em cada traço que a vida impõe em tuas escolhas...
Como é bela a tua trans_missão.
Beijos_Meus*
*
VO(L)TADÍSSIMO!!!
Não sou eu quem se renova
Neste corpo quem me habita?
Não sou eu quem se declara
Neste discurso postiço.
Sou o que pensa e que sonha
95 Toda a magia do ser
O que se inventa de dúvidas
Para se afirmar criatura.
O que não veio beber
Mas imolar-se na sede.
Uma sede de viver
Uma sede de amor
Um orvalhar, uma gota pequena
Seria imensa ao toque...
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