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PAVANA PARA UMA BAILARINA
Anibal Beça ©
Ligado em ligaduras tensas
na pele macia
retesa
nos doces ângulos voláteis
solo em equilíbrio de compasso
no risco de um grafite mágico:
Uma perna acorda
estrelas
a outra
fixa no teu palco
um talo de paixão cravado
em meus olhos ariscos.
Por vê-las
sedução de aérea leveza
bruma de branca arquitetura.
E chegas com teu corpo manso
na elegância a que se destina
e não hesitas Isa
Exata
o êxito da tua disciplina
em sarabandas serenatas
te sabes leve bailarina.
Te sabes mais na dança que sai
da melodia dos teus poros
como um rio de sal que se esvai
sensual e que desatina
o mais inocente dos mortais
caído a teus pés bailarina
e atiras setas fesceninas
que eu respondo (poeta que se trai)
a teu feitiço Isa Kokai.
BOLERO DAS ÁGUAS
Aníbal Beça ©
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuçadas.
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
CURTA PAVANA
Anibal Beça ©
O dorso que se curva arco elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança
toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.
Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.
Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.
A INVENÇÃO DA DANÇA
Anibal Beça ©
Ouvir era ser ouvido
para a palavra pousar
na partilha da harmonia
de partitura espontânea
dos gestos das coisas simples:
o curvar-se até o chão
no apanhar frutos caídos;
altear-se até os galhos
buscando seca madeira
matéria morta, gravetos
para o fogo do aconchego.
Um cotidiano de música
pelos seus corpos regidos
a descobrir movimentos
de uma nova fantasia:
sons dos ossos em atrito,
músculos partejando água:
lagos na pele porosa
para afogar seus vislumbres.
De tudo saía música
somados a outros sons
de seu entorno silvestre.
Certo que o mudo silêncio
de melodia serena
cantava pelos seus gestos.
Mas se farta a melodia
padecia a percussão
parceira mais efusiva
que se apurasse no toque
quebrando a monotonia:
uma lição para as mãos
na companhia dos pés.
Na busca contemplativa
dessa intenção ao acaso
não sabida mas sabendo-se
oitiva de uma atenção.
no perceber acurado:
tarefa para os ouvidos.
casulo de muitas sombras
sede de santas sevícias.
Então do choque das pedras
das chispas de seu encontro
veio o fogo do barulho
acompanhar o trinado
dos que voavam sem rumo;
dar compasso ao vento solto,
que afina a fala das folhas.
Segredo em solo silvado
o verde traz seus recados
código do sol cifrado
para a noite das estrelas,
que sabe muito de luas,
e de seus iluminados.
Dos passos dos pés ouviram
as distâncias das campinas
o silêncio de cavernas
o murmúrio das cascatas
a surpresa das montanhas
o mistério azul do mar.
O sabor das maravilhas
degustado em seus espantos
foi-se mansamente em susto
enredar-se aos movimentos.
O verbo dado estendia-se
na imitação do já visto
e era ancho de se ver
a beleza revelando-se
na graça leve dos corpos.
tags: Manaus AM poesia
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A dança como pano de fundo pros seus escritos maravilhosos !
Irei degluti-los com a devida atenção que merecem !
Um abraço, amigo !
Alcanu
alcanu · São Paulo (SP) · 26/6/2008 15:09
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Aníbal, as bailarinas mexem com a gente. Vou dedicar-lhe a minha:
A BAILARINA
Escala íntima, prece entretecida
reflexo alado e cântico delido
a bailarina arremetida vela
o corpo-ritmo pluma que se anela.
É fábula cativa nas retinas
em equilíbrio lírico feridas,
é uma estrela livre sobre o dia,
intacto raio verde-gris contido,
e pássaro de prata cristalina,
librada em árvores de seda breve.
Tranqüila ceifa as asas como pétalas
e cai espelho concha de água e seta.
Fina imagem de flor que se enleva,
fantasia de brisa e luz reflete.
(do livro Exílio, São Paulo, 1983)
José Carlos Brandão · Bauru (SP) · 26/6/2008 18:19
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Beça, a minha bailarina também quer participar desta dança...
BAILARINA
Há bailarinas
na caixa de música,
no relógio da sala,
em cima do piano.
Há bailarinas
nos meus sonhos
de menina...
Há bailarinas
nos palcos reais,
nas pontas dos pés.
Há bailarinas
nas vitrines
de cansados néons...
Há bailarinas
enegrecidas de fumaça
nas sombras das velas,
no sopro das lamparinas.
O vento forte do tempo
soprou a cortina,
devassou a casa
e espatifou a bailarina...
Quebrou a caixa de música,
estraçalhou a vitrine,
parou o relógio da sala,
torceu o pé da menina.
Derreteu-se a vela
e já não há mais sombras,
nem fumaça, nem lamparinas...
Quem se lembrará que um dia
houve aquela bailarina?
Abraço.
Nydia Bonetti · Campinas (SP) · 26/6/2008 20:45
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Bom , aqui deixo a sua dança...corpos suados em sinfonia do farfalhar de asas soltas e canticos...
Na busca contemplativa
dessa intenção ao acaso
não sabida mas sabendo-se
oitiva de uma atenção.
no perceber acurado:
tarefa para os ouvidos.
casulo de muitas sombras
sede de santas sevícias.
Então do choque das pedras
das chispas de seu encontro
veio o fogo do barulho
acompanhar o trinado
dos que voavam sem rumo..."
Um abraço e encantada por este palco com sua arte e beleza...ab
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 26/6/2008 21:58
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Meu querido,salvei o arquivo e lerei com calma.beijos.
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 27/6/2008 03:25
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DIANTE DA GENIAL OBRA À CIMA, CURVO-ME E SAIO BAILANDO.
GRANDE ABRAÇO, BEÇA,
E A TODOS QUE COMENTARAM.
Lioviola · Carnaíba (PE) · 27/6/2008 07:21
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ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 11:49
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José Carlos, belo soneto, e obrigado por dedicá-lo. De fato, a bailarina é tema recorrente na obra de muitos poetas. Dia desses publicaram aqui o magistral poema de Rilke sobre a dançarina espanhola, talvez o maior paradigma no gênero. Obrigado pela leitura e pela visita.
Abraço amazônico
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 11:53
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Nydia querida, que beleza de poema! Todos se lembrarão de seu poema e, consequentemente, de suas bailarinas. Até porque a bailarina é figura emblemática de muita literatura: conto, poesia, romance, novela ensaio. E principalmente metáfora de nossa dança aqui pelo planeta azul. Ora sob as ribaltas e aplausos, ora fora dos palcos sem os focos e com vaias. Daí a sabedoria popular transformada em samba: "Levanta, sacode a poeira, e dá volta por cima". )briado pelo poema, e pela leitura. Quem tiver poemas sobre bailarinas seria bom se fazer uma corrente aqui. Que tal? Ajudem-me a espalhar por aí. Todos serão bem-vindos.
Beijos muitos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 12:04
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Cíntia querida, vc. sempre generosa. Obrigado pela leitura e por ter pinçado o que lhe tocou mais de perto.
Beijos muitos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 12:07
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Clara querida, obrigado pela sua visita. Peço desculpas pela quantidade de poemas que tenho colocado por aqui.Prometo, que nas próximas vezes, colocarei apenas um. É que não estava consciente das normas por aqui. Quem me chamou a atenção, numa boa, foi o amigo comum Alcanu.
Beijos muitos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 12:11
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Meu caro Lioviola, obrigado pela visita e por ter entrado na dança. Aliás, aí em Pernambuco a coisa deve tá pegando com o Sãojoão arretado dos nordestinos. Né não? Haja forró...!!!
Abraço amazônico
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 12:15
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Alcanu querido, vc. sempre me prestigiando e chegando de prima.Obrigado pela visita e pela leitura. E desculpe-me por ter colocado esse amontoado de 'versos'. Desculpe-me também por ter chegado por aqui sem me apresentar nem nada, nem seu Souza. Mereço o puxão de orelha porque não observei a NETIQUETA da nossa OVERMUNDO. Sem querer fugir da raia, apenas a meu favor, quero dizer aos ilustres colegas que sou marujo nesse oceano cibernético, e como marinheiro de primeira viagem acho que ainda não mereço caminhar pela prancha.
Abraço amazônico
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 12:22
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Bolero é um primor. Do pouco que sei para poder ler o poema, o que percebi com prazer foi o uso das palavras: lixa/alfanje. alfenin/enfeita e tb lávia/lambe/leve dentre outras combinações felizes. Beça, esta aprendiz segue encantada com as palvras e o jogo que se pode montar com elas.
Quem sabe nesse exercício eu saia daquele labirinto e deixe o fio de dédalo pra sempre!!!!
obrigada por tudo.
Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 27/6/2008 13:23
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CD querida, obrigado pela visita e pelas palavras. Não tenho nenhuma dúvida de que vc. sairá do labirinto puxando o Minotauro pelo fio de Dédalo.
Beijos muitos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 27/6/2008 14:43
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Aníbal, peço desculpas pela demora. Estive lendo devagar os seus poemas para melhor apreciá-los. Gostei de várias imagens, como: "O mudo silêncio cantava pelos seu gestos" , " Uma perna acorda estrelas".
Bailando no ritmo dos seus versos, despeço-me com um grande abraço.
Sônia Brandão · Bauru (SP) · 27/6/2008 19:41
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Querido, Beça!
Suas poesias (caninamente as rumino a cada manhã...) são alimentos na boca raquítica do Mundo.
Sou seu fã.
Boa, companheiro!
Benny Franklin · Belém (PA) · 28/6/2008 07:31
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Sonia e Benny queridos, obrigado pela visita e pela leitura. Fico muito lisonjeado com suas palavras generosas.
Beijos muitos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 28/6/2008 11:19
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Sempre faz questão de nos extasiar com seu dom de mestre. Venho ler é o que penso,mas sempre acabo por aprender bebendo das letras desse poeta...
A INVENÇÃO DA DANÇA Desse vou levando bravas lições!
beijo e beijos querido
Cherry Blossom · Dracena (SP) · 29/6/2008 14:15
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Cherry querida, vc. é quem me dá, com sua leitura, o estímulo para eu prosseguir nessa minha jornada. Sei que vc. é boa leitora de poesia, por isso seu comentário tem um significado singular para mim. Muito obrigado pela visita, pela leitura e pelas palavras generosdas, sempre.
Beijos
ANIBAL BEÇA · Manaus (AM) · 29/6/2008 15:19
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alcanu · São Paulo (SP) · 29/6/2008 19:13
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victorvapf · Belo Horizonte (MG) · 29/6/2008 19:39
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Anibal
No teu palco de beleza andam nossos sonhos
Belo texto, parceiro
Abraços
Noélio
Noelio Mello · Belém (PA) · 30/6/2008 10:23
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Gostei muito!
É uma dança poética e visual.
Parabéns!
Bj
Sílvia
silviaraujomotta · Belo Horizonte (MG) · 2/7/2008 14:05
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um beijo atrasado
Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 3/7/2008 01:29
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