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BAR DO HAROLDO

Cristina Piedade
1
raphaelreys · Montes Claros, MG
4/2/2011 · 0 · 2
 

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O BAR DE HAROLDO DO DESTAK.

Ou mesmo, a alma do bar. Domingo, cinco e trinta da matina. Chega o lusco-fusco, depois o sol forte, após uma noite calorenta com o travesseiro, a fronha, a colcha e o colchão ensopados de suor. Debaixo do céu tropical e abaixo da linha do Equador, onde acontecem pecados...
Estou tomando café à mesa do bar do Haroldo no Mercado Sul, aqui em Montes Claros (MG) Capital da República do Pequistão, com a cabeça quente pelo som dos reclames da campanha política, quando começam a chegar e compor o espírito do boteco os primeiros “habitues” de todas as manhãs. Formam-se as primeiras mesas dos peregrinos da balada da noite.
Trazem debaixo da camiseta de malha e presa ao elástico da bermuda, a garrafa que sobrou da noitada. Descontraídos filhos do deus Baco, já apresentam sinais de sonolência e estão sob a égide da terceira fase da bebida: o hilário macaco! É pura gracinha com os presentes e a provocação em cima do Cristo de sempre, o dono do boteco, que volta e meia dá uma bronca.
Logo em cima do rastro chegam os que amanheceram lisos, lesos e loucos! Anseiam pela primeira dose da cachaça curraleira branquinha desdobrada na cal. São os caídos de bolso, filhos do carma e da amargura da vida.
A segunda leva é a dos que combinaram encontro para tomar logo cedo uma meiota de cana com “rusarô” e degustar uma loura gelada. Trazem o tira-gosto de casa em um saco de papel e se divertem com o hilário da primeira turma.
A terceira bateria de notívagos chega às sete horas. Acordaram escorraçados pela mulher que os colocou para fora e ainda estão na semiconsciência. Buscam tomar uma dose de fubúia com alguém pagando, seguido de um copo de cerveja meletado. Provocam os primeiros distúrbios da manhã e são repreendidos pelo botequineiro.
A quarta turma, a das sete e trinta, é composta pelos abastados da vida, que tomam a primeira dose do dia e se preparam para uma pelada no campo do Clube Ferroviário próximo. Agrupam-se por similaridade, conversam assuntos comuns e dão gritos de incentivo aos que chegam e esperam carona para o campo. Voltarão às onze horas, para a bebedeira final!
A quinta bateria é a dos que vem ao mercado comprar algo faltante da feira do sábado. Tomam duas doses de cachaça, bicam um bucho abelhado, com uma cerveja, falam do futebol e dos crimes da moderna urbanidade opressora.
A sexta patota é de funcionários públicos que receberam pagamento recente. Mostram-se afoitos e cheios de razão. O ego dilatado pela impunidade/estabilidade funcionais, bazofistas exibidores de vantagens pouco comuns ao cidadão trivial. Uns pavões curraleiros, que provocam a primeira onda de antipatia entre os presentes. Carteando marra!
A sétima leva é a dos comerciantes abastados, ricos empresários, novos ricos, chefes de departamento recentemente nomeados e vendedores ou distribuidores e vendedores de ilusões exógenas. Enchem a mesa de sacolas com pequenas compras, exibem celulares de última geração, boné, camiseta, tênis e bermuda de grife.
A penca de chaves do carro penducando no dedo, muitas vezes acompanhados de algumas lebres bem vestidas, efetivas ou apanhados na noite. Seguidos de perto e em volta da mesa por amarra-cahorros e paus mandados, sempre prontos para cumprirem ordens. São uns ”Don Camilo e Seus Pequenos Mundos”. Assim como os outros passageiros das ilusões efêmeras.
A oitava bateria é a dos assustados e inseguros, cornos enrustidos, psicóticos, mentalmente instáveis ao extremo, filhos da loucura dos urbanos. São os perigosos do bar! Trazem no coração a marca da derrota constante.
Via de regra são pacientes cardiopatas ou com patologias no fígado, rins, e gastro. Quase sempre impotentes ocasionais que estão entrando no clichê e se tornando impotentes definitivos.
Não fazem parte de nenhum grupamento anteriormente citado. Sentem-se primos carnais de cachorro sem dono. Bebem com os olhos revirando na órbita em busca de um referencial ou de algum gozador para a primeira bronca pesada do dia.
Mas, todos eles integram e estão presentes na mística do Bar do Haroldo!

Sobre a obra

Ao entrar num bar para desafogar as suas mágoas, para inebriar-se, o ser vivente humano altera o seu consciente e expele os seus demônios, põe para fora toda a toxidez que o atormenta, consciente ou inconscientemente. Ele pensa que assim ocorre; mas, na verdade pode estar pondo para fora apenas um camundongo que, segundo o dizer da imortal escritora Rachel de Queiroz: este camundongo voltará como um rinoceronte.

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RAPHAELREYS
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raphaelreys
 

Atenção galera! O Haroldo vendeu o bar. O novo dono fechou as portas e botou um depósito! O Haroldo agora está montando um gongá de santo em Livramento na Bahia de todos os Orixás!
Veja outra crônica que escreví sobre ele:


NENÉN DE PAIN.

Haroldo Santos, também chamado pelos íntimos de Neném de Pain, ou Haroldo da Escola de Samba, era gerente do bar Destak na rua Melo Viana, aqui nos Montes Claros interior das Minas Gerais. Solteirão convicto e, fiel devoto de São Jorge Guerreiro.
Portava sempre na carteira ou no bolso do paletó, um santinho do seu protetor, na sua imagem lunar, entre crateras e a chuchar o feroz dragão com sua lança pontiaguda. Realizava as suas obrigações com o santo, acendendo as suas velas, e executando os rituais no seu sanctorum doméstico. Sarava! Meu santo Orixá.
Como era afro descendente, desde a tenra infância estava ligado aos mandingueiros, terreiros, candomblés, amolôcôs, terecôs e bocas de cabaça que abundam neste Norte de Minas. Recebeu o seu Exé em um terreiro de Umbanda de Mainha de Biriba em Livramento, na Bahia.
Lá não se dava importância à decisão Papal em se deletar o santo guerreiro da hierarquia celestial, atitude tomada pelo Vaticano em represália ao aumento de fé nas raízes afro, pelo Brasil de meu Deus!
Certa feita, juntamente com colegas de serviço e seus respectivos familiares, fretaram a baixo custo um velho caminhão Doge Cara Chata usado para carregar toros de madeira. O veículo os levaria morro acima. Iam para uma tradicional festa de santo na roça.
A dita elevação, só era vencida de Toyota com chassi modificado e caminhão modelo “toco” com correntes de aço nas rodas dianteiras, isso dado ao aclive e respectivo declive íngreme e constante que se fazia até o platô e vice-versa, alem do solo arenoso e escorregadio. Era uma via dantesca!
Às três da tarde terminada as festanças de roça, retornaram as origens. “Desciam morro abaixo no Cara Chata quando o motorista sentindo o frio provocado pelo óleo do burrinho mestre do freio que escorria no seu pé direito botou a cabeça para fora da boleia e gritou a pleno pulmão:” pula todo mundo que o caminhão está sem freio!”“
Todos pularam menos o Neném de Pain que permaneceu com os braços apoiados no Santo Antonio da carroceria. Entre os que saltaram para o chão, braços e pernas quebrados, pescoços torcidos, mortos e feridos.
O caminhão tendo só o nosso “Neném de Pain” como viajante se enganchou no primeiro barranco à direita do morro, levantando poeira. Nosso herói desceu da carroceria sem qualquer arranhão, e, ato seguinte, sacudiu o pó da roupa.
“Seguindo o dito de Shakespeare: cada terceiro pensamento passa a ser sobre nossa sepultura, um colega de viagem, irritado com o braço quebrado gritou para ele em represália:” você não pulou por que sua lesma?”No que ele retrucou: “sou devoto de São Jorge Guerreiro”!” O outro rebateu: “que F.D.P. de santo é esse que seguro caminhão Cara Chata sem freio, ladeira abaixo?”.
Neném de Pain tranquilamente tirou o santinho de papel do bolso do paletó mostrando-o ao interlocutor, identificando, assim, São Jorge Guerreiro, o protetor da sua devoção.
Acontece que na gravura exibida estava só o pesado dragão soltando fogo pela boca. O cavalo e o popular São Jorge, já haviam caído no bengo desde o grito de alerta do motorista, por via de dúvidas...
A boca era por demais quente, até para santo guerreiro!


raphaelreys · Montes Claros, MG 6/2/2011 05:59
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CHARLES   SCHUAB
 

DEMAIS....AINDA VOU CONHECER MONTES CLAROS....

CHARLES SCHUAB · Linhares, ES 25/2/2011 11:41
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