“Nos dias atuais a educação está muito precoce.”
“O desenvolvimento trás grandes lados positivos e negativos para o meio ambiente.”
“Isso tudo é devido ao raios ultra-violentos.”
“Existem dois tipos de animais: os que vivem em cativeiro e os que não vivem. Ultimamente, surgiram um terceiro tipo que corresponde aqueles os que são presos pela polícia federal. Todos os fiscais são subordinados. É a propina.”
(ENEM 2007, segundo dizem)
Quando nasceu o memorialista Mário Nava, um anjo torto entrou na maternidade, sentou-se ao lado do berço e exclamou a frase célebre: “Vai, Mário, ser gaúcho na vida!” Ele era muito triste e a família resolveu, por isso, mudar-se para Alegrete, onde ele ficou conhecido como o Mário da Quitanda. Dizem que na hora do embarque ele, ainda criança, teria dito: "Parto alegre!”. Outros dizem que a frase foi outra: “Parto sem dor!”
Eu poderia também falar do Alberto Calheiros, autor de O Guardador de Camelos, e que se notabilizou pela frase: “Eu não sou mais o mesmo Pessoa”. Alguns supõem fosse ele homo, mas, na realidade ele era hétero. Heterônomo, segundo o Fernando, seu biógrafo. Ou heterônimo, para rimar com Jerônimo. Tanto quanto o Bernardo Soares, homem extremamente desassossegado.
O fato é que, depois que o Raul Gil, ex-esposo de Flora, a virgem dos lábios de mel, assumiu ministério, tudo o que aprendemos é que ele prefere novelas e xaxados. Cultura? Nem pensar. Quem te viu e quem TV!
E tem também o Sal Amargo, homem dado a cegueiras, imortalidades e jeux de mots. Numa jangada de pedras lá vai ele da Ilha da Madeira para as Ilhas Canárias, apenas para que seus conterrâneos digam que fez uma troca d’ilhas.
Essas confusões entre nomes de autores e nomes de personagens só faz agravar-se com o tempo. É o que me dizem pessoas mais velhas, das quais não tenho motivos para duvidar. O Pierre Bayard, que, mesmo não pertencendo ao Ministério do governo brasileiro, acumula as inacumuláveis atividades de psicanalista e professor de literatura na Universidade de Paris, além de escrever romances policiais, acaba de brindar-nos com um interessante e sério livro intitulado Comment parler des livres que l’on n’a pas lus?, que, em português, recebeu, como não poderia deixar de receber, o título Como falar dos livros que não lemos? É um livro que eu não li, mas achei ótimo.
Pois todos nós temos, segundo o Bayard, isso de discorrermos com autoridade sobre coisas de que mal ouvimos falar, livros em especial. Você acha que alguém tem tempo e paciência para ler os não sei quantos volumes do monumental Em Busca não sei de quê, escrito pelo Marcel acho que Proust, é esse o nome do autor? No entanto, todos nós sabemos que aqueles brioches se chamavam madeleines e é graças a eles que o autor viaja ao passado. Como dizia ele, Não há pão? Pois que comam madeleines! É ou não é?
Quando o livro vira filme, como está a ocorrer com o autor português que mora em Lanzarote, isso lá é nome de cidade, pá? a coisa então é de chorar. O livro mais célebre do Joseph Conrad, por exemplo, passa-se na selva africana. Nele “há um homem que é quase um mito, pois sozinho consegue vender mais marfim do que todos os outros juntos, e que chefia o posto mais distante, mais embrenhado no coração das trevas que são aquela selva. Esse homem é Kurtz, uma figura misteriosa de quem se fala praticamente ao longo de todo o livro, mas que só nos é apresentado perto do fim, criando também em nós, leitores, a ansiedade pelo encontro, o fascínio pela personagem” diz uma resenha do livro divulgada na Internet. Acontece que no filme Apocalypse Now, baseado no tal livro, o Ford Coppola narra a história do capitão Willard, papel do Martin Sheen, que recebe a missão de matar um insano desertor, o coronel Kurtz, papel do Marlon Brando, porque este preparara uma tropa de vietnamitas para matar os norte-americanos. Transpor a história do Congo Belga para o Vietnã e transformar o traficante Kurtz no coronel maluco foi o mínimo em matéria de loucura. Em primeiro lugar, quem não é maluco no filme e na equipe de filmagem? Um tufão acabou com o cenário, que teve de ser refeito, e o Martin Sheen por pouco não morreu por causa de um infarto, coisas de que o Conrad não tomou conhecimento, até porque o filme foi feito mais de 50 anos depois de sua morte. Se você tentar comentar o livro a partir do filme do Coppola, entra na lista do Bayard.
Antes de concluir: já que você teve paciência de aturar-me até aqui, certamente descobriu que isto é um teste de auto-conhecimento, também chamado “jogo dos nove erros”. Ou dezenove, dependendo do enfoque que se lhe dê. Graças a este teste você descobrirá o quanto não sabe de literatura. Nada mau para quem vive dizendo que é socrático, referindo-se ao homem que dizia a seus alunos, chamados por ele de patetas, que tudo o que sabia era que não sabia nada.
A brincadeira que proponho consiste justamente em você reescrever a crônica, que lembra o “Samba do Crioulo Loiro”, do Estanislau Ponte Porto, que, aliás, entendia um bocado de jazz, tanto que se apresentou no “O Céu é o Limite”, lá vão alguns lustros, e ganhou um bom dinheiro, que repartiu com sua Tia Zulmira.
Mas, é claro, reescrevê-la corrigindo o que deve ser corrigido.
E nem me venhas pôr a culpa no Exame Nacional do Ensino Médio.
Suane,
Achei bem legal, principalmente a quase fina verve cômica. Até mesmo a gozação com o Gil. Já que gozou o Marcel, porque não gozar o Gilberto. Fale mal mas fale de quem merece ser falado.
Abs
Há um lema do petismo que me irrita: todos têm o direito de ter a minha opinião. Há no Brasil mais de 300.000 Ongs, mantidas com dinheiro público. A maioria só faz fazer projetos. Quando esses projetos sairão do papel? Aliás, algumas pessoas têm dificuldade até em distinguir ficção de não-ficção. Só falta dizerem que a cultura no Brasil vai melhorar quando entrar no ar a TV do governo federal. Leiam a letra de "Procissão" e comparem com o desempenho político do seu autor. Mário Henrique
M H Rolim · São Paulo, SP 8/7/2008 13:25
Suannes,
Muito interessante, esse seu modo e esculhambar botando a gente para refletir sobre filmes, autores e ações. Quanto ao ensino, sei o quanto esta atrasado, pois eu era quem tinha de fazer todas as resenhas, introduções e resumos na Faculdade,( Pedagogia- trabalho em grupo) porque o pessoal não sabia interpretar textos, e muitos deles nem redigir cartas. É a triste realidade de hoje.
Bjsssss
.
Interessante esse seu samba do criolo doido!!! Mas, dá p/ a gente refletir o tanto que sabe ou que não sabe sôbre uma coisa !!! Vai meu voto "carismático" (de carisma ...) p/ vc....Bjs. Langinha....
Langinha · São Paulo, SP 9/7/2008 23:07
Além daquele famoso scan de prova de biologia (ou ciências, sei lá!) do ENEM onde se lê em tiposdigitais a pergunta "qual a função do esqueleto?" para a seguir lerem-se os garranchos de um adolescente que escreveu a resposta "invadir o castelo de Greyskull" já presenciei coisas do arco da velha como uma redação em que um sujeito dizia "gostar de uma cervejinha no final do dia como todo cerumano". A culpa é do Enem? Claro! Não fosse o enem isto até continuaria a acontecer... mas ninguém ficaria sabendo e poderíamos até pensar que tínhamos deixado de ser umpaís de analfabetos. Belo texto, Adauto!
Publica logo!
Adauto
Vo(l)tei em seu bau de ossos ( do oficio)
Bjssssss
outro dia recebi um CV de um engenheiro (?) formado por uma faculdade (???) absolutamente deconhecida, e no corpo do email ele escrevia "Presada, entereço-me pela vaga..." (sim, com S, E e Ç)
Ontem, ao ler o site UOL de notícias, pego um determinado jornalista escrevendo "a x anos atrás" (a, sem "H", e ainda com "atrás")... AIIIIIII, minha Santa Gramática do Cegalla!
Será que estamos menos inteligentes, ou apenas mais bonzinhos com a ignorância alheia??
beijocas, tio.....
Meu amigo. Deixo aqui meu voto. Texto reflexivo com doses criativas de bom humor!
Saúde !!!
Como todos seus textos esse nos convida a reflexões
Bjos
Um professor do colegial, muitos anos faz, costumava brincar dizendo que quem não havia lido livro x, havia perdido 5 anos da vida, quem não havia lido livro y havia perdido mais cinco, e assim por diante. Pois continuo devedora, já tendo perdido muitas vidas, embora tenha por deleite ou por ofício passado boa parte destes meus dias mergulhada na mágica da leitura. Ler este seu texto melhorou esta quinta com cara e "jeitão" de segunda. Sds.
LBeraldo · São Paulo, SP 10/7/2008 13:08
Espetacular! Muito bom mesmo, só falta vc dizer assim: "To Pagandoooooooooo" Tem um bando de gente q escreve assim e acha q tah abafando! E tem outro tanto q tah abafando escrevendo assim: caso do Macaco Simão. Acho isso inteligente, uma brincadeira reflexiva e tanto. Aplausos
Nic NIlson · Campinas, SP 10/7/2008 14:29
Poderia me responder o q faz ali o Machado do Assis? É para abrir o Bau de ossos?! rsrsrsrsrs
Nic NIlson · Campinas, SP 10/7/2008 14:30
Votei!
Parabéns pelo trabalho e Boa sorte!
Eu estou com uma Mostra de Cinema na agenta Cultural, http://www.overmundo.com.br/agenda/mostra-curta-todo-brasil-traz-cinema-independente-a-camara , depois se der passa lá e vota! Beijos
Quando o assunto é escrever bem, não há como deixar de lado o mestre de todos nós. Conheci um professor norte-americano que fez questão de aprender português apenas para poder ler o Machado no original. E há universitários brasileiros que nunca abriram um livro do homem!
Circus do Suannes · São Paulo, SP 10/7/2008 18:42
Prezado Tio,
Como um Suannes também, acho que somos ETs: lemos, assistimos a todo tipo de filmes (de franceses a Duro de Matar e gostamos!!), comentamos, buscamos informações, pesquisamos, escrevemos e temos cultura. Não é só a falta de uma educação decente no Brasil que atrapalha. É falta de interesse em cultura geral. Só para exemplificar, namorei uma menina que achava que Norwegian Wood, maravilhosa música dos Beatles onde George Harrison tocou cítara mesmo sem saber fazê-lo, era um tema militar!!! Ou seja, ninguém sabe mais nada nessa vida. Aliás, sabes o que uma Norwegian Wood?
E quanto a Machado de Assis, vale uma ressalva: dão para ler aos moleques de 14 a 16 anos de idade na escola e é óbvio, que nessa idade, eles vão achar um saco, odiar o estilo e nunca mais pegar um livro na vida. Sorte eu tive com um professor que nos deu Julio Verne na oitava série e e Edgar Alan Poe no primeiro colegial!
Abraços e parabéns!
Uma bela brincadeira. Gostosa essa maneira de fazer um exercício de memória e conhecimento. Interessante essa troca de nomes, de personagens, como Alberto Caeiro, Pedro Nava, O Guardador de Rebanhos, Stanislaw Ponte Preta, Saramago e outros.
Um abraço.
Muito bom o sedu trabalho.
Parabéns!
Abraços
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