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Belinha é a mãe

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Tatiana Bandeira · Porto Alegre, RS
21/2/2007 · 64 · 6
 

Mulher tem que ser vaidosa. Manter as unhas pintadas para pôr um belo de um anel de letra, com a letra manuscrita e rebuscada, como tem de ser, Belinha. Belinha? Você está se arrumando no banheiro? Usa Curvex, minha filha. Cílios grandes é o que há. Os homens gostam. Eles gostam de mulher vaidosa, que se cuida. E pára de andar com a Mariona, que aquilo que é não é uma mulher, é uma coisa. Me lembra a Irmona, de quando eu era pequena e a sua avó sempre apontava com o dedo. Mostrando como não devíamos ser, é claro. Está ouvindo, Belinha? A Irmona tinha umas ancas enormes, um tundá imenso. Credo, aquilo não era coisa que se tivesse. A volta da bunda dela dava para segurar um copo. Credo, nosso Senhor que me perdoe, que não gosto de falar mal dos outros, ainda mais de quem já não pode mais se defender, mas ela era aleijada, aleijada minha filha. Coitada. Que Deus me perdoe – fazendo o sinal da cruz – . E as tetas? Nunca vi parecido, eram imensas. Está certo que homem gosta de tetas grandes. Mesmo quando as pequenas estavam na moda, dava pra ver eles salivando. As tetas...dava ali para ter dado de mamá a muitos, mas quem disse? A Irmona não gostava de homem, Belinha. Pois só pode que não gostava mesmo, porque morreu sozinha, já magra, coitada, e com aquelas coisas caídas todas. Nem os irmãos entravam na casa. Acho que, quando morreu, não se confessava há muito. Tanto que deixou escrito, num papel sujo, junto com a carta celestial – a de aparar tormenta, e um ramo seco, abençoado em um domingo de ramos – um bilhete dizendo que a irmã Renata é que fosse dar a extrema-unção. Vê se pode, Belinha, nem o padre. E você andando com essa Mariona, que me lembra, ai, como me lembra Irmona, que Deus a tenha. Nós, eu e suas tias, moças faceiras, pó de arroz na cara, blush, aquelas calças bonitas do nosso tempo, boca de sino. E a Irmona daquele jeito. Seu pai, aposto que seu pai não ia gostar de ver você a tiracolo com essa criatura, Belinha. Esteja ele, que Deus o abençoe, em um lugar bom. Porque seu pai era um homem bom, minha filha. Sempre bigode bem cortado, dentadura em alinho. Tinha dois, dois dentes de ouro, bonitos, dezoito quilates. Economizamos no casamento para ele colocar os dentes brilhantes. Só faltava ariar com Bombril. Tão bom ele era pra mim, pena que não viu você virar moça. Mas até é bom, ele não ia gostar de ver você assim. Isabel? Abre essa porta, Isabel.

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Tatiana Bandeira
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Marcela Fells
 

Andandocom a Irmona hein? eubem q gostei desse conto viu

Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 20/2/2007 19:49
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Marcos André Carvalho Lins
 

excelente, tatiana.
abraço,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 21/2/2007 02:39
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Roberta Tum
 

HAHAHAHA... que ótimo! Super bem humorado!
Adorei!

Roberta Tum · Palmas, TO 21/2/2007 22:43
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vertov
 

Eu gosto de Marionas :)

vertov · Cachoeira do Sul, RS 24/2/2007 14:36
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Felipe Obrer
 

Mesmo atrasado, digo: muito bom!

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 2/3/2007 06:46
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Adroaldo Bauer
 

Do outro lado, Isabel chora um choro baixinho, mais suspiro que soluço, por saber-se assim incompreendida pela mãe, sim, mas e principalmente pelo coração partido.
Encontra a navalha que o pai usava para o barbear, recorda o cheiro forte de lanolina do abraço dele. A lãmina conserva o mesmo brilho azul que a cegava e fazia correr quando criança e a agora a atrai de tal modo que a inspira nesta dolorida hora.
As pancadas na porta são mais fortes, mas já escuta o próprio nome como em um longo túnel, ou como se estivesse mergulhada e não na banheira fria de ferro em que o sangue vai tornando morna uma água que não era quente.
Belinha, abre, é a mãe!
(Gostei um tantão)

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/3/2007 11:48
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