Conto
Ciclotímico. Tímido e calmo de dia, de noite bicho solto, porra louca, pomba rolou. Às vezes o ciclo invertia e ele batia nas panelas, anda bem cedinho, esbravejando contra tudo, despirocado, chutando o cachorro de estimação como se o pobre, o saco de suas mágoas fosse. Bizarro. Nestas horas, um horror de pessoa. Verdadeiro urso no surto. Nas outras, como se diz: uma moça, um solícito e admirável amor de gente.
Hoje saiu cedinho, tranqüilão. Na padaria olhou, detidamente, as tortas e os pães de trança, as broas de milho, os provencianos, tudo enfileirado, enfeitiçando os olhos. Olhou com cupidez as bombas de chocolate e comprou uma. Na farmácia da esquina admirou as latas de talco para bebês, os frascos de água de colônia, de alfazema, inebriado com aqueles odores e iguarias, os chocolates e os perfumes se misturando na cabeça esvoaçante de sem juízo tranqüilo que era, embora de vez em quando, já bem de uns cinco anos pra cá.
Só emburrava um pouco a cara quando passava no açougue. Não gostava muito de ver as mantas de carne seca, as peças de carne sangrenta estiradas no cepo, penduradas nos ganchos, pingando. Achava macabro aquilo tudo esquartejado ali, à mostra, como uma sala de horrores. O que de pior havia ali para se ver? Talvez fossem os guarda-pós dos açougueiros, manchados de um sangue que ninguém podia afirmar que fosse mesmo só de vacas mortas. Sabe-se lá?
Mas ia, tranqüilo, seguindo, dizendo para todos os conhecidos - que eram muitos - o seu delicado bom-dia, assim mesmo, por entre os dentes.
Cruzou com as crianças da creche já no fim da rua e, de sisudo que estava, desmanchou-se num sorriso, como se ali, o sorriso travado há cinco anos, fosse um imperativo feliz. Não tinha como impedir o riso de transbordar da boca e dos olhos. Sorriu por vários segundos e seguiu bobo consigo mesmo, de saber o quanto gostava de ver as criancinhas berrando para ele, em coro:
_ Bom dia seu moço!
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Foi meio por conta disto que o pessoal demorou um pouco a compreender o que se passava. Ouviram o tiro. Tudo bem. Tiro é coisa corriqueira. O sujeito se abaixa e se esconde, aguarda o burburinho da rua voltar ao normal. Nem reza. Nem se benze mais. O estranho é que, mesmo depois de resolvida a cena, tudo continuou suspenso, na mesma, porque, ninguém acreditou.
Foram dois estampidos secos, de arma automática, muito familiar por ali. Atirados pelo chão, pelos desvãos dos postes e das esquinas, o pessoal da rua não sabia muito bem como classificar a cena com ele ali, tão calmo e pacato, principalmente naquele dia, com a arma brilhando na mão, olhando o outro caído, estrebuchando e ele sorrindo, sabe-se lá de que, com o sorriso agora, novamente, preso nos beiços por um bico de assobio, um firififiu mavioso, desses com que se imita passarinho.
Parecia um bem-te-vi fora de hora.
(Segue no Download)
Lindíssimo, mais do que isso tocante. Adoro bem te vis. Qdo eu era pequena (há mtos e mtos anos atras) havia mtos deles em Ipanema. E, como nessa época, criança ainda brincava na rua, meu pai dizia pra mim e pros meus irmãos que não podia fazer besteira que o bem te vi vinha logo contar. E a gente acreditava piamente. O seu bem-te-vi é tão poético quanto os meus eram, mesmo ele tendo visto coisa tão triste que os meus não viram.
Que conto triste, Spirito. Toca lá dentro da gente
Mano, não consegui abrir o tal do download. Tu és bamba neste negocio de infor. eu sou ainda eletro-mecanico, mas acho que tu não gravaste, "para página da WEB, tive umas experiencias assim e daqui mesmo me disseram e passou a dar certo os meus, um abraço, (nãop li o fim_)
Andre Pessego · São Paulo, SP 30/7/2007 18:05
Andre, desculpe me meter, mas acabei de clicar no download e abriu direitinho. É lá do lado da foto do bem-te-vi. Vc não pode ficar sem ler o final.
Um abrç
Nunca vi tanta beleza em meio a tanta dor.
É lindíssimo.
O início me fez lembrar de "Sorriso do Lagarto". Só pelo bem-te-vi, eu acho.
beijos
Valeu, Saramar!
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 30/7/2007 21:45
Fantástico teu conto Spirito Santo.
As palavras da Saramar expressam nitididamente teu texto.
Abraços;.
Spirito,
Prosa Poética de Fina Estampa. Raro caso de orgasmo intelectual entre um homem e um bípede.
Porra louca a pingar poesia e tanto.
Parabéns.
Abçs. Benny.
Benny e Lucas,
Valeu também.
Abs
Desculpa, galera. Ficou um 'ainda', lá em cima, faltando um i. Só agora bem que vi.
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 31/7/2007 09:09
Muito forte, poético e psicológico. Cruel como a vida.
Arte. Vc escreve muito bem!
Grande abraço
cara,
que texto bom! li de uma vez, sem conseguir parar.
você tem muito talento, parabéns!
um abraço,
Pedro.
Poxa Spírito, não sei a razão, mas aqui não consigo completar o download. Mas a julgar pelo fragmento, a continuação deve ser tão elegante quanto o preâmbulo.
Um abraço.
Filipe,
Te mando este link e vou ver se coloco no teu e.mail uma cópia. Se não rodar éalgo no seu Pc.
Abs,
http://www.overmundo.com.br/_banco/produto.php?titulo=bem-te-vi-1
Valeu, Pedrão! Grande força.
Abs,
Não se preocupe, consegui aqui Spírito. Era o tal do 'Firewall' do PC. Abraço.
FILIPE MAMEDE · Natal, RN 31/7/2007 11:22
Oi, spírito! Só mesmo os melhores podem escrever textos tão bons. Abraço
Remisson Aniceto · São Paulo, SP 1/8/2007 15:10
Quando o fim é o começo, só começa quanda acaba.
Digo da finalidade, falo do texto, do contexto.
É pingente a lágrima, pungente o drama, fascinante a trama
É também drama de pelado, sem ser melodrama
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E bem-te-vi assoviado
É um muito belo achado.
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Ficas bem de conto,
tão bem e tanto quanto
és bom no gateado aí ao lado.
Em meu tempo de menino,
acertar a mão no contado
era leitaria (ou leiteria aberta),
nesse teu caso, o achado,
miado ou assoviado é gataria completa.
Bravo!
Mas bah, guri.
Supimpa 'sudaí!
beijin di passarin
Obrigado! (palavrinha que não condiz porque, fico agradecido por que quero e vocês merecem). Demoraram mas vieram. É o que me basta.
Abs,
De repente, o céu dos bem-te-vis ficou em silêncio para emprestar seu canto ao conto. Gostei. Você escreve como gente grande.
Frazao my brother · Anastácio, MS 5/8/2007 08:14
Pô, Frazão! Como assim? 1.80 de altura e pré-sessentão já não era grande suficiente não? (rsrsrs)
Abs,
Spirito Santo, olá!
Muito envolvente a leitura do texto. Li de prima, sem parar e, apesar de triste, vc retrata com perfeição, o violento quadro de nosso dia a dia, sem bem-te-vis.
Parabéns!
Um grande abraço.
Brigadão, Lígia. Também gosto dos seus textos.
Grande abraço
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