Boas Festas, Feliz Natal

Nivaldo Lemos
1
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
30/1/2007 · 60 · 6
 

O dia amanheceu sem nuvens e o sol de dezembro prometia um céu de brigadeiro na hora da ceia. Saímos eu, Vanda e os meninos para os últimos preparativos. Pegamos o carro e descemos a Niemeyer em direção à Gávea, cruzamos a Lagoa e ganhamos a Voluntários sem trânsito, “um milagre, pai”, disse Guto, enquanto Alice dormia no banco de trás. Primeiro fomos ao Rio Sul comprar os últimos presentes de mamãe, da mãe de Vanda e de alguns amigos que sempre lembram da gente e nos impõem essa reciprocidade protocolar que eu, particularmente, detesto, mas a Vanda, sabe como é, faz questão.

Rodamos meia hora até encontrar uma vaga no G-5, lá no fim do estacionamento, atravessamos a garagem até a escada rolante e mergulhamos no shopping. As luzes feéricas da lan house, o zunzunzum do consumo, as vitrines, as pessoas com sacolas cheias, filhos e pais aflitos, rostos cansados de felicidade e o sorriso de Vanda e das crianças me deram a sensação ambígua de prazer e desespero. Minha vontade foi sair correndo, mas me submeti ao ritual e os acompanhei de loja em loja até o último presente, um porta-retratos de madeira e prata para Ana Maria, esposa do Paulo – ele mesmo vai ter de se contentar com um CD dos Beatles que foi o que deu pra comprar, mas acho até que ele vai gostar pois até hoje vive nos anos 60, pelo menos em termos de música.

Já passava das 4 da tarde quando fomos à praça de alimentação e pedimos uma pizza gigante de tomate e rúcula, uma Coca pro Guto e pra Alice e um guaraná pra mim e pra Vanda, “uma delícia”, na opinião de quem mais entende do assunto, a Alice. Paguei a conta rapidamente, pegamos o carro e fomos ao supermercado comprar o vinho, o champanhe, as cervas e as frutas e frios para compor a mesa. No estacionamento, Alice estranhou as crianças descalças que pediam esmola junto com a mãe, uma negra de uns 35 anos aparentemente saudável e que também estendia a mão enquanto dava o peito murcho ao bebezinho magro de cabelo encarapinhado que parecia dormir em seu colo. Deixei cair umas moedas na mão da pobre mulher, que agradeceu amarga, e entramos no mercado. “Papai, eles não têm casa, não?”, perguntou Alice. “Não sei, filha, acho que não”, respondi surpreso com a observação da minha filha, que tinha apenas 5 anos.

Compramos as bebidas e frutas o mais rapidamente possível, pagamos com cartão e fomos embora, quando as primeiras luzes já anunciavam a noite de natal. Ao pegarmos o carro, notei que a mulher já não estava lá com as crianças, “deve ter ido pra casa”, pensei sem me convencer. Chegamos exaustos em casa, demos um feliz natal pro Antônio, nosso porteiro, e subimos com as compras.

Abri a enorme porta envidraçada da varanda e deixei entrar em minhas retinas as luzes da Rocinha que, de longe, lembravam um enorme presépio multicolorido. Vanda rapidamente pôs a mesa e foi se arrumar junto com as crianças para esperar os convidados, enquanto eu cochilava um pouco na varanda, embalado pela brisa suave do mar. Acordei com o barulho dos tiros e as balas traçantes cruzando o ar como estrelas de Belém sem rumo, anunciando a desesperança. Mal percebi o que estava acontecendo quando o impacto da bala projetou meu corpo contra a vidraça estilhaçando o vidro e meus pensamentos. Pus a mão no peito e senti o líquido morno brotando do furo, umedecendo a camisa. Foi tudo rápido. Lembro-me de ter gritado “Vanda!” e ver o desespero em seus olhos e ouvir os gritos das crianças e perder as forças e pensar “Meu Deus, não me deixe morrer” e dizer pra Vanda “não dói” e ela ao telefone e os convidados chegando sorrindo e meus pais e eu menino e as sirenes e o médico dizendo “sinto muito” e a mesa com as frutas e as velas acesas e as luzes se apagando e mais nada, além da frase escrita na guirlanda da porta: Boas Festas, Feliz Natal.

compartilhe



informações

Autoria
Nivaldo Lemos
Downloads
259 downloads

comentários feed

+ comentar
Domdom
 

A realidade é o seu tema predileto e o RJ o seu palco preferido,
Parabéns por mais um conto. O carnaval está se aproximando o que tens a escrever sobre essa festa radiante que é pura energia?.

Domdom · Rio de Janeiro, RJ 26/1/2007 18:50
sua opinião: subir
arlindo fernandez
 

Salve Nivaldo!!
Pus a mão no peito e senti o líquido morno brotando do furo, umedecendo a camisa...barulho dos tiros e as balas traçantes cruzando o ar como estrelas de Belém sem rumo.(caramba que natal típico!) Fan-tás-ti-co!
Isso não foi baseado num fato real,foi? ( está muito convincente).
Saudações e parabens.

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 29/1/2007 14:15
sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Arlindo. Natal carioca. Típico, sim. Real, idem. Todo dia acontecem natais assim no Rio. Mas ficção, no caso. Graças a Deus!

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2007 14:22
sua opinião: subir
NatashaCorbelino
 

oi, Nivaldo, aqui é a carioca-russa-italiana! rsrs
vim retribruir a leitura e adorei o que li, vou acompanhar!
bjos

NatashaCorbelino · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2007 11:10
sua opinião: subir
Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Natascha.
Bjs

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 30/1/2007 11:30
sua opinião: subir
analuizadapenha
 

olá, a Rocinha semelhança de um presépio, não deixa de ser. E parabenizo por ser o cronista de um tempo que é tão tênue a diferença entre o lado de dentro e o lado de fora. Ainda brindo, Feliz Ano Novo para seus textos. Obrigado.

analuizadapenha · Natal, RN 30/1/2007 13:31
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
doc, 22 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados