Conto
Trabalho com meninos, muitos, todos os dias. Tanto que, às vezes, até me confundo e penso que sou menino. Eles também se confundem e, das duas uma: ou me faltam com o respeito devido, me zoando, como se eu fosse mesmo mais um entre eles, ou me seguem, confiando cegamente, como se eu fosse o mais esperto, o líder deles. O cara.
Acho que foi por isto que resolveram me lotar aqui, nesta delegacia, a DPCA.
Este que vocês estão vendo, sentadinho ali, no banco, é um desses da rua, entre muitos, nem tantos assim eu diria. Está murchinho no seu canto, mas, não se iludam. Não é flor que se cheire. Ainda ontem, ou anteontem, esbarrei com ele na Praça XV:
_”Aí, ô tio! Dá uma força aí. Só pra mim comer um negóço.”
Fazer o quê? Paguei uns saquinhos de amendoim pra ele. Do jeito que estava com thinner até na alma, não ia arrumar nada. Disse isto pra ele, mas, qual o quê. Só grunhiu meio que dizendo _” Qual é, tio? Tô legal. Só tô com fome.”
Quando cheguei, hoje cedo na delegacia ele já estava lá, dormindo no banco. O pessoal da noite me disse que ele foi pego no Leblon, doidão, no meio de um assalto num sinal de trânsito. Essas coisas. Tropeçou na fuga, caiu e ficou ali. Foi fácil pegá-lo. Tiveram que trazê-lo no colo. Chegou dormindo, chupando o dedinho. Só se mexeu de manhãzinha, quando alguém me chamou, gritando:
_” Detetive Ronaldo! Detetive Ronaldo! Telefone!”
Vou tomar o depoimento dele agora mesmo, antes que durma de novo, a praga. Os senhores e as senhoras esperem aqui, por favor. Não demora muito não porque é sempre a mesma história. Já sei de cor e salteado. Esta aqui é a famosa DPCA. Já falei? Pois é isto. Fiquem à vontade. Por favor.
Vou lá acordar o coitadinho. Dou um tapinha no ombro, de leve, só pra ele ficar esperto e espero. Ele vai me olhar meio assustado, com aquela cara de criança, que eles só mostram assim, nestes momentos distraídos, entre o sono e a morte. Vai limpar o olho remelento, me olhar com uma cara de enfado, maior do que o meu. Tédio e tudo o mais. Saco, desdém. E só aí vai se levantar.
Pronto. Levantou-se enfim. Licença. Vou lá interrogar a peste.
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Fala moleque. Conta aí.
Boladinho fala:
_” Tem madame que desvia de mim que nem diabo desvia da cruz. Acreditam nessas histórias de que os dimenor carrega caco de vidro, gilete, estilete, estas coisas todas para cortar as vítima. Vítima? E eu? Sou o que então, assim magrelinho, com os cambitos fininho, andando pela rua sem que nem porque? Agora então é época. Frio. Os dente batendo igual aos de uma caveira. Os cambito estalando, um no outro, igual a dois graveto balançando no vento. Tréc, tréc, tréc! Vareta de pipa sem papel, sacumé?
Ah... Não fui eu não! Quer dizer, pode até ter sido, mas, se foi, foi sem querer. Doidão do jeito que eu tava... De que? De thinner, sacumé? Que é que o doutor queria que eu fizesse? Cheirado eu faço coisas que até Deus duvida. Abilolado, berimbolado, Faço qualquer negóço. Até com caneta Bic eu já roubei, sacumé? As madame acha que eu vou furar a goela delas e pronto. Ficam gelada, paralisada. Dão bolsa, dão relógio, dão sapato, dão óculos. Se insistir dão até as calcinhas. Madame se assusta fácil. Madame vê muito filme, muita televisão.
A primeira vez que fui para o Padre Severino foi assim. Sorte que eu, sem querer, agredi a vítima. Cheguei no Severino cheio de moral, sacumé? Escapei de virar mulherzinha de um daqueles, mais velhos. A madame que me perdoe, mas, desta sorte, por conta, de ter agredido a pobre, eu escapei.
E chamam aquilo lá sabe de que? De Escola! Vai entender? Lá tem corredor gradeado, tem cela...
(Segue no download)
Ei Spirito, a foto do moleque é essa mesmo?
Excelente texto, meu amigo Spirito Santo! Gostei muito mesmo. Boladinho me faz lembrar todos os meninos de rua que, me confundindo com turista na praia de Copacabana ficam meio sem saber se me pedem coisas com gestos ou se falam em português mesmo.
Dia desses estava eu terminando meu cigarro e apareceu um menino desses. Eu não o havia visto antes que ele me pedisse o cigarro. De fato, mesmo no momento não o vi direito -- estava perdido em pensamentos longíquos e muito meus. Dei o resto do meu cigarro a ele, e só então ví que acabara de dar um cigarro a um menino de não mais de 8 anos. Fiquei paralizado por um segundo, com a mão ainda em pinça segurando o ar que antes era o cigarro que o menino já terminava de tragar, só uma bituca mesmo, e jogava no chão. Não sabia se tinha feito certo ou errado, nem sabia o que ele faria se eu recusasse. Talvez não fizesse nada. Talvez não fizesse diferença. Mas mesmo assim fiquei um bocado confuso. Eu acabara de dar meu cigarro para uma criança de 8 anos... porquê instintivamente temia negá-lo. Me sentí estupido, mas balancei a cabeça e fui embora. Ele certamente não estava interessado em saber no que eu estava pensando também...
Abraços do Verde.
Roberta,
Pra algumas pessoas é exatamente esta a foto do moleque. Agumas até acham que ele é levemente parecido com o seu poodle, só que...mais magrinho.
Abs,
Bom amigo Verde,
Emoção pura este teu comentário. O teu dilema deveria ser o de todos nós. Imagina! Um menino de oito anos ter que sair pedindo coisas, qualquer coisa, até cigarros. Absurdo mesmo a gente permitir que as coisas sejam assim.
Sejamos sempre assim, verdes.
Abs
É mesmo um absurdo, meu amigo Spirito. E é desconcertante também. A sensação de que algo muito errado -- muito mesmo -- está acontecendo, e acontecendo o tempo todo, e parece ser tão grande que está fora do alcance de todos nós remediar...
Fora do alcance? Não terá remédio?!
Tem sim. Mas não é fácil. Primeiro há de se abandonar o desconcerto, pois a realidade é dura mas é o que é, e tem sua beleza. Depois, é hora de tentar se concertar a outros que também buscam esta beleza, e a justiça, o direito de viver bem, para cada um. Mas estas são palavras bonitas apenas, quase uma desconversa. No fim muitos de nós querem fazer alguma coisa, e sabem que a solução está na união -- na ação concertada após o desconcerto da realidade -- mas ainda assim se vêem perdidos sobre o quê, específicamente, há de se fazer. Certamente não é dar a eles bitucas de cigarros, ou prendê-los.... mas o quê fazer por todos eles, e para que eles parem de se tornar cada vez mais?
Não sei.
Mas vale a pergunta.
Abraços do Verde.
Verde,
Tem uma coisa mais desconcertante ainda, que eu penso, penso e não entendo: Fiz uma conta da média de meninos de rua que perambulam pelo Rio de janeiro (capital) e não deu nem 100 meninos. Com um salário de um deputado destes você acaba com os meninos de rua da Cidade maravilhosa inteira! A grana que virá, só com a revigoração do turismo, será 100 vezez maior. É ridículo. Deixa pra lá...é melhor nem pensar.
Abs,
Peraí! Agora estou desconcertado mesmo!
Você tem certeza deste número? São 100 na cidade inteira? Pareciam-me ser tantos mais! Me permite perguntar-lhe as bases para estes cálculos?
E partindo, claro, da premissa que você tem razão (e espero que tenha! seria uma notícia tranquilizante), o problema parece ser tão mais fácil de resolver, e tão mais chocante por não ser resolvido...
Me confirma estes número, por favor?
Abraços do Verde.
Spirito, grande cronista do triste dia-a-dia.
Que Deus conserve essa sua fina sensibilidade para escrever as agruras do nosso tempo.
Um forte abraço!!!
Valeu , Marcio!
Abs,
Verde,
A constatação é fácil de ser feita. Não sei o número exato, mas, por mais que eu tenha exagerado, não são mesmos tantos quanto parece. Eles se amontoam entre a Lapa, o Flamengo, Copacabana e Leblon. São nômades, como tribos que circulam. Poucas tribos, talvez duas ou três. Se você pegar um carro e sair por estes pontos vai encontrar todos eles e poder contá-los. De noite é mais difícil porque tem os 'adultos de rua' e tudo se confunde.
A questão é que o problema da infância no Brasil explodiu. Tem meninos vendedores ambulantes (com os pais por perto), tem meninos 'malabaristas' (tem família e vão para suas casas ao fim do dia). Tem meninos bandidos, traficantes (este é o maior grupo), e todos estes 'contingentes' são considerados 'meninos de rua' que são, tecnicamente, uma parte mínima do todo. São destes, os meninos de rua reais, que eu falei no post. Bem entendido.
Mas o pior eu não te falei: Devem existir, tanto ou mais 'educadores de rua ('educadores sociais', trabalhando para Ongs que se dedicam a meninos de rua) do que 'meninos de rua' propriamente. Cada sujeito destes (muitos universitários até), ganha entre 480,00 a 600, 00 reais, no barato. Uma loucura, meu caro Verde! Se for somar o custo da brincadeira, dá de novo pra resolver o problema dez vezes. Uma loucura. Uma loucura.
Bem faz a conta aí, vai! Sou mal de conta. Sou bom de contar história. Só.
Abs,
Olá Spirito Santo,
O teu trabalho com as crianças é muito importante. Inclusive isso reflete muito no teu jeito alegre de redigir teus textos tão bacanas. A foto do cachorro também é um barato, eu adorei o teu trabalho.
Um abraço.
Carlos Magno.
Valeu, Carlos,
Sempre prestigiando. Obrigado!
Abs
Spirito, tô em viagem, numa folguinha corri a um cyber apenas para atualizar os email, vi seu recado, corri aqui e comentarei na hora que voltar semana que vem. Um abraço, amigo.
jjLeandro · Araguaína, TO 30/5/2007 19:51
Valeu, jj!
Que seja boa e proveitosa a viagem.
Abs
Levando em conta a confiança que eu tenho na veracidade de suas informações, Spirito, espero então que em breve as pessoas "do dinheiro" saquem isso, e procurem aqueles que entendem e podem ajudar a resolver a questão -- gente como você.
Abraços do Verde.
...E como você também, meu caro Verde. E tantos daqui mesmo do Overmundo.
Abs
Fico muito honrado em ser incluído neste time por você, meu caro Spirito!
Um grande abraço do Verde... e VAMOQUEVAMO! :D
Spirito, não estou acreditando que encontrei esse seu conto aqui. Assim sem mais nem menos. Com essa foto, então. Todos os textos - que trabalhei com meus alunos pra lhes chamar atenção pro fato de que o avanço do ECA (em relação ao antigo código de menores de 1979) estava indo pelo ralo - não valem juntos o que o seu conto diz com tanta sensibilidade. O que vc conta é ficção ou vc "trabalha com meninos, muitos, todos os dias"? Estou de boca aberta. Vou tentar imprimir seu texto.
Um grande abraço, com o respeito e a admiração que eu já tinha por vc elevado à potência 1000
Ize,
O conto é totalmente fictício, mas o contexto é inteiramente real. Trabalho realmente com meninos, todos os dias. Como você talvez saiba, eu sou músico mas, desde que voltei da Europa, passei a me dedicar, inteiramente, à arte-educação. Trabalhei (e aprendi muito) com o Darcy Ribeiro e a Cecília Conde (uma musicóloga emblemática para a cultura brasileira). Não sei quanto tempo você tem de Uerj ,mas, o projeto que criei e dirijo (que se chama 'Musikfabrik'), foi, durante quase 10 anos um importante projeto de extensão da Uerj na área da inclusão social de jovens. Lá formei inúmeros adolescentes como músico-educadores que hoje, pós adolescentes já, estão espalhados por aí, dando aulas em outras Ongs.
Trabalho também com meninos mesmo, na faixa dos 8 aos 12 anos, Boladinhos da Silva, daquelas favelas ali da Grajaú-Jacarépaguá. As mãos das fotos das Cama de gatos, são deles.
É verdade, pois, trabalho há 15 anos, com meninos, muitos meninos, todos os dias e, a maior parte do tempo, penso que sou menino também.
Abs,
Lendo esse conto e seus comentários, vejo que o Sr. é mesmo uma boa alma. Boa sorte em sua jornada, Spirito Santo! Gosto muito dos seus textos e por isso faço questão de dar uma espiadinha sempre que possível.
Um abraço,
Georges
Valeu George,
Boa gente também você, por esta gentileza tão aberta e franca.
Grande abraço
Parece até brincadeira, mas, diante das agruras de 'Boladinho', um ser humano normal, é coisa de ser humano normal isto?
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