BOLINHA DE SABÃO
Pegou suas tralhas e foi para seu cantinho predileto, lá no fundo do quintal. Exatamente debaixo de um pé de goiaba. Sentou-se de qualquer jeito e abriu a velha caixa de papelão, toda desmantelada. Dentro: o seu tesouro: bolinhas de gude, papel de seda para fazer pipas, varinhas de todo tamanho, cola, estilingue, carrinho faltando roda, jogo incompleto de dominó, penas de passarinho perdido, canequinha para desmanchar sabão e água para as bolinhas de sabão, que adorava ver rebentarem no ar, lápis de cor, caderno usado, gibis faltando folhas,tocha de balão apagada, folhas amareladas caídas das árvores: enfim, essa era a sua “riqueza”! E, com ela se distraia de montão: ficava ali horas, num mundinho só seu, virando e revirando as coisas, sempre atrás de alguma idéia.
Era já tarde, quando sua mãe chamou “e então, Pedrinho, não vai tomar banho, para ir jantar, não?” “Já tô indo mãe; estou curtindo minha vida; já vou!” No alto de seus seis anos, até parece que sabia o que estava dizendo ”Ah! ta bom!”, conformou-se a mãe...
Entrou, tomou banho, jantou e antes de dormir rezou muito para o Menino Jesus, para crescer bem depressa: queria curtir ainda mais, sua pequena vida!
E assim foi: Colégio, Faculdade, o primeiro emprego, a primeira namorada. Não tinha tempo mais para curtir sua vida, mas, sempre lembrava com saudade das amenas tardes passadas no quintal de sua infância.
Casou, teve filhos, conseguiu um bom emprego e a vida passou a ser somente uma série de compromissos, quer familiares, quer de trabalho. Curtir a vida, não mais...
Morava num belo apartamento, mas, gostava de ir à casinha de sua mãe, vez ou outra, e, dava ràpidamente uma passada no quintal, agora transformado em horta cheia de verduras. Não era mais o menino sonhador, era o sisudo Dr. Pedro, respeitado por onde passasse.
Estavam conversando: dona Cotinha, Pedro, Mariana, sua esposa e Sérgio o filho mais velho, quando deram por falta de Marquinhos, o caçula. Onde se enfiou esse menino, agora? Procura que procura foram encontrá-lo revirando uma velha caixa de papelão, cheias de bugigangas, encontrada no porão. “Que susto, menino, que é isso?” “Sei não, pai, mas, posso ficar com ela?” Tem tanta coisa legal aqui dentro...Daria bem, p/ eu curtir minha vida!” Pedro sorriu e concordou. Em seu íntimo, porém, começou também a pensar que já era hora de aproveitar um pouco mais a própria vida : Mariana ainda tão jovem, porque não arranjar um tempinho para ser aquele menino de outrora, outra vez ? O menino que sempre estivera dentro dele. Ansiou pelos momentos despreocupados e tranqüilos da infância, onde não fazia nada, apenas vivia sua vidinha livre de criança...De repente despertou aquela criança que estava adormecida dentro dele,e, se dispôs a procurar o caminho da felicidade, através desse menino interior, que sabia, habitava algum lugar do seu coração...Sentiu, enfim, que todos poderiam ser muito felizes, outra vez !!!
Dedico essa historinha, em sua primeira parte, ao meu Lando, que, em sua longínqua infância, foi também um menino-passarinho, aproveitando sua vidinha de criança, no quintal dos pais, no Interior de São Paulo. Já nâo está mais conosco, mas, por certo, deixou muita recordação e saudade. A ele, onde estiver, o meu carinho.Lange.
texto maravilhoso,votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 27/8/2008 12:14
Languinha,
que maravilhoso este texto!
menina ou menino,
sempre o temos num cantinho de nós
ansiando por novos sonhos,
e pelo caminho da felicidade.
bjssss e carinho
Muito obrigada, Doroni: o jeito é nunca perder a esperança...Adoro, também as coisas que escreve, seu estilo é muito bonito e comovente...Bjs Solange (Langinha)
Langinha · São Paulo, SP 27/8/2008 13:04Agradeço a todos que, modo tão gentil têm me prestigiado com seu voto. Muitos abraços a todos. Langinha...
Langinha · São Paulo, SP 27/8/2008 21:03
Adorei o texto,estou um pouco corrida hoje.tempo demasiadamente curto.
Um grande abraço.
PUBLICADO.
Obrigada a todos...Estou muito contente com a publicação do m/ texto, que fiz com tanto carinho...Beijos a todos...Langinha..
Langinha · São Paulo, SP 28/8/2008 08:21
Langinha,
desculpa ter vindo só agora, mas assim como a Clara, meu tempo ta arretado. rss
Muito emocionante amada, no miozinho do seu tesouso um sereninho de lágrimas quis teimar em sair. O tempo ñ perdoa, né?
Amei por demais, valeu mto!
Obrigada, Anderson : adorei seu gentil comentário,e, foi assim mesmo, como vc disse...Um gde. abraço... Langinha. Até breve...
Langinha · São Paulo, SP 28/8/2008 15:31Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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