‘Nunca mais li Borges. Pior, nunca mais falei de Borges’. Parece banal, mas nem precisa me conhecer tão bem assim para saber o sentido dessa simples constatação. É como se um viciado acordasse certa manhã e o assaltasse o pensamento ‘nunca mais fumei’. Para ser mais exato, o meu caso é ainda mais grave, pois todo ex-fumante, por mais tempo que tenha deixado o vício, está sempre retornando ao cigarro em forma de histórias. Não conheço um ex-fumante que se canse de narrar cada passo, e as vantagens do método infalível que usou para derrotar o terrível inimigo. E eu, eu nunca mais falei de Borges.
Da mesma forma que lembro do primeiro cigarro, lembro do primeiro Borges que me caiu diante dos olhos. Nem era um livro de sua autoria. O encontrei dentro de um livro de Introdução à Filosofia que dormia na estante do meu pai. O poema ‘Xadrez.’ O efeito foi o mesmo do cigarro: deu o primeiro trago, está perdido. Na fase mais aguda, cheguei a 4 maços diários. Também não podia vencer uma jornada sem a companhia de Borges. Como certas figuras da sua literatura, ele se tornara uma obsessão. Assim como o fumante que não freqüenta lugares onde o cigarro é proibido, era desconfortável estar onde o assunto não era Borges. Eu, que nunca fui sócio de clube algum, confesso que cheguei a me matricular numa comunidade borgiana no Orkut. Num dos seus ensaios, Borges escreve que, ao ler Walt Whitman pela primeira vez, lhe ocorreu que todos os poetas que vieram antes do poeta norte-americano, foram apenas para justificá-lo. Por muito tempo alimentei essa idéia de que Borges, por si só, justificava a literatura latino-americana.
Nada me afastava de Borges. Certa vez, li que ele era racista. Pensei: ‘só quem não leu ‘O Incrível Impostor Tom Castro’, poderia escrever algo assim’. Nem mesmo uma ligeira febre socialista que contraí certa época, me curou de Borges. Ouvia dizer que Borges era de direita; que Borges era mais inglês que latino; que Borges era argentino. O mesmo que dizer para um autêntico viciado que o cigarro mata. Perda de tempo. Já tive o vício Shakespeare - o dos sonetos -, o vício João Cabral, o vício Whitman, mas nada se compara à fixação borgiana. Era como se ele fosse a minha marca de cigarro favorita.
Anos atrás, num final de semana em Ubatuba, esqueci um Borges na praia. Voltei correndo como se fosse um fumante que esquecera o último maço de cigarros. Em vão. Certamente havia um outro viciado por perto, pois fiquei o restante do fim-de-semana sem ‘O Informe de Brodie’, sem leitura, sem Borges. A não ser em casos extremos, viciado que se preza não substitui a sua marca por outra. Por isso, o meu susto esta manhã. Só não fiquei triste porque fui salvo por um outro pensamento: ‘Se estou curado de Borges, talvez consiga, mais uma vez, me livrar do cigarro’. Com a palavra, o tempo.
Como fã de Borges, eu não poderia deixar de aplaudir o texto:
clap, clap, clap...
Que delícia de texto, Silvino! Embora há tempos não leia Borges, como um fumante passivo, ainda respiro a sua fumaça vinda de fumantesleitores como tu que me dá o prazer que me "intoxicar" com baforadas borgianas de quando em vez! Um abraço bifurcado,
Dico da Fonseca · Porto Alegre, RS 2/7/2007 21:22
eu nunca fumei, nem li borges.
por onde começo?
Eu diria: nunca fume, você só tem a perder.
E quanto a Borges: você não sabe o que está perdendo.
Muito obrigado pela mensagem.
grande abraço
Briza Mulatinho, o Cassius é amigo meu e deu uma resposta que eu não conseguiria. Assino embaixo.
Aquele abraço!
pois é esse o problema.
eu sei o que tô perdendo.
ou, ao menos, imagino...
por isso, queria dicar de por onde começar.
Briza Mulatinho, eu começaria por 'O Livro de Areia', se você curte
contos; O Fazedor, se curte poesia; Discussão, se ensaio.
Mas qualquer Borges é genial.
Muito bom, Silvino! Como viciada em cigarros (mas não em Borges), entendo perfeitamente a analogia.
Briza, um dos contos do Borges - Pierre Menard, autor de Quixote - fala de um escritor que queria escrever Dom Quixote: “Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Inútil acrescer que nunca visionou qualquer transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. Sua admirável ambição era produzir páginas que coincidissem – palavra por palavra e linha por linha – com as de Miguel de Cervantes.” Pra você ver o top do cara! Procure um Borges e leia. E boa viagem!
olá... eís um texto que vicia, vc faz isso com uma maestria, uma quadrilha nordestina( conheces não?)... intercalando e refazendo o pensar, ousaria dizer uma musicalidade nas palavras. Curar-se? quando termina um ,decerto começa outro vício ... rs e entra-se em universos espiralados do cigarro ... mas o ministério da saúde adverte e coisa e tal. Escreve, não lí Borges (ainda) decerto o farei com mais desejo, afinal entre viciar e curar há uma grande saga.. Obrigado pela passagem. Abraços
Sou sim, nordestino Ana! Nordestino nascido na Bahia e criado em Pernambuco. Ou seja: em dose dupla. Sempre me dei o direito a algum vício, é verdade! Vicie-se e delicie-se com Borges.
um grande abraço e um muito obrigado pelo comentário!
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