A pelÃcula é em preto e preto, a natureza é morta, o ambiente é determinÃstico. Assim, segue o enterro...
_ Ôoxi!!
A espantosa expressão ecoa pelos becos, ruelas e avenidas do subúrbio ferroviário, verberando nos pequenos ouvidos de Brasilino:
_ Anda minino! Peste miserável, tu é uma disgraça no meu caminho! Anda lerdeza. Só faz entulhar! Você é inútil igualzinho ao seu pai que vive de biscati e ganha uma merreca por mês que não vale as cueca furada que veste. Se não fosse tu, peste, eu já não tava mais aqui, tava pros lados do Sul, lá sim, eu ia ter casa boa, comida e roupa nova, não esse mulambo véio e furado, num sei pra quê que você veio ao mundo. Ô vida miserável!
_ Anda peste que eu quero chegar logo em casa pra assistir minha novela. Meu deus, tomei tanto remédio, tanto chá de folha de café e mastruz e esse estrupÃcio ainda veio ao mundo pra atazanar minha vida, bem que Sinhá Belinda falou pra eu ir num médico de fundo de quintal- o matadô de anjo- Seria bem mais fácil e hoje não estava nessa situação preta.
_ Óia só, ainda fica chorando!! Calaboca peste! Você é homem ou barbuleta? Na minha famÃlia não dá disso não. Calaboca matraca, chibunguinho, vamo logo que eu quero chegar em casa que a minha novela vai começar...
É um casebre azul, um azul cheio de nuanças: Celeste, piscina, turquesa...
A janela é envernizada com verniz casca de barata, simples e monótono, combinando perfeitamente com a tarde de meio de semana em rua secundária vazia com sol a pino. A porta de madeira tem uma janelinha no meio com ferrolhos que fazem um rangido redundante quando abertos, uma fileira morta de cupins trilha a madeira de ponta a ponta, a laje é batida, cheia de rachaduras vedadas com betume, nas cordas de náilon coloridas esvoaçam cobertores furados, saias e calçolas a mercê dos ventos que sopram quente e úmido, presas por pegadores de madeira, uma ao lado da outra, descortinando, de quando em vez, a fachada azul degradê.
A divisão da casa é incomoda: A sala tem paredes amarelas, pintadas com tinta de saco, o chão é de cimento vermelho, muito bem encerado por sinal e é recoberto com jornais “A Tarde†velhos para proteger dos sapatos sujos. No centro da saleta, uma mesa redonda de madeira aglomerada reúne-se com três cadeiras de palhinha, a quarta está quebrada no quintal dando repouso à bacia cheia de roupas que está de molho na Qboa. Na parede um relógio mad in Taiwan, a peça dá efeito ao recinto e harmoniza-se com a tela da Santa Ceia e o calendário da Paratodos. Ao fundo uma estante de metal cor vinho exibe gansos, patos de porcelana, copos de chope decorados e um Buda cercado de moedinhas de um centavo, a escultura foi propositadamente colocada de costas para a rua, pois nesta posição trás sorte e fortuna.
Do sofá, Creonildes assiste a reprise da novela na sua velha televisão, cuja imagem já perdeu parte do brilho e colorido. Ali é o seu local sagrado, ninguém pode incomodá-la tampouco chamar a sua atenção. Ela sonha com os personagens, sofre, torce, ama, odeia. A vida nunca lhe pareceu tão interessante e intensa, a jovem até consegue esboçar algum sorriso de quando em vez.
E assim, entre clichês, sonhos, pesadelos, mocinhos, bandidos e finais felizes, a suburbana realiza-se no seu pequenino espaço, insinuando para a vida que só consegue alcançar a felicidade (mesmo que tênue) quem se fecha para o mundo, seja num feudo real e suntuoso, seja numa boceta de pandora chamada televisão.
A pelÃcula é em preto e preto, a natureza é morta, o ambiente é determinÃstico. Assim, segue o enterro...
Independente de estar ou nao,sempre faço um passeio pelas filas e voto nos que gosto
Abrindo seus votos pra esse texto tao bom
http://www.overmundo.com.br/banco/entre-presencas-e-ausencias
Sabe Ailuj, sinceramente, nem sei se o acho bom ou ruim. Estou experimentando, provando, degustando, trazendo a linguagem das ruas para a net, falando de gente que, muitas vezes, nem imagina que exista um mundo novo tão notável. E o Overmundo é um ótimo laboratório.
Obrigado. Você fechou o outro texto e abriu este. Isso é destino (rs).
jair textos como o seu nos transporta.Achei maravilhoso.Meus votos e meu carinho.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2008 17:52
BELO TEXTO. VOTADO ..
http://www.overmundo.com.br/banco/matando-saudades
estou em votação
Visite-nos.
Obrigado, Clara. Daqui do meio da floresta amazonica, fico feliz e agradeço o seu voto.
jair · Manaus, AM 5/4/2008 00:42
Caro Elio, estou buscando caminhos para a minha pseudo arte e esse texto surpreendeu-me.
Valeu!!!!!
Adorei, Boa sorte¹
Tb estou sendo votado. Se gostares, ficarei feliz com seu voto. Abraço.
http://www.overmundo.com.br/banco/procura-se-dona-cora-uma-doce-bandida
adorei, parabéns pelo seu trabalho
Flávio Cardoso Reis · Luziânia, GO 5/4/2008 11:54
Jair,
De fato, você sabe escrever
e trás um mundo de detalhes
para o overmundo.
Gostei de ler.
meio da floresta amazônica ?
bjssssssss
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