Lauro Winck
Depois da história da aposta que ganhamos eu e o Olímpio por termos tido a coragem de trazer uma caveira do cemitério em troca de uma caixa de cerveja, nossa fama despertou curiosidade e casos surgiram de casas mal assombradas. Como valentes caçadores de fantasmas, propusemo-nos a desvendar tais mistérios. Eu muito sedo perdi o medo graças a minha mãe que me pegava pelo braço e me jogava em cima do fantasma que não passava de um pano branco esquecido sobre a cerca de Maricás. Ou que as batidas na escada eram do cachorro coçando as pulgas ou abanando o rabo. Depois ao longo da vida e por ter passado por casos diversos, convenci-me de que não existem fantasmas. Existem alguns fenômenos inexplicáveis, cujo medo nos leva a ver fantasmas. Havia uma casa à margem da estrada, tida como assombrada. Ouviam-se arrastar de correntes, gemidos e outros barulhos estranhos. Resolvemos então verificar pessoalmente e tentar um contato com tais fantasmas. Havia gente que afirmava ter visto hora um homem, hora uma mulher de branco parada à porta de entrada já em ruínas.
A casa era uma construção em estilo colonial, com restos do que deveria ter sido uma tinta verde, manchada por musgos e rachados pelas paredes meio incompletas. Preparamos nossas mochilas de pescaria, lanternas de mão e claro que o Olímpio embrulhou umas velas para acender aos fantasmas, só por segurança é claro. Jantamos e saímos para a empreitada, obviamente sexta feira e coincidentemente de lua cheia. Depois de examinarmos o local minuciosamente preparamos nossas camas, no chão mesmo e ficamos contando histórias e creio que pegamos no sono lá pelas 23,00 h. Claro que ouviam-se estalos, barulhos de ratos ou gambás típicos do local. Nada que assustasse. Acordamos com o tal barulho de correntes, verdadeiro, claro e nítido. Lanterna em punho nos levantamos e começamos a vasculhar o local tentando aproximarmo-nos do barulho, mas, a medida que andávamos, parecia que se afastava. –Quem está aí? Arrisquei. Nada, só o barulho. Começou a ventar e uns galhos roçavam em uma calha fazendo parecer que alguma coisa se arrastava. E o vento produzia realmente um barulho semelhante a gemidos. Fora isso, fizemos tentativas de contato, indagando e até caçoando. – Puxa seu fantasma dá uma colher! Vamos conversar se puder a gente ajuda! Nada! Acordamos na manhã seguinte e fizemos uma análise minuciosa do local tentando desvendar o arrastão das correntes. Não descobrimos nada. Não vimos ninguém e chegamos a conclusão de que fora as correntes, o resto era explicável.
Trabalhávamos na cooperativa e nesta época estudávamos a noite no colégio das freiras. Voltávamos a pé, pois não havia ônibus esta hora, cerca de 23,00 h. Era quinta feira e vínhamos andando mal vendo a estrada de chão batido que apenas vislumbrávamos por uma tonalidade ligeiramente mais clara em contraste com a noite escura. Uma longa curva para a direita, na época conhecida como a curva dos Borges, ostentava uma plantação de Eucaliptos, altas árvores a muito passadas da época de corte. Repentinamente à uns 80m do inicio da curva, começo a ver uma igreja, com torres laterais, a nave central e uma grande porta de entrada. Pensei “E de onde saiu isso? Nunca teve uma igreja aqui!” – Você está vendo o que eu estou vendo? Perguntou Olimpio com uma voz quase inaudível. -Estou! Respondi. – E agora? – Vamos em frente sem olhar. Colocamos os livros sobre o ombro, tapando a estranha visão e seguimos caminho, evidentemente arrepiados. Dia seguinte, sexta feira, mesma hora eu vinha sozinho, o Olímpio faltara a aula e eu me perguntava se seria por medo da visão. Mais ou menos a mesma distância começo a ver novamente a bendita igreja, só faltava o padre a porta esperando os fiéis. Parei! Analisando a situação. Bem, teria de enfrentar o problema e decidi encarar, respirei fundo e avancei desta vez decidido a solucionar o mistério. Ao aproximar-me, a igreja parecia mais real e eu me arrepiava todo, mas, tinha que passar por ali. Quando estava quase em frente, um ponto de luz ao lado esquerdo entre as árvores, logo mais um e mais outro, então vislumbrei uma lâmpada fluorescente acima de uma janela da casinha branca entre as árvores. Olhei agora a igreja e aliviado via o reflexo da luz branca refletindo-se no outro lado sobre as folhas dos Eucaliptos. Fim do mistério. De nossas aventuras em contato com fantasmas a mais interessante veio depois, quando estávamos acampados no rancho de meu avô numa pescaria às margens do jacuí. Havíamos pescado exatos 5 pintados de tamanho razoável e demos três a uma família do pescador vizinho dali e resolvemos fazer os outros dois ao molho de vinho para a janta também regado a vinho. Tínhamos um garrafão. Era outono e já fazia algum frio. Jantamos os pintados com arroz branco e ficamos até tarde bebericando o vinho e contando histórias ou lembrando aventuras passadas. Finalmente dormimos e lá pelas 3h da manhã, acordo e vejo o Olímpio sentado na tarimba, todo arrepiado! – O que foi? Perguntei. –Tem um cara todo de branco sentado no tronco ali abaixo. – Onde? Eu não via nada, mas ele insistia, – Está ali veja! – Ok! Vamos conferir. Andamos descendo devagar a barranca e para mim havia apenas o tronco sobre a areia. – Não estou vendo nada! Agora o Olímpio ficou mais branco e seus cabelos arrepiados pareciam querer abandoná-lo. – O cara desapareceu! Falou assustado. Fomos até o local com a lanterna de mão e não havia qualquer vestígio ou marca na areia. Ficamos acordados um bom tempo e finalmente resolvemos dormir, pois não aconteceu mais nada. No dia seguinte comentei com minha mãe e lhe contei o ocorrido. – Tio Osvaldo! Falou ela. - Ele vestia-se sempre de branco. Tio Osvaldo estava com tuberculose e fora desenganado pelos médicos. Largou tudo e isolou-se da família. Mudou-se pra beira do rio ali onde vocês acamparam. Passou dois anos comendo folha de pau, peixe cru e consumia muito bálsamo alemão que um amigo levava pra ele. Dois anos depois voltou e foi dado como curado. Então mais tarde morreu esfaqueado em uma briga. Dizem que aparece por ali, às vezes tocando violão. Fiquei pensando, que talvez o Olímpio tivesse mesmo visto um fantasma, pois ele não sabia e nem eu, da história que minha mãe nos contou. Voltamos outras vezes ao local e nunca mais voltou a acontecer.
Muitas das manifestações ditas sobrenatuarais, acabam mostrando-se apenas naturalíssimas, mas algumas permanecem envoltas em mistério.
adorei o texto.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 10/8/2009 10:43
É verdade Lauro.
Muitas coisas tem explicações e outras não.
Creio que não convém mexer com o sobrenatural.
Assistiu " O CHAMADO" ? Incrivel!
bjs
LAURO WINCK · Rio Pardo (RS)
CAÇANDO FANTASMAS
Um texto impressionante, tem de ter peito para encarar.
temos de admirar quem tenta ir lá e entender.
Realmente os arrepios são no corpo todo se destacando nos braços que são as antenas nestas horas.
Gostei doa explicação da imagem da Igreja verdadeira projeção.
Ficou muito bacana a História.
Parabéns.
Abração Amigo.
Adorei a narrativa, Lauro. A da Igreja, que era projeção, é coisa comum, para pegar os incáutos; mas a outra... Jesus!!!
Pois eu acredito em fantasmas; já tive experiência nisso... no princípio
eu tinha muito medo, depois passou, até conversei com ele[a]
telepáticamente... deixei pra tremer depois...
Votado
Beijos
Voce é um contista de mão cheia e suas narações são sempre eloquentes e diretas, gostei de novo.
k.
Adorei esse conto de misterios!!!
uma historia empolgante...
lutamos pela cura e morremos de outros meios...rsrsrs
ok. uma oraçao h oje pelas almas inconformadas. Isso exissssste!!!
valeu!
bjssssssssssss e cruzemcredo!
Meu caríssimo Lauro, arrepiou. Tenho provas que existe vida além da morte. Além disso, tenho muita sensibilidade extra sensorial que já me botou em muitos apuros. Encaro, com muito medo mas acredito que exista muita coisa inexplicável.
Morrendo de medo V O T E I !!!
Legal. Muito gostoso seu jeitinho e contar histórias e seu lado fotografo, detetive... da um sabor mágico ao conto. Adorei amigo.
Bjs da amiga, Mirtes Carvalho
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