Arrumar as malas. Quantas gostaria de levar? Quantas de fato levaria?
Meteria ali no compartimento para meias a cafeteira italiana. E só.
Arrastaria uma grande mala com rodinhas pelo saguão do aeroporto com vazios balançando no interior. Da mala. Dela.
Não se carrega nada quando se quer ser outra pessoa. A cafeteira é uma exceção. Resumo da sua vida. Café e cigarro. Disto ela não abriria mão.
Chegaria ao Butão com seu nome (isto se arrasta pela vida toda), o dinheiro possível e a mala de rodinhas.
Fecharia a casa, entregaria o gato ao vizinho e adeus.
Um discurso de despedida no meio do bar:
“Amigos, faz tempo que não sei o que faço com vocês. Bebo, converso, ouço. Ouço muito. Falo sem parar, é verdade. Vocês devem ter razão. Mas eu quero dizer, antes de partir, que quem fala não sou eu. É um mecanismo autônomo do meu cérebro. A minha boca diz o que essa engenhoca fabrica. Não digo. Eu mesma não digo. Nem sei o que diria, porque estou há muito tempo ausente de mim.”
E no Butão ela dirá. Sim. Haverá de calar a engenhoca cerebral. Quando abrir a boca, sairá dali um maracanã de verdades. Todas.
“A concha é fechada. Não tente abri-la.”
“O chão pode ser de asfalto ou de terra batida; melhor se fosse de pele.”
“A manhã é sempre violenta com seu clarão, mesmo que esteja coberta de nuvens.”
“Os dedos do pé devem ser usados. Ande em ponta.”
“Coração. O coração é o fundo do mar.”
O seu pequeno maracanã.