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Calor da Hora - parte 1

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Bruna Célia · Goiânia, GO
2/9/2007 · 40 · 0
 

Sempre que encontrava com Janaína apertava os olhos, abria e fechava, só para ter certeza de que não era um sonho. Era linda e nada se comparava à sua beleza. Olhos negros, tão negros que eram mais escuros que as jaboticabas da fazenda. De longe, seu corpo era igual a um violão. Tronco na medida certa e pernas enormes, perfeitas. Uma cintura de dar pena às outras mulheres.
O que mais me chamava atenção era seu sorriso gigante que não saía de seu rosto. E que rosto. Olhos, nariz, bochechas... Tudo em perfeita sintonia e me fazendo lembrar da proporção áurea de Da Vinci. Simetricamente pensado, os criadores de Janaína foram excelentes em seu trabalho.
Naquela manhã eu não estava sonhando. Era ela que chegava no banco onde eu trabalhava.Falar do banco não seria uma boa idéia agora que você, leitor, deve estar imaginando como foi meu encontro com Janaína. Então pularei essa parte e continuarei com o encontro. Na verdade não foi bem um encontro. Eu era caixa, e ficava no último balcão. Haviam quinze destes, o que me deixavam distante da entrada. E Janaína não veio falar comigo. Ela nunca vinha. Ficava sentada na área vip, esperando o gerente Wilson atendê-la. Tenho certeza de que poderia ajudá-la, mas ela nunca veio pedir nada Eu queria descontar seus cheques, depositar todas as notas em suas contas. Ela deveria ter muitas contas, pois se vestia muito bem e como sou especialista em semiótica, decifrei os signos que suas peças de tecido queriam demonstrar. Muito rica. Era assim que eu a imaginava.
Wilson sempre a tratava com um sorriso estampado no rosto. E eu ficava atrás do balcão me remexendo, maluco de vontade de ir esmurrá-lo. Ele me causava mais ciúme do que qualquer mulher bonita que saia de casa com vestido curto causa a seus companheiros. Mas eu não podia fazer nada. Era ficar obsevando e chegar em casa todo feliz de tê-la visto. E eu ficava mesmo feliz. Demorava horas para dormir.
Mas aquela manhã foi um pouco diferente. Eu a observando flutuar em cima daqueles saltos altíssimos e indo em direção à area vip. Wilson veio recebê-la e depois que trocaram algumas frases o vi apontando para algo em minha direção. Não pude acreditar que seria para mim mesmo. Continuei atendendo os clientes da enorme fila que se estendia até à porta de entrada, quando de repente, ela, a musa de meus sonhos, a imagem companheira das minhas noites de estudo e insônia, chegava à minha frente.
Eu sinto que fiquei vermelho e pude sentir minhas mãos suando. A temperatura do meu corpo deve ter alcançado os quarenta graus e senti medo de ter uma convulsão. Ela me perguntou uma frase qualquer que no calor da hora não consegui entender. Pedi para que repetisse assim que percebi que não estava sonhando acordado.
A frase era simples: "Boa tarde. O Wilson me disse que você poderia me ajudar". Sem hesitar disse que sim. Enquanto isso um senhor que aguardava sua vez na fila começou a reclamar. "Calma, senhor, ela foi atendida pelo nosso gerente que a indicou para vir aqui. Ela já enfrentou uma fila", eu disse. "Fila! Até parece que esse povo da área vip pega fila", resmungou o senhor de cabelos grisalhos.
Ela continuou a falar. Queria que eu traduzisse um texto sobre economia e jornalismo e havia imaginado que Wilson poderia ajudá-la, já que ele, numa de suas conversas entre sorrisos, afirmara que estava fazendo um acordo com uma empresa no exterior e que precisava de um tradutor. Janaína havia ido no banco naquela manhã para verificar se ele tinha conseguido esse tradutor, pois também precisava de seus serviços.
E eu era o tradutor. Além de bancário eu fazia uns serviços de tradução paralelos com os do banco. Assim eu conseguia mais dinheiro e me manter não era um problema há tempos. Ela pediu meu telefone e disse que me ligaria naquele dia mesmo.

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Bruna Célia
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