"Quem iria conhecer essa imensa beleza
Quem iria conhecer um transe santo
Quem iria conhecer essa respiração milagrosa
Para inalar um confronto carregado de coragem"
(Bjork - Cocoon)
Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro. Contudo, acabei levando toda tempestade junto, e, agora, a enchente desorganizava toda lógica dos meus compartimentos, aparentemente acomodados dentro do previsÃvel.
Os desertos são assim: longos perÃodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.
Como um camaleão, na falta de vegetação, pois o verde há muito tempo desapareceu de minhas terras e a esperança já não voava mais por aqui, tentei me esconder sob as dunas de pensamentos.Engolir o tédio era torturante, mas para livrar-me dele seria preciso descascar camada por camada das idéias que sustentavam o meu falso equilÃbrio.
Sob os olhos vermelhos e escaldantes do sol que castigava o solo de meu pensar calejado, brotava a indagação, quase como uma miragem, das areias de meus ‘eus’ : o que amargava mais, os comprimidos de tédio ou o descascar dessas camadas quase sedimentadas em meu ponto de aparente equilÃbrio?
Pertinente, porém tempestuoso demais para o instante.
A essa altura o vento se impunha com mais força, desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava. Parecia trazer, também, um cântico familiar entre a poeira que carregava como um fardo - não para ele, mas para mim e os demais andarilhos desse pedaço de chão.
Fui seduzido por aquele cântico, numa espécie de hipnose. Tentava resistir, temendo o que encontraria sob aquela névoa, que mais parecia uma cortina do tempo que se desfazia e me lançava num vácuo. Era como se eu fosse adentrar um palco, esperando ver um espetáculo inusitado e, de repente, desse de cara comigo mesmo, como protagonista. As paredes eram espelhos, e eu repartido em vários. Foi quando percebi que os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam.
Seria uma revelação?
O tempo parecia furioso, me sugava como um moinho para dentro de um espaço desconhecido. Ao pisá-lo, foi tão estranho! O chão era inconsistente como um mangue. Talvez fosse a poeira misturada às minhas águas represadas.
A sensação era exatamente esta. Sabe aquela arte de colocar a farinha no caldo para fazer o pirão?Pois era assim que estava me sentindo, remexido, pisando em algo que não era nem duro nem mole, um terreno indefinÃvel em sua textura.
Seria movediço?
Do tédio do rÃgido previsÃvel, fui ao pavor daquilo que me tirava o chão, que me deixava solto no ar, sem gravidade, ou melhor, era algo gravÃssimo, e me fugia ao controle. Porém curioso, era assustador e leve, ao mesmo tempo.
Agitado, comecei a sentir um cheiro esquisito, coisa que há muito não sentia. Pensei que a aridez do deserto houvesse me roubado o olfato para os detalhes dos entornos.
Mas, milagrosamente, o apurou ainda mais. O aroma penetrava meu casco de camaleão, que começava a se transfigurar, numa espécie de metamorfose. Todavia, invés de sair do casulo, a sensação era de estar entrando nele, de volta.
Era como se o tempo – que ali cheirava a menta e canela – me tomasse pelos braços e me levasse a uma prisão. Não uma prisão qualquer, mas uma caixa mágica. Um casulo onde o aroma costurava novas asas em mim. Sentia como se tivesse nascido velho e, ali, estivesse rejuvenescendo... Não sabia ao certo o que sentir.
Dentro do casulo tudo era penumbra. Eu tateava as paredes tentando enxergar os contornos do lugar. Havia algo diferente, ali. Era como se, a cada passagem de minhas mãos sobre as paredes internas do casulo, fossem bordadas palavras mágicas que se renovavam a cada toque. Eram palavras celestes, ora cinzas, ora azuis.
E, nessa oscilação, elas se soltavam e boiavam num lÃquido viscoso, até grudarem no meu casco, já amolecido e não mais enrugado. Iam despindo, uma a uma, minhas couraças.
À medida que trocava de pele, sentia nascer um outro ser.
O amniótico lÃquido apagava digitais, que nela estavam impregnadas, e preparava virgens camadas para novas viagens. A tinta escorria levando todo entulho da minha antiga casa.
Então, eu, que chovia por dentro, começara a sentir uma delicada forma de calor...
Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.
O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rÃgido e insensÃvel. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu.
Catava sonhos nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras, que se tornavam o grande sol do meu deserto. E o amarelo ascendia entre as folhas! Eu tinha todas as paisagens por dentro, onde a poesia desabava...
Fora naquele escuro lÃquido que tudo ficara claro, e eu conseguira renascer...
Ou seria apenas mais uma reinvenção? Deixo, com as palavras, a palavra final...
(Raiblue & Jéfte Sinistro)
Em 28 de maio de 2009
Mais uma aventura BlueSinistra procês,queridos overmamigos!
Jéfte, meu lindo, adoro 'bluesinistrar' a vida contigo!
Acontece um verdadeiro milagre, quando as lÃnguas se entendem a tal ponto de parecer uma única lÃngua!
À esse encontro eu chamo de ALMA!
Obrigada, meu querido, por mais uma aventura delirantemente bluesinistra!hehe.
Beijos BlueSinistros a todos e boa viagem!!!rs
Raiblue · Salvador (BA)
Camaleônico casulo
Você parece a Clarice Lispector com seu Transe Santificado.
Tem alguma afinidade com o sideral, pois nos transporta para as reflexões e dali as viagens sem fim.
Você percorre a simplicidade das coisas, criando beleza nas expressões, e dessas qualquer coisas comuns, você as tornam em destaques, que faz exprimir, no seu renovar o mundo novo da sua Poesia.
Sempre a sua Poesia é nova e bela.
Parabéns.
Abração Amigo
Blue e Jéfte,
Mais uma bela viagem em parceria delirantemente poética. Diante desse mundo ácido, melhor seria retornar ao casco, ao casulo protetor... Habitamos um grande deserto árido, onde os desejos e sonhos parecem cada vez mais ressecados. Tentamos diariamente digerir o tédio lancinante dos momentos, engolido em comprimidos sem gosto... Já não sentimos mais os aromas que marcam as nossas almas, tudo parece aromatizado artificialmente. O menta e a canela ficaram no passado, no tempo em que éramos pequenos camaleões, treinando mudar de pele e cor... Deixemos nossas couraças para trás, em busca de novos sabores e sentidos à vida. Deixemos com que as palavras guiem nossas almas, rumo aos sonhos, nossas únicas e verdadeiras asas...
Parabéns pela bela obra em parceria ! Muito boa a participação de Lobão e Baleiro...
Bjs e abraços poéticos.
ótimo trabalho, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 31/5/2009 19:37
Gostei!
Metamorfose de eus entre sonhos e delirios.
bjs
Que dizer de um poema que começa com estes versos:
" Bebi a chuva que invadia repentinamente o meu deserto, a fim de que o comprimido do tédio descesse mais rápido goela adentro." e mais adiante..." desconstruindo e reconstruindo as dunas dos pensamentos onde eu estava "
Belo poema que trata do conflito entre a estabilidade, o tédio e a criação. Bem, foi assim que eu percebi este poema, foi por estes ares que voei com o vento e levei minhas areias.
Parabéns pela parceria!!! VotadÃssimo!
Catava sonho nos ventos, que viravam cata-ventos de palavras,
que se tornavam o grande sol do meu deserto...
Teu texto acima de tudo é também muito poético.
Prazerosamente votado
Beijos azuis...
Muitas vezes é preciso passar pelas agruras do deserto para despertar, renascer. O silêncio, a solidão, nos purificam.
Parabéns pela bela parceria.
Beijos.
Texto poético muito lindo! Mergulhou profundamente nesse universo conflitante da criação. Super votado. Um abraço grande!
Mena · Brumado, BA 31/5/2009 22:04Seu transe poético me deixa em alfa...parabéns! Bjs.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2009 00:07
Olá,Rai...mesmo o que chamas de sinistro,em ti,torna-se azul,de tão belo,de um transe tal que chega à alma...Beijos.
Cezar Ubaldo · Feira de Santana, BA 1/6/2009 00:14
BelÃssimo trabalho à dois... Não se pode confiar nas dunas, ora aqui,
ora ali... O casulo é sempre mais garantido... mas eu teria virado uma
borboleta blue e sairia voando daquele deserto, em busca de novos sonhos, novos sabores, novas aventuras...
Votado
Beijos para a dupla
Rai minha linda, a sua paixão pelo mundo poetico faz com que todos os seus Over manos e manas se sintam felizes com as suas mensagens, parabéns, votado.
Cariri em Movimento · Aurora, CE 1/6/2009 07:38Raiblue! A sua alma sensÃvel viaja pelo Cosmo! IMpossÃvel acompanhar a sua jornada! Sou passageiro das suas emoções!
raphaelreys · Montes Claros, MG 1/6/2009 09:23
Magic Blue: Sinto-me incompetente para comentar sua magnÃfica obra; limito porém, extasiado, a babar e nada mais...Que os camaleões que habitam o nosso ser encontrem o seu oasis paradisiaco. Axé!
RUI LÔBO · Brumado, BA 1/6/2009 12:09
Queridos Raibleu e Jéfte: que parceria! Linda poesia. Uma verdadeira caminhada pelos caminhos dos sentimentos. Nessa turbulencia que vivemos. Nas tempestades, calmarias, buscas...
E que viagem eu embarquei: BlueSinistra!
Amei a parceria. Parabéns para vocês.
Bjos para ambos
Patty
se continuasse.......daria um belo romance!
adorei.
bjssssssss;)
Desculpe-me pela absoluta falta de tempo...
Mas deixo aqui o voto
E espero tua visita em meu blog e aqui no over
Beijo
Essa parceria esta demais e creio que aindaestá no inÃcio
Parabéns aos dois
Bjos
Nunca và o CÉU tão sinistramente azul...
Me deliciando na mistura homogênea desse escrito das vidas que se entrelaçam num só pensamento...
...Percebo apenas que essas vidas possuem uma só alma!!!
Uma observação de duas almas singulares.
Rodolfo e o habilidoso com as palavras e com a vida: Pessoa!!!
Raiblue,
essa parceria com o Jéfte está nos brindando com belos delÃrios poéticos. Desse casulo delirante e mágico vi vindo a vida nascendo e ressurgindo... o tédio desfeito em inebriantes palavras.
Abraços.
Belo, desafiador. Fiquei pensando na referência que faz sobre o camaleão. Deva ser mesmo o fim da capacidade de sobrevivÊNCIA
abraço
andre
Blue, minha querida, o prazer é meu de estar junto de ti, assim, na alma das palavras... É, da fato, um milagre rubrazul BlueSinistrar a vida contigo ao pé das letras! rs.
A vida é sempre essa brisa no deserto... Ora sequidão, ora miragem, ora oásis a saciar a sede e trazer vida... nova vida!
Obrigado por mais este partilhar de retalhos da alma, minha querida Blue! Milhões de beijos a ti!
Booommm Diaaa menin_Azul (e bom dia menino Sinistro)...
Prendi o folego, mergulhando nessa aventura - 'Overtura' onde o surrealismo carregado de realismo, fizeram das realidades sonhos, e destes realidades, onde podemos ingerir comprimidos de tédio, beber tempestades...
Nesse mundo monocor dos tédios, onde especialmente faltam os verdes, os que qual nós somos camaleões, ficam estáticos travestidos das mesmices enquanto o fim dos fins vem qual locomotiva dos sombrios túneis vem céleres em nossas direções...
Assim, senti o sentir sentido desses sonhos (ou realidades?) das almas dessa menin_Azul, de mãos dadas simplesmente com 'ele' - o Sinistro!!!
Mas... do mesmo modo como podem ingerir pilulas de tédio, estão aprendendo (e ensinando para quantos Overs dos Mundos) que também podem ingerir capsulas da felicidade, que lhes permitirá re_ingressar no casulo de suas vidas, que filtrará todas as couraças das tristezas e coisas afins, deixando as almas remoçadas para novos reinicions no continuum de suas vidas coloridas...
Afinal - na incasualidade do casual ou 'casulal', não é atoa que essa menina é Blue e nem menos atoa o menino é cada vez mais 'Sinistro'!
Karinhos Kentinhos (e aguardando a receita de como descobrirnos os Casulos nossos de cada dia...)
ZecaFeliz - gaDs!
uiii - desculpe os 'n' errikos de meus dedos digitantes semi-analfabétikos...
ZF
Boa tarde, meus queridos overamigos!
Muito feliz com a _provação da nossa parceria BlueSinistra!!!
BlueSinistrar tem sido uma aventura e tanto!
Aprendemos muito com o outro...essa troca é mágica!
Guardado com carinho cada comentário!
Beijos sinistramente Blue!!!!rs
BLueSinistro
ei dupla...
muito bom...
ray...minha rainha.
um beijo
Camaleoa...metamorfose...
Ei Blue!
Bjinhos e sensacional. Poetando bem...com os 6 sentidos
RaÃ,
Ler o que vc. escreve é um maravilhoso exercÃcio intelectual.
Beijos
Hoje quando olhei para o céu,và ali refletida a minha imagem.Ao ler os seus escritos,senti-me meio camaleônico também.
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2009 11:41
"os andarilhos eram ‘eus’ que se procuravam." Que mais eu digo, o poema todo está aÃ, acho.De encher os olhos, de novo, menina.
Abraço, Vasqs
Sabe o que é mais impressionante?
É saber que tudo o que anseiamos é isso...
É nascer de novo em forma pré-definida...
É poder voltar, não para mudar, mas sim, para aproveitar os momentos que de tão simples, mas tão importantes, perderam-se em algum lugar da nossa mente megalomaniaca...
Como pode algo tão desigual como dois ser um?
Como pode o céu Bluesinistrar cinza a chuva?
Como pode o Azul teimar em ser sinistramente invasivo...
Invadindo todos os reconditos das nossas mentes?
Que bom que temos muitas respostas nesse achado que guardavam e com maestria dividiram conosco...
O que eu sinto?
Sinto-me um tanto quanto apreensivo sobre as mudanças camaleônicas, mas seguro no meu casulo, reservo-me ao direito de pedir-lhes que não mais escrevam sobre mim... E meu carma de filho único... Perdoem-me a ousadia...
Retrata tanto de mim...
Arff...
Bluesinistro!
"Sentia a menta de alguns beijos deliciosamente roubados e aquele aroma de uma infância emprestada, não vivida, mas que cheirava à canela do mingau da casa vizinha, nas tardes em que eu, já camaleãozinho, me escondia entre as folhas e inventava vidas coloridas, para sobreviver à cinza selva urbana.
O que eu imaginava era mais real do que o asfalto bruto. Era a minha morfina, era a alma escapando do tédio daquele corpo rÃgido e insensÃvel. A minha mente, um ciberespaço, onde eu navegava um mundo só meu. Minha tribo era eu."
Obrigado por estarem em tão densa sintonia...
Pessoa de Melo.
Eu me lembro de voce descontrolada tentando se explicar....
Os desertos são assim: longos perÃodos de calmaria e, de repente, as tempestades de areias lançadas pelos fortes ventos.
Seria uma revelação?
Ah doce blue...
A vida é movidiça. Mesmo seca....
Voltanto pra te ler e te dar os parabéns.
Um abraço
Ed,querido,que bom te rever!!!!
Sim,movediça e seca....a vida é o maior mistério!
obrigada pela presença e comentário preciso!
Bluebijokas
Pessoa,meu querido!
Saudades de ti,...
Que lindo tudo que disse...atingiu a essência...
Desperdiçamos tanto, fechados em nossos casulos...quanta vida perdemos,pensando estar preservando a nossa...
De repente, um acontecimento dispara o alarme,resta-nos torcer para ainda dar tempo de recuperarmos algo...
Por que o que parecia tão sólido,agora se mostra tão inconsistente,tão pantanoso? Bloqueio/Medos/Vazio...
Moinhos da mente que distorce os sentimentos...
Quem vencerá essa roda-gigante?
Fiquei muito feliz com teu comentário tão profundo...tão 'eu' e meus 'eus'...
Muito obrigada,meu lindo!
Saudades de tua poesia...
Bluebeijokas in your heart...
Blue
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