Na parada esperando o ônibus, comecei a cantar um samba novo. Não que a melodia, apesar de bela, fosse assim tão inovadora. Era uma melodia que encaixava, se completava e escorria solta de verso em verso. A letra, apesar de incrivelmente poética, não era aquela novidade, uma vez que o tema deveria ser amor ou exílio!
( )
breve ensaio sobre a rocha
O amor é rocha. Fixo parado, tótem. O amor tem rugas, muito, muito mais que os dois mil anos que nos ensinaram. 10.000 anos, antes, 500.000 séculos, antes de se planejar o golpe do big-bang, as rugas lá estavam nos olhos cansados do amor.
O amor segue em frente, vai além e cai depois do horizonte em sólidas imensidões.
O amor nega a vida, e a vida afirma o amor, cínica!
Quem nós então pra falar do amor, visto que nos parcos anos que vivemos avistamos somente o que nossa alma permite, (cegos) , vemos nada e falamos ainda de amor como papagaios embriagados.
A paixão se desprende do amor e perece. Morre como morrem os mortais, como morrem os que matam, como morrem os que curam, como morrem os que tentam em vão atrasar a morte, morre como tudo morre.
A paixão é lapso, susto – vida.
Invade, pisca, e crava o punhal.
E quando chega a paixão lá vamos nós homens e falamos de amor!
*
A minha música lá estava. Fosse em 1959, eu anotaria a letra em algum papel solto na minha cabeça, e repetiria a melodia incansavelmente, 20, 30, 40, 10, 20, 90 vezes até que tivesse decorado o suficiente pra enjoar e nunca mais a querer cantar novamente.
Fosse isso tudo na minha adolescência, ativaria meu gravador com aquela fitinha filhadaputamente pequeninha e cantaria timidamente olhando com espanto para os transeuntes mesmo os mais parados. Nunca mais a ouviria de novo, mas ela estaria por lá, em coma, esperando que alguma outra anotação verbal cobrisse seu manto eletromagnético, que algum arqueólogo a resgatasse, e nada entendesse.
Mas foi anteontem e meu celular tem gravador em dois cliques, e até videozinhos ele faz!
Devolvi meu telefone ao bolso e resolvi então deixar a minha composição criar vida, morrer pra sempre naquele momento. Canção efêmera como tantas e tantos lindos cantos que nunca chegarão aos ouvidos, mortos como nasce a arte. A melodia, não lembro. Era melancólica, bonita, recheada de suspiros.
A letra não lembro, era forte, impactante, tenebrosa nos seus minutos em pensamento...
..
Mas que besteira!!!
Nem me lembro direito se a canção falava de amor ou de exílio!
Perdas e exílios em ilhas de vida contra a morte. E o amor é ilusão de que o lapso que é a paixão entrou na harmonia do samba. Mas, se escapa a melodia como seria a letra? O sentimento para pra pensar e aí é colapso.
Compulsão Diária · São Paulo, SP 24/9/2008 15:45
compulsa, não é que passou o tempo pra edição e ficou mesmo lá a omissão do ser!?
ai ai ai!!!
brigado fofa!
Um sentimento assim merecia uma bela melodia .Lindo texto.Parabéns.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2008 06:26
O amor segue em frente, vai além e cai depois do horizonte em sólidas imensidões.
Publicado abraços
claudia
Ah, isso já aconteceu comigo. Já perdi uma melodia. Tadinha , ficou no limbo da memória...
abs
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