CANTARES
Nos cantares que entoam lábios em dor
por vezes o canto é maior que o falar.
A palavra que fica, pela lei reprimida,
exulta entre soluços, ao ver o canto voar.
E dos cantares que emanam das crianças famintas
soam toadas de carência de vida e acalento.
Quando brinquedos não são mais de pau e de pano
porque o pano virou farda e o pau armamento.
Pelos cantares que professam as mãos calejadas
o vermelho do sangue mancha a enxada e a mão.
O labutar de todo dia já foi gratidão e alegria...
agora angústia, revolta, miséria, prisão.
E dos cantares deste povo esquecido
o canto mais forte ainda há de se ouvir.
Na penumbra do dia o anúncio da cantiga
que este povo, em coro e em festa, vai instituir.
João Batista Tolentino Rodrigues 03-04-90
Poema escrito no viço das visões utópicas e dos sonhos de um mundo mais justo, igualitário, menos sofrido. Conservo ainda algumas utopias, apesar de as expetativas de transformações serem vistas sob outras perspectivas. Carrego a pretensão de não me afastar de minhas origens...
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