CANTIGAS ANTIGAS (relembrando minha mãe!)
"Mamãe Oxum, estrela-guia,
olha seus filhos
que choram de aflição.
Iluminai a nossa estrada,
Mãe Oxum...
estrada de luz e de perdão!"
(DP - autoria ignorada)
OBS: adotado como "cançao de
ninar" os filhos, por minha mãe.
Digo, entre sério e risonho,
respondendo a teus apêlos:
"a Vida é um belo sonho...
com 2 ou 3 pesadelos!"
"NATO" AZEVEDO
Nascido e criado num Morro carioca (até os 6 anos ou pouco mais... adiante, na juventude, eu voltaria para o mesmo local) uma das poucas lembranças boas era/é a de minha mãe cantando. Se falando Dona Apolônia -- o Maria foi "batizado" por seu marido João, meu pai, que certamente não gostava do nome de batismo da esposa -- infernizava a vida não só dos filhos como de 2 ou 3 vizinhas, as raras amigas que lhe restaram, cantando minha mãe se superava, "curava" as decepções e a irritação que causava a quase todos.
Gostava de cantar, apesar de quase tudo o que ouvíamos ter a inconfundível "raiz" da macumba, prática que nunca deixou de fora de sua vida e na qual se apoiava para continuar com força e coragem seu caminho. Mas, com uma compreensão pequena desse estranho mundo afroreligioso, só via inimigos em todos os cantos e momentos e apegava-se ferrenhamente às "cachimbadas" horrorosas (por vezes charutos fedorentos) e frequentes banhos de sal grosso e ervas diversas, além das defumações que espestiavam por inteiro o barraco de quarto-sala, ambientes "divididos" por um armário.
Dona "Maria" cantava... para afastar as mágoas, cantava para dar um basta na chuva torrencial dos muitos janeiros sob o teto de zinco forrado com plásticos e papelão, cantava para pedir forças para vencer os perigos que via em toda parte. Tinha uma oração engraçada, da qual só lembro trechos, onde mandava os inimigos... "pras ondas do Mar salgado (ou sagrado, nunca entendi bem!), pras costas do Perú Macho, onde não canta galo nem galinha!"
Mãe de um marmanjo que se meteu com os malandros do Morro e só dava dor de cabeça prá velha -- onde adquiriu o apelido de "Leiteiro" -- e de 2 gêmeos completamente diferentes entre si, dona Maria ou Apolônia mal tinha tempo para vê-los. Saía cedo, por volta das seis e meia da manhã e só voltava lá pelas onze da noite, escalando a pedreira negra por mais de 800 metros ladeira acima, numa escuridão de dar medo, tateando entre toiças de mato e paredes de granito, sem uma luzinha para iluminar o caminho, além da dos prédios que ladeavam a imensa pedreira, aos pés de Copacabana.
Nossas influências musicais na infância foram não só bastante diversas como opostas em têrmos de estilo... saindo de uma favela onde ouvíamos "atrás da parede" o som de tambores de selvagem macumba -- com o sacrifício de bodes e galinhas, todos pretos, não sei porquê! -- durante a semana, para um samba rasgado nos sábados e domingos, além de discos de fado, bolero e samba antigo o ano inteiro, enquanto a vizinha negra, dona Lurdes, e seu belo cão "Cherry" moraram no barraco do lado, parede de tábuas a dividir os cômodos.
Quando fomos para o Paraná, aos 6-7 anos, a música mudou radicalmente, até no idioma... e o polonês, em polkas e ritmos ciganos, passou a dominar, além da legítima música caipira. Isso durou quase dez anos mas, na volta pro Rio, já gostávamos de blues e rock e Woodstock não era palavra estranha em nossa vida.
Mas, se meu irmão gêmeo pouco lembra da mãe cantando era certamente porque pouco ficava em casa... passava em casa de amigos ou nas ruas de Ipanema a maior parte do dia e até da noite. Adiante, seria eu a fazer o mesmo, já em nossos últimos dias na ex-Cidade Maravilhosa. Quando comprei um violão -- tentaria ter aulas em casa com uma bela jovem "lá de baixo", a cidade propriamente dita -- minha mãe é quem mais o usava, batucando nele ou "raspando" as cordas com as mãos calosas, a relembrar a juventude numa fábrica de Minas, nos anos 30, quando participava de saraus, segundo ela.
Mamãe gostava mesmo de um "ponto" de macumba, mas curiosamente jamais reclamou de nossos rocks e blues em alto volume... se era música, não lhe importava o quê, parecia apreciar tudo. Do que me vem à lembrança, desconheço o autor/autores, mas como eu era muito pequeno (1955/57), as músicas são sem nenhuma dúvida dos anos 40 ou épocas anteriores. Agradeço, a quem me ler, qualquer informação correta sobre a origem/autoria/título de qualquer delas, para meu email ( natoazevedo@yahoo.com.br ) ou como Comentário abaixo deste singelo artigo. A seguir, descrevo as letras de 3 canções, talvez modinhas ou mesmo acalantos, que ela nos cantava madrugada afora, para nos fazer dormir, latas de leite Ninho em várias partes do minúsculo quarto aparando as goteiras do telhado enferrujado:
(... titulo ignorado)
I
A Cigarra que cantou
no verão que já passou,
no inverno não vai voltar.
Hoje, eu vivo a soluçar,
só porque ela não voltou...
e o inverno vai chegar.
I I
"Quedê" (1) a cigarra
que cantou no meu verão...
"quedê" a Cigarra
que cantou no meu luar?
Que venhas cantar,
Cigarra, meu bem...
que eu quero esquecer
a saudade
que eu tenho de alguém!
(autoria ignorada)
1) OBS.; esse "quedê" é o popular
CADÊ, usado no lugar de "onde está".
*********************************************
(...titulo ignorado)
I
Foi nas ondas do teu cabelo
que aprendi a nadar,
mas faltou-me
a luz dos teus olhos
e eu não pude navegar.
I I
Adeus, benzinho, adeus...
está na hora
da triste partida.
Dá-me um beijo,
dá-me um abraço
e a tua mão por despedida!
(autoria ignorada)
******************************************
(...titulo ignorado)
I
Minh'alma suspira
mas ninguém responde.
Tristonha, se esconde
nas ondas do mar.
Talvez não seja
somente eu que sofra...
dos males do amor
também vais chorar.
I I (*2)
Sei que, então, voltarás,
eu tenho certeza
e minha tristeza
há de ter um fim.
E, sem desdenhar
meu amor e pobreza,
você voltará,
então, para mim.
E, sem desdenhar
meu amor e pobreza,
você voltará
enfim para mim!
(...autoria ignorada)
(*2) - OBS.: sem nenhuma pressunção
a "comprositor" -- figura muito comum
na região onde (sobre)vivo -- tenho a sensação
de ser o autor da segunda estrofe desta canção.
*******************************************************
Aí estão, para deleite dos que admiram uma boa música, canções belíssimas, melodias extramamente dolentes, ACALANTOS ou modinhas de essência mineiríssima e das quais eu adoraria conhecer os legítimos autores, se alguém puder me ajudar. Meu sonho, entre tantos que já tive nestes 57 anos muito mal vividos e que sumiram na poeira dos Tempos, era gravar um disco com estas preciosidades e com outras composições de minha infância vivida entre o Paraná e Santa Catarina dos anos 60 de tantas mudanças no Brasil de Juscelino e de Jânio com sua "vassourinha" -- que iria varrer a roubalheira desse país varonil -- e no Brasil "feito por nós" da Ditadura Militar, que tinha o mesmo sacrossanto propósito.
Como diz certa música quase da mesma época... "se gritar PEGA LADRÃO, não fica um, meu irmão"! "E VAMOS EM FRENTE, que atrás vem gente..." como proclamava o apresentador dos compositores do Bloco Carnavalesco UNIDOS DA VILA RICA, no Morro onde nasci.
'NATO" AZEVEDO (escritor e poeta)
Músicas que marcaram a minha infância, nos anos 50, e que não se perderam na memória hoje quase senil. Por acaso você conhece o autor de alguma delas?!
Caro Amigo
Essas cantigas são lindas...Eu as li no seu e mail e elas são suaves, cantigas de um tempo de prueza da alma.
Parabéns Nato. Sempre Poeta!
abs.
Gosto do seu jeito de contar histórias...Belo tempo de ingenuidade e esperança..abraços, paz e poesia
touché · Guarulhos, SP 5/1/2010 22:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!