Capital sete (ou o início do fim na altura da “3”)
Por Gilbson Alencar
I
A atmosfera não era das melhores, havia cheiro de incompreensão. As estrelas, entre outros astros, trocaram o brilho pelo opaco: o céu estava negro.
Mesmo ofegante, caminhava de forma compassada aos limites da comercial da ¹203 Norte. Com um frio na espinha dorsal, parei e observei sete seres sentados à mesa do bar. Ali, conversavam enquanto alternavam copos cheios de cerveja, na subida, com recipientes vazios, ao descê-los. Impulsos nervosos e demais conexões eletro-químicas passavam por abalos. Riam-se uns dos outros, pois sabiam que eram inerentes a si mesmos. Contudo, os semblantes das criaturas sofriam alterações. Não só as feições, mas as estruturas ósseas alargavam-se e ficavam pesadas. Aos poucos se tornavam gigantes, massas brutas monumentais envolvidas em uma trama rude de agressões.
A natureza agressiva era em demasia comum ao primeiro deles, mas contagiava os outros seis. Davam-se golpes que se acertassem um mortal seriam fatais. Assim, iam-se digladiando as bestas-feras.
Concomitante à ira instaurada no ambiente, almas quase puras, que ali estavam por acidente do destino, se escondiam prevendo o pior. Muitas flutuavam descompassadas rumo à superquadra da parte baixa.
Parecia não ter fim o caos daquele déjà-vu, os quadros violentos se repetiam com velocidade intensa. Uma das bestas viu a face deslocada e compulsivamente pôs-se a chorar, não pela dor, mas pelo dano à sua imagem.
Outra das criaturas desabou no chão imundo e pegou suas míseras moedas, antes escondidas para que ninguém soubesse da existência delas, tinha a certeza que a conta deveria ser paga por terceiros, nunca por ela! Não teve chance, ao cair para contá-las foi massacrada a pontapé.
Com as vísceras estagnadas, após horas de excessos, um dos grotescos só conseguiu atacar seus oponentes por poucos minutos, não aguentou muito, estava entupido de fluidos e materiais orgânicos, entregou-se à eliminação.
Outra das bestas se ausentou logo da zona de terror. Cansada desde o início da briga, malemolente, adepta da inação, acertou escassos golpes e recebeu tantos. Sentou próxima aos três corpos aniquilados e, em letargia, sucumbiu, apodrecendo rapidamente no solo espúrio.
Ao perceber que não tinha muito tempo e intuindo chances inexistentes para si, a besta com maior sensualidade propôs o fim da devastação e prometeu devassidão aos dois últimos oponentes. Em um canto nefasto do prédio comercial ofereceu seu corpo e aliciou mais três criaturas vendidas, com menor envergadura corporal, que assistiam ao confronto pálidas de terror e entregaram suas almas mesclando pânico com prazer carnal.
O mais robusto e agressivo dos bárbaros não deu trégua às quatro energias femininas, compulsivamente as consumia. Inconformado com o vigor promíscuo entre o macho maior e o quarteto de fêmeas, o último dos monstros aliou, de forma suicida, sua natureza invejosa à energia do ódio. A combinação explosiva não deixou registro de quase nada, apenas um pedaço de corpo carbonizado.
II
Ao presenciar o que havia de mais grotesco, um quadro bizarro, desci perplexo, puxado por energia advinda de determinado ponto da “3” Norte. Olhei para trás e vi os gigantes espalhados no asfalto. Percebi o sinal amarelo, ao olhar para frente, e uma mulher atravessando uma criança num cesto trançado de maneira artesanal. Ela apertava afoita o semáforo, queria atravessar logo de uma comercial à outra. Nada fazia sentido, pois não havia carros transitando naquele cenário caótico, os seres que por ali passavam estavam a pé, a maioria deles corria com a cabeça baixa em rumos diversos.
A mulher insistiu, até que o sinal fechou e ela seguiu para o comércio local da 204 Norte e pelo fundo, entre as lojas e as residências, correu para a ²SQN próxima à ³L2.
Eu a segui até as “400”, no início eram prédios o que visualizava, mas em poucos metros andados cheguei à entrada de uma floresta. Adentrei na imensidão verde que se apresentava à minha visão e demais sentidos alterados pela força do ambiente. Parei, por segundos, e prestei atenção à intensidade do meu respirar. Estava ofegante e aos poucos controlei o pânico castigador da fisiologia.
Como um lagarto, camuflei-me na paisagem. Por instantes tudo permaneceu calmo, silencioso como as madrugadas angelicais presenciadas por espectros que transitam em terrenos lapidais.
De repente, ouvi barulho de cachoeira, fiz movimento para a esquerda e vislumbrei, com a percepção lenta, um velho despido, com longos cabelos brancos. À sua frente, outro homem – esse bem mais novo, devia ter a soma de pouco mais de três décadas. O ancião banhava a cabeça do mais moço e pronunciava palavras desconhecidas para mim, talvez estivesse recitando uma oração em língua morta.
Ao olhar para a direita vi três seres: uma fêmea e um macho esquálidos, sem costelas, em cima de uma árvore frutífera havia um reptil viperídeo com fruto colorado preso na enorme boca traiçoeira da qual escorria líquido letal.
Por entre as árvores avistei inúmeras mulheres, suas vestes pareciam ancestrais. Elas corriam, estavam tomadas por volúpia. Com voracidade de lobas arrancavam as roupas umas das outras. Em cima de folhas secas, caídas há séculos, consumiam-se à lambidas e mordidas, os uivos eram contínuos e ensurdecedores.
Fiquei entorpecido de prazer, queria estar com todas elas, como um refém das míticas amazonas. Mas não podia me mexer, a magia onírica me paralisava.
III
Aos pés da Ave Maria, imagem protegida por uma gruta incrustada na floresta atéia, estava a rezar aquela mulher com a criança que repousava dentro do cesto.
A santa ganhou vida, pegou o pequeno ser, demasiado humano, e em troca entregou à mulher um espelho que refletia o futuro na medida em que esse tempo ia se transformando em passado. Com apenas um movimento, a divindade se fez entender e a mulher foi viver todas as etapas que tinha pela frente antes de se tornar ela a imagem adorada naquela gruta.
Segui por um estreito caminho, por entre as árvores, passei ao lado de um palácio no qual se reuniam homens e mulheres na certeza de que estavam a doutrinar energias desprendidas de suas próprias carnes, criaturas que vagavam em um mundo que um dia serviu-lhes de casa.
Apenas passei ao lado, nada além. Continuei minha solitária peregrinação como um mero observador que transita sem causar e sem sofrer danos, um homem que tem em si o desejo de interpretar o que não pode ser visto, dito, escrito ou escutado.
Obs.:
1.Super Quadra de Brasília
2.Sigla de Super Quadra Norte (endereço geral da Asa Norte)
3.Avenida de Brasília (L2 Norte)
Texto escrito na cidade de Salto (Uruguai), em janeiro de 2008.
Só falta um minuto para estares no mundo cibernético..
Boa estada. Bj.
Pronto, meu voto é seu!
Realismo fantástico de primeira linha.
Merece ser mais que um conto..já pensou em transforma-lo em roteiro para cinema? Pense nisso querido amigo!
Tens muito potencial! Um beijo!
"um homem que tem em si o desejo de interpretar o que não pode ser visto, dito, escrito ou escutado."
Um humano, demasiado humano, como disse Nietzsche.
Um narrador sem época - filho do eterno retorno.
Texto caleidoscópio. Imagens cinematográficas ("literais") e "intransponíveis" (literárias).
Talvez seja mesmo o caso de visualizá-las por mãos roteristas, ainda que sob "o desejo de interpretar o que não pode ser visto, dito, escrito ou escutado."
Meus cumprimentos e votos.
o que voce tomou, amigo ?...tb quero !!!!....rsrsrs
bom pacas...pra lá de...alucinei !
( como sugeriu Wancisco, FAÇA UM FILME !!! )
abs
Caramba!! Alucinante,querido,Gibson!!!
Fiquei aqui zonza de tantas imagens que fui visualizando...totalmente cinematográfico mesmo,concordo com o Wan!!!!
Narrativa super instigante e prazerosa!
Gostei muito mesmo!!!
Parabéns!
bluebeijinhos
Blue
Impressiona, preguiei os olhos no texto
agora copio Gibson, reler reler...
muito bom, cheio de imagem e imaginamos
mais situações. Bárbaro
Fazia tempo que nao lia algo assim tão bom
Parabens mesmo!
Nossa ! que viagem foi essa?
mistica e... tao real. aff!
adorei.
bjsss;)
Forte, muito forte!... Expressivo demais!
Obrigado pela boa leitura!
Parabéns
Ola Amigo. Parabéns - texto impressionante, com sua narrativa forte, que nos permite entrar no mesmo - o sentir!
Abçs
Gamito
" como um lagarto camuflei-me na paisagem"
Bela peças de escrita surrealista, intrigante, enigmática...
Votei.
Um abraço
sucesso!
Li, gostei e votei... muito reais as descrições...
andré diefenbach · Santa Maria, RS 16/4/2009 09:14
olá, realmente muito louco e bem escrito, gosto de quero mais.
Vamos votar sim,
abraço,
sucesso,
geraldo
rsrs concordo com o Joe... O que vc anda tomando hein??
Viagem...
abraço
Pat
Inúmeras imagens e movimentos como convém a um bom filme !
Tá muito bom o resultado final, filma isso urgente, roteiro digno de um Oscar !
Como escritor tu é um ótimo cineasta !
Um beijo !
Poético e escrito com competência. Excelente! Abs.
Juscelino Mendes · Campinas, SP 16/4/2009 11:01
Booommm Diaaa amigo Gilbson...
Perambulei pelo roteiro de seu texto - até sem pretexto...
De repente, me vi qual mais um dos espectros das pascoas passadas, onde nos sabados das aleluias, se matavam mil judas em holocaustos frios.
Nesse instante, toda essa Asa Norte se fundindo com a sul, se transforma em um anjo enorme com essas asas, que porém impossibilitado de voar, penetra nos copos e corpos das bebericagens, transformando em cicuta cada gole sorvido pelos seres ora feras insaciáveis.
E nesse clima próprio dessa BSB onde o poder é o Anjo Negro decaido, até as cigarras se transformam com seus intermitentes cantos, em pitonisas devorando cada folha das meninas arvores que as abrigam...
Também vi essa luz, que também vislumbro qual a de uma Ave Maria, que qual a sinfonia de Walt Dysney, vai dissipando os demonios, ao som de suave musica...
Parabéns pelo seu texto, que nos transporta pelo "Portal" de uma das Dimensões desses UniVersos paralelos, para as mils realidades!
AbraSSos Amigos,
ZecaFeliz
gaDs!
Gilbson Alencar · Brasília (DF)
Capital sete (ou o início do fim na altura da “3”)
Um Texto bem escrito merecedor de elogios pela diversidade da sua abrangência e da facilidade em que é descrito.
Tem tudo a ver, com as sem fim, características humanas no proceder do dia a dia, de tantas turbilências causadas pelas desigualdades sociais, que tanto explicam os comportamentos sem harmonia e sem amor.
Parabéns.
Abração Amigo
alucinante meu caro...
beleza.
abraços
Oi meu querido, parabéns!
Beijos de luz... Liz
www.lizhermann.com.br
Olá Gilbson,
Obrigada pelo convite.
Adorei o seu conto. Brasilia é mistica e você colocou isso em seu texto. Caminhei com você entre linhas...
Votado
Sucesso!
Patty
Gibson,
Interessante e reflexivo.
Nessa confusão de almas, seu texo nos remete ao céu e ao inferno.
e também a uma Brasilia onde tudo se "tece e acontece" ante os olhos de um observador que fica indignado mas nada pode fazer.
bjs
Depois de tomar o Santo Daime dá para visualizar este mundo fantástico que você imaginou.
Muito bom. Parabéns.
Ivette G M
Obrigada pelo convite.
Fiz uma leitura fascinante.
Abraços
Votado
Excelente conto. Voto, embora tardiamente.
Julio Rodrigues Correia · Manaus, AM 17/4/2009 09:42Com atraso, Gilson, mas ainda em tempo de dizer o quão fantástico, inteligente seu conto. Estou mto feliz por ter estado aqui e tenha certeza de que voltarei agora em diante. Bjs.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2009 11:50
Votado. De certa forma, futurístico. Parabéns! Bjs.
Vives · Porto Alegre, RS 17/4/2009 16:22
Sem palavras. Conto incrivelmente bem escrito! Realismo fantástico de primeira linha... Um show de imagens fortes e (es)histórias nem desenroladas a acompanhá-las...
Jéfte Sinistro · Cabo de Santo Agostinho, PE 17/4/2009 17:19
Salve, Gilbson!
Wancisco disse tudo e mais um pouco.
Você é bom!
Abraço Pantaneiro.
Grande Gibson!
Seu texto é de prima. Gostei de ler!
Mande mais...
Gibson,
Talvez não haja mais o que ser dito diante de um texto literalmente fantástico!!!
Gostei muito do texto principalmente pela maneira com a qual os personagens vão ganhando vida, e seguindo a sua trajetória, pois eles se movimentam sem que o anterior morra, pois as sensações ficam vivendo em nos, enquanto nos deliciamos com outro personagem!!!
Perfeito!!!
Do horror à vida real... Tem-se a impressão que assistimos a um daqueles programas de rondas policiais... Zappeando, tv à frente, pudores pra trás... Justo no momento em que Poe me vem à lembrança... O horro, o horror, diria Conrad... Escrita firme e poderosa que arrepia e faz pensar... Do início ao fim... Parabéns,... Abraços e votado...
Pepê Mattos · Macapá, AP 17/4/2009 22:59Belo texto. Um pesadelo real. Lembrei de meus devaneios infantis.
Nildo Cordel · São Paulo, SP 18/4/2009 00:44
Escrever sempre me fascina, brincar com a imaginação também, parabéns, bom texto.
Abraços
Almir Capthor
É isso aí, a vida prossegue. Continue, avante!
Alex èrza · São Paulo, SP 18/4/2009 17:25
Você. O primeiro que traduz meu codinome aqui no Overmundo. rsrsrsr. O que mostra sua cultura...Aliás, seu texto tem muito requinte intelectual. Voto de bom grado!
llamar al pan · Belo Horizonte, MG 19/4/2009 14:17
caro conterrâneo
otimo texto, imaagens fortes que lembram sabe quem? os desenhos do moebius, na "Heavay Metal"- mas pede uma coantinuação, como nos antigos seriados -
ADOREI VIAJAR NAS TUAS LINHAS.
PARABÉNS
" Fiquei entorpecido de prazer, queria estar com todas elas, como um refém das míticas amazonas. " Seu texto provocou este clima de volupia descrito no trecho das amazonas, gostei muito, votadíssimo!
sheila duarte · São Paulo, SP 21/4/2009 00:53
entao amor, texto doido heim? fala a verdade...as tardes silenciosas e calmas de salto servem para incentivar teu cérebro e criar coisas como estas... porém acho que também foi escrito em Punta Colorada, ou nao??? de novo em tardes de silencio de tanta siesta antes de ir pra praia....
sei onde está plasmado este conto, naquele caderno que tem na capa um sapo verde!!!!! doidooooooo!!!!
beijos, eu te amo.
tua esposa
Muito bom! Segue o voto com atraso.
Um abraço afetuoso, Faraó
AMIGO PARABENS OTIMO VOTADO MUITO SUCESSO AJUR SP
ajursp · São Paulo, SP 25/4/2009 21:33
Há o que ser dito. Trata-se de um belo conto. E eu li, vi, gostei.
Por isto estou votando, com consciência.
Naeno Rocha
Muito legal. Reconheço essa cidade mutante: entre os ipês, pequizeiros e sucupiras, muitas antenas nos prédios de concreto, vidro e metal.
romulo andrade · Brasília, DF 29/4/2009 21:11
Uh, delirante. Belo texto, já começa pisando: havia cheiro de incompreensão no ar...
Vasqs · São Paulo, SP 5/5/2009 18:32
Belo texto. Vou ficar nisso.
beijo na pele do teu coração
Naeno Rocua
Gostei do teu conto. Os detalhes que nos forneces de movimentos, transformações, transfigurações, são perfeitamente entendível, e passam uma emoção muito calliente para nós leitores.
A princípio, e ainda é uma hipótese, tudo o que vistes, descrito no teu conto, é talvez a sombra do teu próprio medo.
Como um surto, que ao meu ver poderia ter passado, colocasses tu, um comparsa de noite do teu lado.
Belo mui belo.
M
... horas de excesso... Que cabem bem nessa vida. Belo texto meu amigo.
Abs.
Fantástico, meio nonsense, visceral, extremamente criativo e bem escrito. Parabéns pelo trabalho!
Se quiser, sinta-se à vontade para visitar meu perfil e conhecer meus !escritos esquizóides"...
É MEIO FICÇAO CIENTÍFICA, MAS PURA REALIDADE DO CAOS URBANO E DO CAOS INTERIOR DOS SERES HUMANOS. GOSTEI DEMAIS. VLW
Edson1970 · Mossoró, RN 21/5/2011 21:57
Caro Gilbson,parabéns pela excelência escrita no campo do realismo fantástico.É importante saber lidar com a realidades ou realidades e transportá-la para uma dimensão que nem todos têm acesso,mas ,muito importante.Seja na literatura,na pintura ou no cinema ,o realismo fantástico é,simplismente fantástico.Mais uma primorosa escrita,amigo.Abraço.
Cezar Ubaldo · Feira de Santana, BA 27/5/2011 06:39Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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