... Sou o perfume aprazível da primeira chuva depois dos secos dias de verão. Em toda minha vida sempre amei este perfume, até mais do que o perfume dos meus amores. Como um animal, sempre pude senti-lo antes mesmo de começar a chuva com suas primeiras pequenas e quentes gotas d’água reluzentes, fecundas de si mesmas com seu toque cálido das antigas piras sagradas do Oriente. A sensualidade de sua união com o seco pó que brota do chão e das paredes e que grita e implora por seu sufocante beijo, por sua união.
A doce umidade tímida dos olhos do amante desejado, seduzido. EU SOU...
Sou o perfume? ERRO GRAVE. RESET. O Sistema vai estar sendo reinicializado.
NÃO!!!!!!!!!
Vejo as pequenas rosas miúdas brancas, pálidas, no vaso da sala. Plasticamente insossas, sem nenhum perfume, apenas este cheiro do moderno milagre pré-histórico que descobrimos no ocaso do nascimento. De onde vem este perfume que tanto grita em mim?
Tenho coisas a descobrir em mim que ainda sequer posso ousar voltar meus olhos a elas, não conheço sua linguagem voraz e queimatizadora. Ouço seus gritos ecoantes exigindo atenção. Mas eles vem de mim ou de fora de mim? Olho as estrelas em noites desluadas a procura de ecos passados... mas só encontro lembranças noites frias e secas perto de brasas esmorrendo em cinzas frias e também secas, e uma paz infantil frágil, lembranças de algo que não vivi... O infinito das possibilidades que deixo fugir na coleira que deixei cair...
Mas os ecos continuam, posso ouvi-los nas folhas reluzentemente verdes do ávido pingo-de-ouro, mas não posso toca-los, meus dedos são trêmulos e sólidos. Posso senti-los na carne no rugir dos trovões distantes ou no miar profundo dos becos, mas não posso vê-los, meus olhos estão cegos pelas estrelas. Posso tocar os ecos nos olhos piedosos dos cães fieis em sua jornada, mas não consigo ouvir sua linguagem cifrada.
Encontro os olhos que tanto procurei em meio a sorrisos forçados diante da falta de coisa melhor a fazer, os olhos que desejei conhecer seus mistérios, penetrar seu infinito... Olhos linceanos decididamente, como imaginei quando os vi na primeira vez, e onde os quis com uma força que nunca acreditei querer um dia. Sem grandes esforços de sedução, eu os trouxe até aqui, o meu cárcere de natureza artificial de cores sóbrias quebrada por um sofá (confortável o bastante) de um verde indiano e quadros eróticos a escandalizar virgens (des)pudoras nas paredes. Quem são estes olhos infindos que tanto me miram e me atraem?
Olhos incrustados em uma face firme, suave, bela e emoldurada por negros cabelos medianos e arrematada pela boca sensual a me falar de sua vida, que já não me importa em nada. Começo o meu caminho através de seus olhos, de suas mãos impacientes inexperientes, de suas pernas cruzadas nervosas, de sua boca gemente... Com certeza um sofá confortável.
Seu cheiro me lembra meu primeiro encontro com o oceano. Sal e nervosismo. Era julho e fazia frio. Mar revolto. Maresia e ondas.
Seu gosto salgado não me fez arrepender da grande viagem.
DESEJO GRITAR!!! (Pop-up bloqueada)
Que vá a Merda!
Vou gritar assim mesmo o meu prazer, pois Sou um Animal!
Quando deixarei estes doces olhos, que agora descansam ingênuos deitados em minha cama, em busca de novos mistérios não sei. Sinto o perfume antigo da chuva que se aproxima...
Fora a única coisa que a policia interna não me tomou. A Mãe Portátil nunca se apercebeu, mesmo eu parando tudo o que quer que fosse que eu estivesse fazendo para sentir o perfume. Meu único prazer verdadeiro, subjetivo-individualizantizadoramente meu.
Mas é hora de correr os dedos pela minha orelha e encontrar A.D.E.U.S.
Sinto o perfume antigo, acendo um cigarro, ele dorme tranqüilo, começa a cair a chuva. Os olhos na janela choram...
Aqui estamos nós novamente, agora no lugar certo. hehe
Alex Costa Lopes · Cuiabá, MT 25/2/2007 17:39
Com muito prazer, trago pra cá meu comentário:
Feliz começo. Cheiro de chuva sempre traz recordaçoes profundas e evoca positivamente o lado animal do sentir, pressentir e despertar. Muito bom, a iniciar-se pela imagem que nos instiga a penetrar por ela e ser parte dela.
E viva o prazer "subjetivo-individualizantizadoramente"!!! (assim como o sentimento, o termo é impossível de ser reproduzido, só no CTRL+C/CTRL+V, mas diz tudo). Comentar mais seria como explicar uma música enquanto é tocada. Resta só viajar pelas imagens e parágrafos e sensações. É realmente sensacional!
Parabéns!.
Aplausos!
Alex, como o site trabalha com a licença Creative Commons, fica problemático usar fotos protegidas ou sem autorização do autor. Uma dica é usar imagens em Creative Commons (no www.flickr.com tem várias) ou de alguém que permita o uso.
Teria como substituir a imagem do post?
É só uma preocupação para não violar as regras do site. Em caso de dúvidas, tem o participe e a ajuda.
abraços!
Alex, que prazer saber, nesses tempos bicudos, sem imaginação, que ainda brota criatividade de fonte tão límpida!
Salve, Pontes e Lacerda!!!
Salve, Mato Grosso!!!
Salve!!
Obrigado Saulo...
Bem, pra nao ter nenhuma duvida, coloco uma foto do meu acervo pessoal, em minha viagem pela fotografia artística...
Eu disse antes que isso é lindo (e sem uma palavra, porque fiquei sem voz, arrepiado e de queixo caido)
Agora repito aos brados:
Lindo, lindo, lindo!
Ótima foto! Escolheu bem!
abraços!
Concordo. Interessante que, embora já tivesse me acostumado com a outra e a opinião que dei acima, esta tem mais a ver com o texto, pois ambas saíram da mesma "fábrica". Esta tem a fonte de sensibilidade e percepção em comum. Daí a identidade.
Ficou melhor.
vamos pensar agora no cap. II????
Quem fará nos dará a Honra de nos deliciarmos com a continuação?
Zé, Rangel, Edna, Saulo...
Quem será?
Alex, passei "atrasado" por aqui, mas acabei de deixar meu voto e repito: Parabéns! Tua prosa poética é muito tocante (mesmo).
Abraço.
Hey pessoal!!!!
Está passando da hora da F.E.N.I.X rejuvelescer, quem será o próximo a queimar e renascer das cinzas??
Espero ler a continuação logo, as energias da grande ave estão esgotando.
Alex,
O seu capítulo foi tão bom que acredito estarem todos em estado de contemplação, ainda hipnotizados pelo perfume de chuva...
Realmente, continuar é preciso. A vida continua...
Gente, algo me diz que o cap. II está a caminho...
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