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Capoeira: O Cortiço de Aluísio Azevedo extraido por Leiteiro!

Mestre Churrasco
1
AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ
30/8/2007 · 77 · 6
 

Roda de Domingo na feira de São Cristovão com Leiteiro no Berimbau-1980

O Cortiço XVI (final)
E o rolo fervia!
Mas no melhor da luta, ouvia-se na rua um coro de vozes que se aproximavam das bandas do "Cabeça-de-Gato". Era o canto de guerra dos Capoeiras do outro cortiço, que vinham dar batalha aos Carapicus pra vingar com sangue a morte de Firmo, seu chefe de malta.
XVII
Mal os Carapicus sentiram a aproximação dos rivais, um grito de alarma ecoou por toda a estalagem e o rolo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem cessasse. Cada qual correu 'a sua casa, rapidamente, em busca do ferro, do pau e de tudo que servisse para resistir e matar. Um só impulso os impelia a todos: já não havia ali brasileiros e portugueses, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido contrário; os que se batiam ainda há pouco emprestavam armas uns aos outros, limpando com as costas das mãos o sangue das feridas.
Agostinho, encostado ao lampião do meio do cortiço, cantava em altos berros uma coisa que lhe parecia responder á musica barbara que entoavam lá fora os inimigos; a mãe dera-lhe licença, a pedido dele, para por um cinto de Nenen, em que o pequeno enfiou a faca de cozinha. Um mulatinho franzino, que até ai não fora notado por ninguém no São Romão, postou-se defronte da entrada de mãos limpas, á espera dos invasores; e todos tiveram confiança nele porque o ladrão , além de tudo estava rindo.
Os Cabeça-de-Gato assomaram afinal no portão. Uns cem homens, em que se não via a arma que traziam. Porfiro vinha na frente, a dançar, de braços abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras para que ninguém lhe estorvasse a entrada. Trazia o chapéu a ré, com um laço de fita amarela flutuando na copa.
Aguenta! Aguenta! Faz frente clamavam de dentro os Carapicus.
E os outros, cantando o seu hino de guerra, entraram e aproximaram-se lentamente, a dançar como selvagens.
As navalhas traziam-nas abertas e escondidas na palma da mão.
Os Carapicus enchiam a metade do cortiço. Um silêncio arquejado sucedia á estrepitosa vozeria do rolo que findara. Sentia-se o hausto impaciente da ferocidade que atirava aqueles dois bandos de Capoeiras um contra o outro.
E, no entanto, o sol, único causador de tudo aquilo, desaparecia de todo nos limbos do horizonte, indiferente, deixando atrás de si as melancolias do crespusculo, que é a saudade da terra quando ele se ausenta, levando consigo a alegria da luz e do calor.
Là na janela do Barão, o Botelho, entusiasmado como sempre por tudo que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de aplauso e dava brados de comando militar.
E os Cabeça-de-Gato aproximavam-se cantando, a dançar, rastejando alguns de costas para o chão, firmados nos pulsos e nos calcanhares.
Dez Carapicus sairam em frente; dez Cabeça-de-Gato se alinharam defronte deles.
E a batalha principiou, não mais desordenada e cega, porém com método, sob o comando de Porfiro que, sempre a cantar ou assoviar, saltava em todas as direções, sem nunca ser alcançado por ninguém.
Desferiram-se navalhas contra navalhas, jogaram-se as cabeçadas e os voa-pés. Par a par, todos os Capoeiras tinham pela frente um adversário de igual destreza, que respondia a cada investida com um salto de gato ou uma queda repentina que anulava o golpe.
De parte a parte esperavam que o cansaço desequilibrasse as forças abrindo furo 'a vitória; mas um fato veio neutralizar inda uma vez a campanha; imenso rebentão de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o nº 88.
E agora o incêndio era a valer.
Houve nas duas maltas um espasmo de terror. Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte.
Continua na ficha técnica!

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informações

Autoria
Aluísio Azevedo
Ficha técnica
Um clarão tremendo ensanguentou o ar, que se fechou logo de fumaça fulva.
Os Cabeça-de-Gato, leais nas justas de partido, abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos de aceitar o auxilio de um sinistro e dispostos até a socorrer o inimigo, se assim fosse preciso.
E nenhum dos Carapicus os feriram pelas costas.
A luta ficava para outra ocasião!
FIM

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baduh
 

Aloísio de Azevedo é fera! É uma das melhores passagens de "O Cortiiço", que você nos traz, Prof. Leiteiro.
Abração,
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 05:34
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AZnº 666
 

É lamentavel eu não gostar de ler, praticamente só leio Capoeira, mas me vi obrigado a ler todo O Cortiço depois deste pedaço!
Apesar da época da escrita ele é todo Audio-Visual, voçe lÊ e Vê!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 11:18
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Lígia Saavedra
 

Querido Carioca
Não entendo nada de capoeira, só acho bonito ver a dança, mas diga-me, por favor, perdoando a ignorância: "Nesses encontros, é possível haver morte? Ou é tudo uma grande brincadeira?"
Bjs

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 29/8/2007 20:00
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AZnº 666
 

Nesta Roda, era! Todos esses capoeiristas da foto iam a esta roda na Feira de São cristovão pra faturar algum após os jogos. Mas a turma das academias detestavam esse tipo de coleta pois achavam degradante para a imagem da Capoeira. Como academia no sentido completo só tinha na Zona Sul, os Espartacos bem alimentados iam a essa roda só pra detonar. Me lembro da chegada de um dos mais famosos de nome Capixaba, 2 mts, 100 kilos, me convidou para jogar. Eu como comandante da roda não pude recusar. Ai ele colocou o seu braço em cima da coxa e o flexionou para mostrar o musculo. O biceps dele era da largura da minha coxa. recuei cautelosamente e deixei pra outro testar a Capoeira do troglodita.
de outrafeita um pai de um pequeno capoeira uns 6 anos muito bom por sinal, arrumou problema com outro capoeirsta de nome pará muito bom tecnicamente mas porradeiro também. eu mesmo andei levando cacete deste Pará. Então o pai com medo de jogar mandou o filho. pará não contou conversa, foi jogar com o menino
deu uma rasteira no mesmo, e depois pisou na cabeça da criança para forçar o pai a entrar no jogo! O pai não foi, nem eu iria!

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 29/8/2007 20:33
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Humberto Firmo
 

Sem rasteira:
Tenho o cortiço, mas nunca li, Agora vou ler.
E vamos abrir a roda.
abraços!

Humberto Firmo · Brasília, DF 30/8/2007 07:52
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AZnº 666
 

1Berto! Firmo minhas palavras com mais este comentário: Se o Sr. ja leu Quarto de Despejo se não me engano de Franscisca de Jesus, verás que é o mesmo romanceado de forma novelesca, mas com o realismo de O DIreito de Nascer, e outras do gênero.
Pra piorar o personagem é um tal de Romão, que na vida real é um que eu odeio, ai piorou...

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 30/8/2007 10:45
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