Caras Pintadas e Chuva de Lágrimas: a história dos professores VERÁ.
“Despedida de caboclo...Faz chorar.”
(Ponto de Umbanda)
“Tu observarás apenas com teus olhos e VERÁs a punição dos ímpios .”
(Salmo 91, encontrado nos últimos escritos do professor Rolindo Verá)
Clima seco. Calor. Suor. Terça feira (17/11) quente em Mato Grosso do Sul. Nas áreas indígenas Guarani Kaiowá do estado, a única água que molhou a terra foi a água das lágrimas de índias e índios.
Principalmente na área indígena Pirajuí, em Paranhos MS. Há aproximadamente 20 dias, Rolindo Verá e Jenivaldo Verá – professores indígenas de visível compromisso com o coletivo - estavam muito felizes. Saíram alegres de Pirajuí com um propósito: o retorno ao Tekoha (Território Tradicional). Junto com a família, a nova decisão era permeada de esperança. Terra para todos e todas, mata, paz. Paz que só os Tekoha podem trazer. As crianças em festa, nem reclamaram dos muitos quilômetros caminhados para retornar a terra de seus antepassados.
Ypo´i, é apontado como território tradicional dos Guarani Kaiowá no MS, onde viviam a família Verá e outras. Esta terra, ocupada por não índios para a monocultura e pecuária, atualmente é conhecida como fazenda São Luiz. Perguntando aos ex-moradores de Ypo´i sobre a possível antiga fazenda, a resposta é imediata: não existia fazenda, existia a terra que era trabalhada por todos e todas.
O empedrado caminho indígena levou este povo para a aldeia Pirajuí, demarcada nos anos 20, e então, governalmente assistida – educação e saúde foram disponibilizadas. Mas não garantidas.
A falta de compromisso – e conhecimento da realidade – dos Governos – Municipal, Estadual e Federal – com as áreas indígenas tem-se revelado cada vez mais, obrigando os povos indígenas a saírem na luta, sozinhos, por seus Tekohas para garantirem a sua sobrevivência, já que o extermÍNDIO é uma realidade. Só não enxerga quem não quer.
Dias depois da saída... A chegada... Entre o rio e cercado de mata, o Tekoha esperava pelos Guarani. As crianças fizeram a festa, dançaram, pularam, nadaram no rio. Era tanta alegria que eles nem se importaram com os olheiros que curiosamente questionavam-se da inesperada surpresa.
Nem deu tempo de se preocuparem.
Na sexta feira, por volta das 15 horas da tarde, um caminhão foi avistado pelos índios. Vários homens desceram armados do veículo e vieram correndo à direção deles. Acompanhados de gritos e ofensas.
A cada passo, um pedaço de barraco montado com o suor dos Guarani na chegada, era retirado pelos pistoleiros para destruir as novas e provisórias residências e atacar aqueles seres humanos que lutavam pela garantia da terra, da moradia – direito constitucionalmente garantido, como muitos outros, e que na prática são esquecidos.
No meio do confronto, os pais dos primos Rolindo e Jenivaldo perderam os filhos de vista. Com o estrondo dos tiros, “os índios se esparramaram para o meio do mato”. Perdidos, machucados, fragilizados e fragmentados tentaram fazer o percurso de volta. Uma volta mais longa, mais triste, mais solitária, mais dolorosa.
Do grupo que saiu, dois não voltaram. Rolindo e Jenivaldo não voltaram.
A família Verá reúne-se todos os dias em roda na espera. Na espera do possível corpo do Jenivaldo. Na espera otimista do retorno de Rolindo. Na esperança de um fio de vida. De um fio de sorte.
Espanta-me essas aberrações contra a humanidade e muito mais espanta-me que elas aconteçam frequentemente na atual situação fundiária do Mato Grosso do Sul. Espanta-me os poucos resultados apresentados até agora.
Espanta-me a memória dos não índios em que percebo, que essa história, poderá ser mais uma história mal resolvida. Esse lapso de memória coletiva é responsável pelas maiores atrocidades humana, como a ditadura, o holocausto e então, o etnocídio.
Já chega de impunidade. Marçal de Souza teve seu processo encerrado. Os criminosos viveram livremente. Os familiares de Marcos Verón estão em luta para que a tristeza, o motivo que permeou as suas vidas não seja em vão. Os Laranjeiras Ñanderu estão na beira da rodovia. Como muitos e muitos outros povos do MS.
E agora, o que será da história dos Verá?
Serão esquecidos, apagados, distanciados?
Mais uma vez o poder e o latifúndio calarão a justiça, ou dessa vez veremos resultados?
Será que as várias crianças órfãs, os pais e mães que ficaram sem filhos, as esposas viúvas serão martirizadas pela ignorância e a impunidade? Como a família Verá sobreviverá?
Eles não falam a língua portuguesa. Eles estão a quilômetros de distância do centro urbano. O município de Paranhos não oferece estrutura para um atendimento público bilíngüe. Uma coisa é fato, se colocarmos no papel, os falantes de Guarani no Cone Sul sul matogrossense é igual ou maior aos falantes da língua violentamente imposta, a portuguesa.
Qual será o futuro dos herdeiros Verá? Terão terra para sobreviver? Terão sua dignidade garantida? Terão comida? Terão ao menos seus mortos velados?
Quem vai cuidar dessas crianças? Quem vai educar as crianças que estavam sobre a responsabilidade dos professores? Tekoha, Educação e Cultura. Estas palavras guiavam estes meninos. Meninos.
Todos os dias, ao final da tarde, a família se reúne em vigília. Rezam e pedem pra que Ñanderu mostre o caminho de volta aos professores.
Os Guarani são conhecidos pelo eterno sorriso. Sorriso que se desmancha em lágrimas de desespero, de saudade, de medo. Medo que é suprido pela luta. Que não termina aqui. “Não se separa a carne do sangue”. Não se separa um pai de um filho. Não se separa um Guarani do coletivo. A luta continua. Doa a quem doer, a justiça virá, pois só veremos florescer o sorriso dos Guarani Kaiowá de Paranhos quando esta história for solucionada. Chega de descaso público. Chega de demagogia. Não se faz piquete político com a desgraça alheia.
Os recém completados 22 anos de Paranhos soou como promessa: promessa de justiça.
O mistério dos corpos
Como boa leitora, sei que cada narrativa, de ficção ou não, tem ao menos três versões.
Uma das muitas que ouvi no boca a boca do povo de Paranhos, foi sobre o mistério dos corpos.
Primeiro a mídia em geral sul matogrossense divulgou o aparecimento de dois corpos que supostamente pertenciam aos professores Verá próximo a área de confronto. Quando a polícia chegou até o possível local, nada foi encontrado.
Dois, três dias depois... Um corpo apareceu no rio Ypo´i. Este corpo foi supostamente reconhecido pela família, que afirma não tê-lo visto pessoalmente.
O que será que aconteceu?
As instituições dizem que não foi encontrado, a comunidade afirma que sim. Será que foram encantados e carregados pelo canto das sereias para as águas de Ypo´i? Será?
O mistério continua no ar. E a resposta do IML também.
Gostaria que os familiares, principalmente as crianças, não precisassem mais perder o olhar no horizonte a espera do retorno de seus pais.
Viva o Povo GUARANI! Justiça e demarcação das terras indígenas JÁ!
O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel bandeira
Por Lauriene Seraguza, Educadora Feminista em Mato Grosso do Sul
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