CARLOS FERNANDO, O FREVO E A SUA AMADA CARUARU

1
Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
6/9/2013 · 3 · 0
 

“A vontade de ver o frevo bater asas e voar bem alto, da pracinha do Diário para as Américas, para todo o mundo” (Carlos Fernando, caruaruense, idealizador do projeto Asas da América).

É um povo conservador danado esse de Pernambuco. O mestre Carlos Fernando, grande compositor de frevo, foi o responsável pela renovação do ritmo depois que Nelson Ferreira partiu e Capiba deixou de compor. Mas as suas músicas, em sua maioria da categoria frevo-canção, continuam sendo ignoradas por músicos, cantores, agremiações carnavalescas e pessoas que lidam com produção cultural.

No sábado de carnaval de 2012, à tarde, aconteceu um fato interessante: o grande Carlos Fernando havia sido convidado pelo pessoal da Maison Bonfim, em Olinda, naquele dia de Zé Pereira. Sábado de carnaval é quando eles colocam uns músicos na calçada (as gêmeas do Choro Brasil e outros), uma cantora, caixas de som a baixo volume e o povo fica fazendo a folia em frente da casa com o bloco “O Mundo Pegando Fogo”, que apesar do título, não incendeia fora do lugar em que concentra. Aliás, com aquelas músicas dos anos 50 não incendeia ninguém. Mas ainda assim é bom pra quem já não aguenta mais subir aquelas ladeiras seculares da Marim dos Caetés.

Foi naquele sábado que encontrei Carlos Fernando subindo a ladeira e indo em direção à citada casa de folia. Aí, o cumprimentei com o tradicional beija-mão e lhe disse na mais dolorida sinceridade: - Mestre, você veio pra cá, mas as suas músicas não serão tocadas. Ele respondeu apenas: - “eu sei”. Uma moça da casa que o acompanhava ficou uma fera comigo, mas afinal este escriba fareja as coisas. Dito e feito, a donzela cantora entoou uns frevos da década de 50 e em seguida enveredou pelas marchinhas cariocas da década de 40. E eu fiquei como um matuto de Caruaru pensando assim: mas afinal chamaram o homem pra que?

Salvo engano meu, a série de lançamentos de discos pelo selo Asas da América atingiu 08 LP (aí incluindo uma coletânea),todos gravados entre 1979 e o fim da década de oitenta. São quase 100 músicas inéditas, todas de indescritível beleza. Alguns dos intérpretes eram pouco conhecidos, mas havia nomes famosos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, Amelinha, Zé Ramalho, Alceu Valença, Teca Calazans, Chico Buarque e Geraldo Azevedo.

O que os donos de agremiações fizeram com esse importante acervo do frevo? A Casa do Carnaval do Recife preserva esses arquivos? Foram feitas as devidas partituras das músicas para que os músicos jovens não as esquecessem? Dirão que as orquestras de rua não tocam porque não são frevos instrumentais, mas as músicas dele não são cantadas nos palcos do carnaval, nos ensaios do Galo da Madrugada ou nas prévias carnavalescas. Queriam condenar o mestre Carlos Fernando ao esquecimento em vida e pasmem, quase conseguiram. Ah, poderão me dizer que ele foi homenageado há três anos pela Prefeitura do Recife! Sim, foi, mas as músicas dele continuaram no saco. Enquanto isso, vários cantores locais insistem em coisas “trash” do tipo “olha a cabeleira do Zezé” e outras do tempo dos carnavais dos meus pais. Fazem questão de desconhecer a beleza de “Noites Olindenses”, “A Mulher do Dia”, “Pitomba Pitombeira”, “Salve a Torcida”, “Bom é Batuta”, “Sou Eu Teu Amor”, “Siri na Lata” e outras. Que destino terão essas músicas agora depois da sua morte?

Como Carlos Fernando às vezes era portador de uma metralhadora giratória, porém com a elegância de um ator do cinema norte-americano, vou trazer alguns trechos de uma entrevista que concedeu ao Jornal do Commercio em 2002:

“JC – Como o Asas da América foi recebido na época em que foi lançado?CF – Foi uma surpresa muito grande para mim a forma como ele foi recebido. Aquele era o primeiro disco de frevo feito fora do Recife, com artistas como Chico, Caetano, Elba, e o frevo não era uma música muito conhecida além da fronteira de Pernambuco. Você conta nos dedos os frevos que fizeram sucesso nacionalmente: Banho de cheiro, Atrás do trio elétrico, Frevo Mulher, Evocação N° 1, de Nelson Ferreira. Nesse disco tem ousadias como a gravação de Valores do Passado, de Edgar Moraes, com um coro formado pelas Frenéticas e Elba Ramalho. Foi um disco bastante elogiado pela crítica dos jornais do Rio e São Paulo.

JC – Como ele foi recebido no Recife, onde há sempre reação a qualquer mudança no frevo? CF – Olha, fiquei decepcionado. Cheguei no Recife com o disco debaixo do braço. Fui com um divulgador percorrer as rádios, jornais e tal. Saíram algumas matérias favoráveis. Porém, alguns críticos, nem lembro mais os nomes, escreveram dizendo que eu estava tirando o frevo das raízes, do ponto de vista dos arranjos.

JC – O arranjador dos dois primeiros discos foi Juarez Araújo. CF – É, ele é um pernambucano, contemporâneo de Clóvis Pereira e Duda, que se transferiu para o Rio há muitos anos. Quem me indicou o maestro foi Robertinho do Recife, que na época estava tocando no show de Gal Costa. Juarez fazia parte da banda, ele toca muito bem sax, clarinete. Diziam também que meus frevos não falavam em Carnaval, como se fosse obrigatório falar em pierrôs e colombinas. Banho de cheiro não fala em Carnaval e, no entanto, até hoje é uma das músicas mais tocadas nos bailes. Recebi também várias críticas pessoalmente. Capiba me falou, numa boa, que meu disco era bonito, mas que tinha andamento de rock, era uma música feita para os jovens, que não seria dançado pelas pessoas mais velhas. O pior é que houve críticas de gente muito mais nova, que ainda está por aí, profundamente reacionária. São pessoas conservadoras que reagem muito ao novo. Pernambuco é muito rico culturalmente, mas muito conservador. Talvez por ser tão rico culturalmente exista esse conservadorismo, é como se o pernambucano tivesse medo do novo. Engraçado é que muita gente que me criticou na época faz hoje frevo da maneira como foi feito no Asas da América”.

Acho eu que o problema todinho se resumiu no fato de Carlos Fernando chamar os baianos para cantarem no seu projeto. Aqui há uma verdadeira intolerância contra Gilberto Gil e Caetano Veloso, em relação ao frevo, principalmente este último, por causa da música “Atrás do Trio Elétrico”. É um despeito arretado. Um bairrismo bestial que se arrasta desde o fim da década de 60. Melhorou um pouco com o advento do século XXI.

Mas quem ouve, por exemplo, “Menina do Lido” e “Caruaru Palavra Azul” sabe que Carlos foi muito além do frevo. E como ela amava Caruaru, fez também “Cara Caruaru”, um dos mais belos exemplares do gênero frevo-canção.

As duas músicas dedicadas a Caruaru são de sua autoria (melodia e letra). “Caruaru Azul Palavra” foi gravada por Teca Calazans que inclusive fez a sua versão para a língua francesa. “Cara Caruaru” teve gravação de Geraldo Azevedo com um coro. Os arranjos das duas músicas são do consagrado maestro Eduardo Souto Neto. As gravações foram feitas no Rio de Janeiro em 1986.

Que Caruaru agora dê a Carlos Fernando aquele amor do qual ele sempre foi merecedor. São duas ricas páginas sonoras em homenagem à terra em que nasceu, afinal que outra cidade teve ou tem o privilégio de um dos seus filhos decantá-la de modo tão sublime?

Caso não tivesse composto mais nada, Carlos Fernando já seria eterno por essas duas músicas!

Nota: Fiz inserir no vídeo uma fotografia da linda Joana, filha do coautor de “Plano Piloto”, imagem colhida no velório do pai famoso.

Sobre a obra

Um pouco da vida e obra de um dos maiores mestres do frevo: Carlos Fernando.

compartilhe



informações

Autoria
Abílio Neto - pesquisador musical
Downloads
273 downloads

comentários feed

+ comentar

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 8 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados