Carnaval à Mineira

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Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
21/2/2007 · 87 · 18
 

CARNAVAL À MINEIRA


No ano passado Carnaval à Carioca era gente; um fluxo constante de gente rosa, preta, branca, verde, marrom, escorregando pela rua principal do bairro como uma cobra de muitas cores e cabeças. Azul, roxa e vermelha de filós, cetins, brins e celofanes; salpicada de plumas, purpurina, confeti e serpentina, aqui e ali espirrando espuma e água pura em esguichos inocentes, que me lembravam, vagamente, o cheiro inebriante do lança-perfume da minha infância.

Gente grande e pequena, gordos e magros, engraçados, mesmo sem a fantasia. Velhos, crianças e moços, muitos moços ou seriam moças? Um Bloco das Piranhas bigodudas, barrigudas melindrosas de peito peludo, bustiês suados e fedidos como os das prostitutas dos cabarés de filme de cowboy. Um turbilhão de gente sassaricando ou simplesmente andando, pelos dois lados da rua, engarrafando as calçadas com aquela alegria bêbada e sem destino, que caracteriza o Carnaval de qualquer subúrbio carioca. No meu bairro também era assim...até o ano de 2006.

Com táboas de obra, ripas de caixotes de feira, qualquer sucata sólida que encontravam nos terrenos baldios, algumas pessoas montavam suas barracas e seus negócios nos lados da praça. Uma feira muçulmana, fumacenta e barulhenta se espalhava em torno da rua central. Cerveja, salchichão, churrasco, pipoca e maçã do amor, os cheiros todos vazando para dentro das máscaras dos famintos que, quando tinham alguns centavos, comiam alguma coisa, sofregamente, entre uma pulada e outra deste Carnaval precário, porém contente. Ah...havia também um grande coreto enfeitado, onde uma bandinha pequena e desafinada animava os transeuntes com marchinhas e sambas da ocasião.

De empolgante mesmo, na falta dos blocos de sujo que por aqui já rareavam, as turmas de Clóvis. Bufantes e ameaçadoras gangs, esvoaçando pela praça como borboletas obesas, coloridas de ameaças, meio lendas meio verdades, porque já eram muitos os meninos marginais nas favelas no entorno do meu bairro. Desamparados, desempregados, sem pai ou sem mãe eles vagavam sem fantasia nos dias comuns do ano. O Carnaval era a sua glória pois era aí que viravam meninos mascarados, armados de bolas batidas com grande estrépito no chão, assustando as criancinhas que sonhavam com o dia da vingança, aquele em que elas também poderiam, como um Clóvis medonho, assustar alguém.

E os Clóvis corriam mesmo, em bando, sempre querendo matar de susto algum mortal. As vezes andavam munidos de facas e até revólveres, um afim de enfrentar o outro, sem que nem por que, no intuito vago de se vingar de um desafeto, assaltar um incauto, sabe-se lá mais o quê. O medo e a coragem concentrados por trás das máscaras de palhaços tristes que eram, embriagados pela adrenalina do anonimato, do respeito que incutiam quando passavam, flâmulas e boleros tremulando ao vento.

Outros meninos mais pacatos, montavam grupos de índios e cercavam a praça em roda, simulando rituais silvícolas que inventavam ali, na hora, misturando o folclore fake que viam na televisão com o que tentavam puxar de uma memória genética que, por certo, negros e mulatos que eram, em sua maioria, dificilmente haveriam de ter. Mas mesmo assim dançavam como índios, com negras perucas pregadas nas carapinhas, rifles de pau e lanças de cabo de vassoura, bodoques de plástico, flechas de bambu. As caras 'pintadas' com esparadrapo, meros apaches magrelos com curativos simétricos, se julgando cheyennes heróis da raça, pintados para a guerra. Era como se reles mocassins de napa pudessem transformá-los em comanches ou moicanos reais.
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Spirito Santo
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Spírito Santo
 

Calma, gente. Estou tentando aumentar a foto

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2007 10:04
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Spírito Santo
 

Pronto. Agora foi.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 07:21
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Egeu Laus
 

Tristes, amargas e necessárias notícias do Carnaval Carioca.
Leiam todos!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 10:53
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Spírito Santo
 

Valeu a força, parceria! Leiam também (nas entrelinhas é claro) o Globo de hoje (inclusive o Jabor).

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/2/2007 12:35
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Carlos ETC
 

Muito bom, o seu texto, Santo!
É uma pena que as coisas estejam assim por aí!

Carlos ETC · Salvador, BA 21/2/2007 16:30
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Sebastião Firmiano
 

Isto estava arquivado (ou melhor esta) em que pasta?
Na pasta saudade?
Na pasta de amor pela cultura popular?
ou na pasta de amor pela cidade?
AMBAS ?
Por favor, da próxima, arquivo word.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 21/2/2007 17:15
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Spírito Santo
 

Pô, Tião... mando um Word pra você mas, cadê o teu e.mail que você até hoje não me mandou? Quanto as pastas...Haja pastas para arquivar tanta coisa, Tião. Haja pastas.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 21/2/2007 21:07
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Zéduardo Calegari Paulino
 

E se no Rio que lança moda e faz brasilidade, imagina como vai estar no resto do país anos vindouros. Uma sombra escura projeta-se no tempo do Brasil de amanhã... Mas há outros brasil, em compensação. Aqui nas terras pantaneiras, por exemplo, nós, as araras e os macacos pregos pulamos um carnaval de águas e calores na santa paz e calma dessas terras guaranis.

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 21/2/2007 23:37
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Zéduardo Calegari Paulino
 

Foge pra cá.

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 21/2/2007 23:37
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Spírito Santo
 

O Brasil é tão grande e tão bom que, veja só Zé: Estou estudando várias propostas de asilo. Muito obrigado pelo convite.
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 22/2/2007 07:36
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Ilhandarilha
 

Também não consegui abrir o anexo. Deu erro. Não dá pra colocar tudo no overblog?

Ilhandarilha · Vitória, ES 25/2/2007 17:08
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Spírito Santo
 

Oi Ilha,
Não sei como colocar tudo. O texto ultrapassa o número de caracteres. Passo agora mesmo para o teu e.mail se encontrar ele disponível no site.

Grande abraço,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2007 17:55
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Spírito Santo
 

Pô, Ilha,
Queria tanto que você lesse mas, tentei seu fotolog e não rolou. Otexto é grande demais. Tentei o seu Orkut também e não consegui. Deve ser algum problema no seu computador, sei lá. O sebastião também não consegiuiu. Se tiver outro caminho me fala que eu mando. Um e.mail, sei lá.
Obrigado pela atenção. Aguardo.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2007 18:13
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Egeu Laus
 

Se o anexo está em pdf (não me lembro) você precisa um leitor de pdf para abri-lo. Geralmente o Acrobat Reader ou Adobe Reader.
Ele pode ser baixado gratuitamente.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2007 19:52
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Spírito Santo
 

Valeu, Egeu! Talvez tenha matado a charada. memso assim já me entendi com a ilha que não está mais ilhada. Mandei um .DOC pra ela.
Vai lá Ilha, vê se é mesmo a falta (ou a atualização) do Acrobat.
Abs nos dois,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 25/2/2007 20:42
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carlos magno
 

Muito bom Spirito Santo. gostei do carnaval a mineira. Meus sinceros aplausos.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2007 20:32
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Spírito Santo
 

Valeu Grande Magno (com pleonasmo, por favor)

Abs,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2007 21:29
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Spírito Santo
 

(Não deu pra fazer outra matéria em 2008. Esta, de 2007 continua a valer. De novo este artigo abaixo, explicando tudo:

strong>Milícias e violência no Rio de Janeiro
Autor: Gláucio Ary Dillon Soares em 08/01/2007 22:00:10

"As milícias irromperam no noticiário policial e político: existiam, estavam lá, mas não haviam sido descobertas pela mídia. A violência dos traficantes assustou a todos e a afirmação de que eram represálias às milícias só não surpreendeu os especialistas.

Afinal, o que são as milícias? Desde o fim dos anos 70 há milícias na favela Rio das Pedras, perto da Barra da Tijuca, porém elas cresceram somente a partir de 2003. As novas milícias são diferentes. Elas conquistam áreas e se expandem de maneira concentrada. Há diferenciação espacial do domínio das milícias e das três principais facções do tráfico: de 48 áreas em Jacarepaguá, as milícias dominam 47. A concentração de ataques a delegacias e postos policiais nessa área não foi por acaso.

A Cidade de Deus pode ser o próximo alvo. Outra área de forte atuação das milícias é a adjacente à Ilha do Governador. O Complexo da Maré, dividido entre três facções criminosas, é uma expansão que, por sua posição estratégica para a cidade (caminho do aeroporto), encontraria mais do que uma negligência benigna por parte das autoridades ao ser incorporada, particularmente considerando os erros estratégicos de bandidos assaltando em área de acesso à cidade. Criaram uma atmosfera de pânico, o maior amigo da repressão violenta.

A relação entre o apoio a medidas violentas de repressão e a descrença nas instituições, particularmente nas instituições públicas vinculadas à segurança, foi proposta por muitos e demonstrada por ninguém. É intuitiva, mas precisamos de cuidado. Não são esses os únicos termos da equação. Um, que foi esquecido, é a receptividade que as soluções extralegais encontram na população. Não é uma constante: varia no tempo e no espaço e entre as pessoas. Sem ela, as pessoas não cooperam, não apóiam, não pagam e não há milícias.

Há populações que agüentam a incompetência governamental e policial durante muito tempo antes de recorrer a soluções extralegais, ao passo que outras precisam de menos incentivo para seguir esse falso atalho. No Brasil, há setores substanciais da população dispostos a aceitar a “justiça” individual, a vingança pura e simples. Não é um fenômeno carioca, nem é de hoje.

No Distrito Federal, em fins de 1997 e início de 1998, 25% aprovariam se o pai matasse o estuprador da filha; outros 47% não aprovariam, mas entenderiam. Pior: 60% aprovariam ou entenderiam que pessoas e organizações privadas matassem quem amedronta ou gera tensão na comunidade. No Distrito Federal daquela época, a taxa de homicídios era muito inferior à do Rio de Janeiro de hoje, as polícias militar e civil respeitavam os direitos da população e, não obstante, havia um apoio substancial para o vigilantismo e para a vendetta privada. Imaginem a população do Rio de Janeiro de hoje.

As milícias são tentadoras, ainda mais quando a segurança pública falha, quando há crime e há medo. São condições necessárias. Tanto as milícias, quanto as formas legais de segurança privada precisam deles. Solo fértil para soluções violentas e autoritárias. Porém, cultura e personalidade contam: as soluções de força têm um apelo para algumas pessoas que é independente do mérito.

É importante sublinhar o que as milícias não são, porque muitos estão inclinados a apoiá-las, identificando-as como “polícia mineira”. Em entrevistas qualitativas a expressão “limpeza” aparece com freqüência, ilustrando o astral da população. Bandido é lixo. Porém, há muitas diferenças: as milícias atuais forçam a compra de gás a preços majorados, cobram pelo “gatonet” que sai grátis para elas, limitam o acesso às favelas de competidores do transporte alternativo (que elas controlam) e as contribuições, de fato, não são voluntárias. Ou seja, outros comportamentos da milícia, além da eliminação dos traficantes, são criminosos.

Como desalojaram o tráfico? Não há como fugir à relação incestuosa entre polícia e milícia. Não é por acaso que as instalações policiais alvejadas estejam próximas a favelas de onde o tráfico foi desalojado.

As milícias existem (e existiram) em muitos lugares do mundo e não são todas iguais. Elas não devem ser confundidas com milícias paramilitares, como as colombianas. Sua composição e seus objetivos são diferentes. As cariocas recrutam, principalmente, entre policiais e, secundariamente, bombeiros, na ativa ou aposentados, além de civis e alguns militares.

A questão é: as milícias afastam o tráfico ou, eventualmente, o substituirão? A ampla experiência de instituições armadas que atuam fora da lei ensina que o dinheiro fácil é mais forte do que a ética e a legalidade."
Gláucio Ary Dillon Soares, sociólogo, é pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)
Fonte: Correio Braziliense

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2008 19:46
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