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CARNAVAL TRANSDOOR NA BAHIA

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Brida · Salvador, BA
28/2/2009 · 119 · 19
 

A herança cultural não pode ser vista, de agora em diante, apenas como um valor herdado, que deve ser preservado e protegido, como parte da identidade de certa sociedade. A herança como raiz não está dissociada do tronco vivo ou dos galhos de uma sociedade e, longe de ser um legado mumificado, deve ter o objetivo de se constituir em uma raiz autêntica e se expandir como uma riqueza plena, estar em um constante processo de recriação. Nesse caso, o lema deveria ser: “nunca contra as raízes, mas sempre e sempre, além delas. (LACAYO PARAJÓN, 2001, p. 6)

Bahia de São Salvador. Multidão de corpos, ritmos, canto. Da casa à rua, os usos e costumes se espraiam ao som da percussão e das melodias, o corpo sem as amarras do decoro e dos rituais civilizatórios. Carnaval com seus blocos e afoxés na cidade-mãe.
O Carnaval aqui como alhures promove o indivíduo ao anonimato livre de liames da esfera privada, o olhar desvia seu curso da ótica da cordialidade e da solidariedade da casa para ingressar no anonimato aventureiro. Assim é nesta cidade de João (Baêa, Viado, Meu Rei, Meu Bróder) e de Maria (Ninha, Minha Linda, Putinha, Amiga).
As duas esferas da ação social, casa e rua, se mesclam e se permutam numa espécie de lógica subvertida, erotismo e sentimento orgíaco se confundem e se alimentam, abre-se a porta das fantasias reprimidas no espaço público.
Os aspectos mais profundos da realidade quotidiana – aqueles que talvez sejam perturbadores demais para se mostrar abertamente – se mostram e se espraiam no Carnaval. O desvio latente brota da alegria carnavalesca.
Invertidas as regras da convivência nas esferas privada e pública, rua e casa, no chão da praça ou no asfalto das avenidas da cidade barroca coexistem loucura e razão, sagrado e profano, sublime e grotesco, num surto de liberação (Eros), de destruição (Tanatos) e de recomeço de alguma coisa que não se percebe de pronto o que é, nó górdio das histórias pessoais, anseio, impulso energético de tanta vida reprimida na constrição econômico-social da sociedade capitalista em seu consumismo feroz.
Na Bahia mais que em outros carnavais brasileiros, o Carnaval se processa como delírio carnal antes da penitência quaresmal. Vale tudo. É a afirmação barroca que se revela nos blocos com seus abadás coletivos que ocultam aquilo que se teme
De modo geral, o Ninguém se torna Alguém, Alguéns coletivos, de peça anódina no mercado de trabalho a personagem mitológica de uma história mitológica, esta, essencial para a vivenciação do momento do Carnaval.
No tempo de Rabelais (Bakhtine), o Carnaval abria o caminho popular para uma experiência não hierárquica da vida, contra os códigos rígidos da ordem medieval. Diante da sociedade feudal, o Carnaval se tornava a possibilidade de existência paralela ao Estado ou à sua margem para segmentos populares. Então, as verdades oficiais se deslocavam ou invertiam pela paródia carnavalesca.
Num salto, caiamos no espaço contemporâneo e verificaremos a reversão num efeito de espelho, o que é diametralmente diverso de uma utopia de mudança estrutural.
Se a lei é colocada de modo reverso, teremos apenas uma ‘anti-lei’ (Muniz Sodré), não uma nova ou reformada em benefício do coletivo. A ‘liberação’ pura e simples da festa escamoteia a mudança.
Sabe-se, o Carnaval é um período de festas regidas pelo ano lunar no Cristianismo da Idade Média. O período do Carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou "carne vale" dando origem ao termo "carnaval".
O Carnaval constituía simultaneamente um conjunto de manifestações da cultura popular e um princípio de compreensão holística dessa cultura em termos de visão do mundo coerente e organizada.
O elemento que ainda unifica a diversidade de manifestações carnavalescas e lhes confere a dimensão cósmica é o riso coletivo, que se opõe ao tom sério e à solenidade repressiva da cultura oficial e do poder, que não se limita a ser negativo e destrutivo. Antes, projeta o a multidão-que-ri em liberdade fecunda e regeneradora.
Na Bahia, será talvez nos afoxés que reside o traço mais típico e autêntico da cultura do carnaval.
As observações abaixo são pertinentes:

O Afoxé é a referência das comemorações carnavalescas da primeira capital brasileira em 2009. Até porque comemoramos 60 anos do tapete branco da paz resistindo desde a passagem da segunda guerra até hoje (1949-2009). Trata-se de conquistas múltiplas marcadas por querelas culturais, sociais e festivas tantas que caracterizam a complexidade de nossa história. É a antevisão de uma conquista humana em busca de uma diversidade plena. É como o anúncio de vitória de uma "afro-baianidade" misteriosa e mítica que guarda sua glorificação numa mescla inusitada de cultura, estética e religiosidade. O "afoxé" de matriz étnica nagô guarda na sua significação o mistério de nossas origens e mesclas. Enfim, revela miticamente a realização dos contatos humanos através da palavra e da vida festejada e concretizada. Ou seja, a etimologia desse vocábulo aponta para a soma de duas expressões da língua nagô: fó (palavra, sopro) e axé (poder de realização).
O termo "afoxé" abriga uma reflexão de ordem filosófica e epistemológica profunda. Ou seja, a "palavra" enquanto "sopro" emissor da comunicação realizando o partilhamento cultural da vida humana. Sem respirar o homem não existe e ao expirar o ar da vida emite sons socializando e conspirando possibilidades do existir através de recepções múltiplas. Ao "soprar" na direção dos outros os homens viabilizam o caminho da emissão e do significado concretizando a existência em linguagem e comunicação. Exu que o diga.
Paradoxalmente, o termo "Afoxé" passaria a representar, historicamente, significados tantos para além de sua rica etimologia. Afoxé hoje é sinônimo do ritmo do ijexá, do instrumento musical xequeré e, principalmente, das agremiações afro-carnavalescas homenageadas enquanto tema do Carnaval de 2009. Importante informar que a formatação dessas agremiações afro-carnavalescas constituídas entre os séculos XIX e XX, jamais existiriam sem a presença matricial dos desfiles dos Reinados de Congo no Brasil escravista da Colônia e do Império. Nessa passagem os africanos, aparentemente iguais, dão prova da complexa diversidade humana.
Sem dúvidas a presença afro-carnavalesca no carnaval moderno baiano tem no pioneirismo dos Clubes Embaixada Africana (1895) e, Pândegos da África (1896), uma referência de história e continuidade. Tudo então começou e se proliferou. Desdobrou-se em batucadas, afoxés, escolas de sambas, blocos de índios e blocos afros. Multiplicou-se em presenças, comportamentos, estéticas e sonoridades mudando as cenas baianas e contemporâneas.


Afora essa manifestação de raízes autênticas de nossa matriz negra, o que se passa nas avenidas, circuito Barra – Ondina, principalmente, é resultado da entrada da poderosa indústria de entretenimento, com sua capacidade de sedução e do seu poder de persuasão.
As indústrias que mais faturam no mundo neste momento são, nessa ordem, a indústria bélica e a indústria do entretenimento, seguidas de perto pela indústria automobilística.
Quais as expressões culturais que devem ser prestigiadas, recomendadas e financiadas como "representantes" da cultura brasileira no exterior, para começar a discussão de uma possível identidade? Seria melhor abandonar o estereótipo de sermos o país do Carnaval, do samba e das mulatas, incorporando na representação de nação brasileira a nossa multiplicidade cultural, pluriculturalismo que abrange as manifestações de cultura do erudito ao popular.
Nos anos 90 do século passado, o grupo É o Tchan! foi acusado de explorar o bumbum de suas esculturais dançarinas em músicas com letras e coreografia buliçosos.O grupo foi muito bem sucedido em termos de marketing, diga-se de passagem, uma vez que as dançarinas tornaram-se sucessos midiáticos da década de 1990, inclusive vendendo desde revistas Playboy até kits de produtos infantis.
A "autenticidade cultural" é uma questão de estratégia política e de reforço de um projeto. No caso da cultura afro-baiana, o projeto de construção da identidade passa necessariamente pela questão da música popular, que tem sido considerada pelos pesquisadores pela riqueza e sofisticação com que tematiza e constrói relações de sociabilidade dentro da cultura brasileira.
Nossas raízes culturais não reportam apenas o que herdamos do passado. Numa sociedade saudável, consciente de sua identidade, status e papel no concerto das nações, as raízes se expandem e originam uma nova herança pelos dados novos entrelaçados aos da tradição constituída – desejavelmente dinâmica.
Hoje, há uma produção de visibilidade como base das investidas da indústria do entretenimento no carnaval. Um conjunto de setores compõe a mercadologia momesca: agências de publicidade, o trade turístico, a Internet, radares, satélites, emissoras de TV, transmissões incessantes de dados, impressos, o sistema da moda, a sedução de corpos femininos e masculinos, uso de cores, técnicas de iluminação, enfim, toda a parafernália midiática.
Um “voyeurismo” total nos atravessa num sistema pan-óptico. Câmeras nos acompanham, o olho do Big-Brother nos vigia incessantemente. Ser visto ou ver?
Nossa identidade individual e cultural está sob as lentes da telemática. Quanto mais visto (consumido), mais controlado. Por outro lado, enquanto estivermos atentos (visualizando tudo) nada nos acontecerá...

_______________


SODRÉ, Muniz. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. Rio de Janeiro, RJ: Livraria Francisco Alves Editora, 1988. pp. 171 e ss.

LACAYO PARAJÓN, Francisco José. A new contract between culture and
society. In: INTERNACIONAL CONGRESS CULTURE AND DEVELOPMENT, 2., 2001, Havana. Disponível em: Acesso em: 15 jan. 2008.

Sobre a obra

Os aspectos mais profundos da realidade quotidiana – aqueles que talvez sejam perturbadores demais para se mostrar abertamente – se mostram e se espraiam no Carnaval. O desvio latente brota da alegria carnavalesca.


Quais as expressões culturais que devem ser prestigiadas, recomendadas e financiadas como "representantes" da cultura brasileira no exterior, para começar a discussão de uma possível identidade?

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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

maravilhoso seu texto, parabéns.
depois eu volto.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 24/2/2009 10:21
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Claudia Almeida
 

Votei,voltarei para te ler, sempre soma,bjs.

Claudia Almeida · Niterói, RJ 26/2/2009 14:00
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raphaelreys
 

Beleza pura as citações e o teto do postado! Uma aula de baianês, carnaval e alma urbana! O baiano é o sumo do brasileiro! Parabéns! Meus votos!

raphaelreys · Montes Claros, MG 26/2/2009 15:50
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Ecila Yleus
 

como é bom ter vc aqui no ovrmundo. Cultura pura, apurada. Literalmente magnífico.

Ecila Yleus · Recife, PE 26/2/2009 22:31
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Cláudia Campello
 

...é o poder de sugestão da midia, falando sempre mais alto... dificil "manter" nossos conceitos e incutir algo de bom em nossos folhotes com tantos apelos visuais, com tanto bombardeio de informaçoes. Tudo tao volatil... tao ilusorio.
mas viva a alegria e a cultura do 3° mundo.

parabens pelo artigo (critico cultural.

bjsssssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 26/2/2009 23:57
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José Carlos Brandão
 

Viva a Bahia! Viva o Carnaval! Me sinto esfuziante de alegria diante do seu texto.
Abraços.

José Carlos Brandão · Bauru, SP 26/2/2009 23:58
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Saramar
 

Seu questionamento, após esta exposição de idéias, ou melhor dizendo, de realidades, é inquietante em ambos os sentidos.
No lado bom, leva-nos a refletir. No lado mal, deixa-nos cientes de que já há uma escolha feita e não pelo povo, fautor da tradição e da cultura, viva e dinâmica.
Paulo Francis, em seu livro "o Brasil no mundo" afirmou que as elites (ai, ai) impõem a submissão a expectativas mágicas. Hoje, podemos afirmar sem medo que esta imposição continua, porém determinada pela mídia em qualquer de suas manifestações.
Observando o carnaval (pela TV, veja bem) é possível perceber que há, cada vez mais perceptível a imposição do "modelo" midiático e dos outros elementos interessados (que você citou) no lucro que as diversas formas de festas carnavalescas podem proporcionar.
As pessoas que estão "participando" dos blocos, pelo que sempre observo, estão ali paradas, como que perdidas entre a multidão, parecendo desconhcer a motivação da festa. Creio que isto significa um distanciamento entre o que deveria ser o carnaval, se espontâneo e o que realmente é e do qual muitos particpam por uma quase imposição do meio e do momento.
O que há de cultural no carnaval moderno, senão o que determinam as instituições alheias à cultura popular?
Aliás, esta é apenas uma das indagações que o seu excelente ensaio desperta.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 27/2/2009 00:11
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  Gorete
 

Qrida!
Desculpe a pressa; passei para cumprimenta-la pelo brilhante postado!
Bjossse votos!!!

Gorete · Ipatinga, MG 27/2/2009 14:05
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Cintia Thome
 

Texto que elucida as consequencias e disparates com a real cultura
do povo brasileiro. Sempre ímpar.ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 27/2/2009 17:15
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Brida
 

Amiog, manos, muito obrigada por seus instigantes e generosos comentários!
Saramar, você, além de boa e sensível, possui grande agudeza de observação e crítica. Parabéns, querida!
Lamento não poder, no momento, me estender com uma palavrinha para cada um de vocês...
Um beijo carinhoso para cada um com minhas homenagens.

Brida · Salvador, BA 27/2/2009 17:32
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Ari Lopes
 

Muito bom texto!
Parabens


Tem algo meu em votação.
Se puder dê uma olhada.
http://www.overmundo.com.br/banco/damasiadas-coisas
Abraço

Ari Lopes · Santana de Parnaíba, SP 27/2/2009 23:56
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Brida
 

Amigos,...manos..."

Obrigada, Ari, irei lá. Abraço.

Brida · Salvador, BA 28/2/2009 00:50
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Ecila Yleus
 

Voltei para lr o su trabalho magnífico voltarei papra fazer uma releitura. O que realmente precisamos mostrar para outros países é mais capacitação intelectual, menos corrupção, mais comprometimento com a saúde pública, poder mostrar no carnaval a nossa realidade cultural sendo proclamada por todos com diversidade de alma e corpo passando pelas ladeiras da cidade faszendo história de novo num ritmo rvolicionário de vida.

Ecila Yleus · Recife, PE 28/2/2009 08:25
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Ecila Yleus
 

gostaria que vc m desse o prazer de conhecer alguma trabalho mu, vc nunca m fez uma visitinha.|Beijos

Ecila Yleus · Recife, PE 28/2/2009 08:31
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Brida
 

Ecila, querida, obrigada por tudo. Me perdôe a falta! Fiquei sem micro e viajei = incomunicabilidade. Vou ler tuuuuuuuuuuuuuuuuudo seu! Beijos + carinho

Brida · Salvador, BA 28/2/2009 09:59
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Juscelino Mendes
 

Brida, querida,
sei que nada vou acrescentar, mas carnaval para mim é uma anti-cultura. De qualquer forma, o seu texto é muito competente.
Bj

Juscelino Mendes · Campinas, SP 28/2/2009 15:09
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roquemedeiros
 

Belissísmo...
http://www.overmundo.com.br/banco/o-porque-das-farinhas

roquemedeiros · Nazaré, BA 2/3/2009 10:07
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erhi Araújo
 


"nunca contra as raízes, mas sempre e sempre, além delas."
Saborear os frutos e saber a hora de servi-los!
O carnaval, já deu muitos bons frutos que acabaram no lixo, vi passar por vários carnavais.
Parabéns!

erhi Araújo · Feira de Santana, BA 13/3/2009 12:08
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alcanu
 

Carnaval, festa popular regada a dinheiro e drogas !
Infelizmente !
Bela cobertura !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 22/11/2009 08:09
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