Numa longa reta quase deserta àquela hora da madrugada, Saul e Juvenal cumpriam a rotina patrulhando aquele trecho de estrada. Isolado por uma longa distância o trecho era um dos pontos preferidos por ladrões de carga. Uma carreta estacionada com o pisca alerta ligado poderia significar alguma encrenca. Decidiram estacionar a viatura próxima ao caminhão. Saul desceu e andou até a cabine.
– Tudo bem? Perguntou ao motorista.
– Sim! Seu guarda, apenas desci para desaguar e dar uma espichada nas pernas, mas já estou de saída.
– Cuidado! Você não deveria estar sozinho.
– Tudo bem seu guarda, estamos em comboio. Meu parceiro está um pouco adiante e logo o alcanço. Saul voltava para a viatura, mas sentiu vontade de urinar e resolveu entrar por uma pequena trilha a beira da estrada. A carreta arrancou e partiu sem problemas. Saul urinava e ao acostumar-se com a pouca luz no local, percebeu algo como um pano azul. Resolveu averiguar e deparou-se com uma mulher jovem deitada de bruços.
– Jú! Pega uma lanterna e vem até aqui. Juvenal pegou a lanterna de mão e aproximou-se iluminando a cena. Saul abaixou-se e colocando a mão sobre o pescoço da mulher falou.
– Está morta! Não faz muito tempo. Ainda não está fria. Chame o pessoal da homicídios, temos um crime aqui. Saul percebeu uma pequena bolsa de pano preto a tiracolo e abriu o fecho.
– Jacqueline Rosa dos Santos. 21 anos. Olhe há um recibo de recarga de celular. Posto de combustível, de Vila São João em Torres. Bastante longe daqui.
– Conheço o local. Tem um posto com estacionamento amplo. Uma lanchonete e obviamente uma boate bem próxima.
– Olhe, tem um pequeno cachimbo usado para fumar Crack.
– Sim! Além da boate tem algumas prostitutas que rodeiam os caminhões estacionados. Deve ter pegado uma carona e se deu mal.
– Não dá pra entender. Porque uma garota bonita, veja o corpo é bonito, pernas bem torneadas, não precisaria estar nessa se não fosse a maldita droga.
– Seria aquela carreta?
– Talvez, mas veja, não há sinais de violência, nem sangue.
– Bem! Vamos ver o que o pessoal da perícia descobre.
Eu moro em Vila São João há algum tempo. Vivo sozinho e naturalmente utilizo-me vez por outra dos serviços de prostitutas locais. Duas em especial. Jackie (Jacqueline) e Paulinha. Ambas lamentavelmente viciadas em crack. Vila São João é um bairro de Torres distante cerca de 7 km do centro. O bairro é cortado pela BR 101 e atualmente possui uma elevada longitudinal sobre a antiga rodovia que corta a cidade de ponta a ponta. As duas, filhas de gente de classe média fugiam ao padrão habitual. Bem vestidas, limpas e cheirosas na verdade moravam próximo ao centro, mas vinham prostituir-se na vila longe da família. Difícil de entender. Dois dias antes do crime ela havia me dito que iria embora para Buenos Aires.
– Lá se ganha bem mais. Disse.
Paulinha correu para mim chorando e me abraçou.
– Puxa cara! Por quê? Ela era gente fina, não merecia. Só queria defender uns trocos pra pedra e pra Bira, (cachaça).
– Eu sei! Ela me falou que iria. Eu tentei argumentar, mas ela não ouviu.
– Você estava com ela quando ela foi?
– Sim! Era uma carreta grande e ela estava feliz. Disse que o cara era legal. Tinha ficado com ele na noite anterior. Ele prometeu que cuidaria dela e que ela estaria entre amigos.
– Você o reconheceria?
– Sim!
– A carreta. Me dá mais detalhes.
– Você acha que foi ele?
– Sim! Não posso afirmar, mas acho que faz sentido.
– Acho que vou ligar pra alguém. Depois falamos.
Liguei para o Seixas, detetive da polícia de Torres. Costumávamos tomar cerveja juntos principalmente em dia de jogo quando pegávamos carona no pay per view da lanchonete do posto.
– Isso é importante. Vou intimar a Paulinha.
A notícia no jornal local dava conta de que ela havia sido morta com um prego enterrado no crânio. O legista havia localizado esperma indicando que havia feito sexo, sem preservativo. Havia hematomas abaixo das costelas. Isto mostrava que havia sido espancada pelo agressor.
Paulinha descreveu e contou tudo o que sabia. Inclusive o número da placa que anotara segundo ela,
– Pra fazer uma fezinha na loteria.
Não foi difícil localizar suspeito. Rogério morava em Torres e trabalhava para uma transportadora local especializada em cargas internacionais, de formas que viajava seguidamente para a Argentina e outros países visinhos. Durante o depoimento, alegou que dera uma carona para a garota, mas que em Porto Alegre ela havia decidido ficar na Cidade. Tranquilamente cedeu material para o exame de DNA e foi liberado. A polícia passou então a trabalhar com duas hipóteses. Ou estava mentindo ou talvez estivesse falando a verdade. Não era de duvidar que a garota estando drogada, resolvesse mesmo ficar em Porto Alegre. Seixas solicitou ajuda da policia da capital que descobriu que o motorista havia deixado aquela carreta em Porto Alegre e seguido viagem com outra para o mesmo destino. Uma carga perigosa precisava de um motorista mais experiente para seguir viagem, por isso a troca. Havia agora um novo suspeito. Não se sabia se a garota havia ficado mesmo em Porto Alegre, ou seguira viagem com o outro caminhão.
João Antônio fora prezo preventivamente como suspeito quando retornava da viagem. No depoimento afirmara que não havia sequer visto a tal garota. Também foi liberado após ceder material para o exame de DNA.
No local do crime, haviam sido descobertos mais dois cadáveres. Mais para dentro do mato. Haviam sido arrastadas e também foram mortas da mesma maneira. Tratava-se agora de um assino serial. Um dado novo somou-se ao inquérito. Uma ponta de cigarros Dunhill Nanocut. Um dos mais caros.
Decidi conversar com a Raquel. Caixa da lanchonete do posto.
– Você sabe se alguém por aqui consome este cigarro?
– Da cidade? Só o Geraldo dono da boate aí em frente. É um cigarro caro e geralmente só vendo a turistas. Porque?
– Nada! Estou escrevendo uma crônica sobre tabagismo.
Naquela noite decidi visitar a boate. Nunca havia postos os pés lá. A gerente, uma alemã com seus 45 anos no mínimo, serviu-me uma bebida enquanto eu examinava o local. Apenas duas mulheres. Ainda era cedo. O tal Geraldo passou pelo balcão falando.
– Cuida aí que vou dar uma olhada no estacionamento. Sorriu para mim dizendo.
– Estas piranhas ficam dando em cima dos caminhoneiros atrapalhado o negócio. Suspeito numero 3 e agora, pelo menos para mim. O mais forte candidato. Comecei a beber com a Alemoa, como era tratada pelas demais. Fiquei sabendo que havia um intercâmbio com garotas de Uruguaiana, Santana do Livramento e outras cidades. Inclusive a capital e que naquela semana ele havia ido a Porto Alegre.
Começou então a tomar forma em minha cabeça uma nova história. Ele corria e maltratava as garotas que faziam ponto no estacionamento. Tinha certamente amizade com motoristas que habitualmente freqüentavam o local. A ponta de cigarro encontrada passava a ter uma importância fundamental. Restava agora descobrir como ele havia conseguido matar a garota. Cumplicidade dos motoristas? Saí da boate e à esquerda havia um muro quase junto a parede. Uma lata de lixo virada, provavelmente por algum vira-lata me chamou a atenção. Havia alguns papeis amassados e resolvi juntá-los. Levei para casa e ao examiná-los, uma nota do aluguel de um carro em Porto Alegre no dia do crime e uma nota de abastecimento de um posto de Uruguaiana. Agora a coisa começava a fazer sentido e as peças estavam encaixando. No dia seguinte fui ver o Seixas.
– Puxa! Este é da pesada. É bastante esperto e tem uns advogados do diabo. Mas, acho que você acertou na mosca. Agora deixe comigo. Geraldo foi preso e ao saber que a polícia tinha os exames de DNA, recusou-se a ceder o material para exame. Foi então acusado formalmente da morte das garotas e teve a prisão preventiva decretada.
Havia combinado com o motorista Rogério que ele convencesse a garota a ir para a Argentina. Não conseguia que ela trabalhasse na Boate, porque ela tinha família na cidade. De formas que ele teria que livrar-se dela. Então ele alcançou a carreta em Porto Alegre e convenceu a garota a acompanhá-lo até a Argentina. Os documentos encontrados junto aos cadáveres das outras garotas comprovavam que haviam tido o mesmo destino. Faziam parte da lista de desaparecidos da polícia de Torres.
Eu voltava a noite do centro da cidade e meu carro foi fechado por um Vectra preto que fez sinal para que eu parasse. U, home desceu e chegou junto a minha janela. Era Dragão. Tido como um dos grandes traficantes da região.
– Tudo bem mano? A Paulinha me contou o que você fez pela Jackie, ela gostava muito de você e falava sempre que você é um cara legal. Fique tranqüilo. Ele não vera o sol nascer amanhã. Siga em paz.
Na manhã seguinte a noticia. Geraldo havia sido encontrado misteriosamente morto na cela. Morrera engasgado com algo. Cá pra nós, sei bem com o que ele se engasgou.
FIM
Crack, prostituição, concorrência no mercado de sexo. Morte certa. O crack, mata o traficante, mata, o drogado mata, a policia mata, o concorrente mata. Onde foi parar o futuro?
E o pior de tudo Lauro, é que estas moças são só usadas, não caem em si e poucas encontram o caminho da regeneração.
bjs
e o fato de não encontrarem esse caminho é muito triste...
Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 11/7/2010 11:55
Sempre um grande escritor, parabéns!
Não esqueça a falta que nos faz.
roteiro de um grande filme policial este teu post.
parabéns.
adiante!
As estradas desseBrasil está repleta dessas aventuras mal sucedidas!
raphaelreys · Montes Claros, MG 13/7/2010 13:10
Essa é a triste realidade atual, que se alastra feito rastilho de pólvora. O teu post parece uma história verídica, pois isso está sempre acontecendo. Daria um filme exemplar.
Beijossss
De volta com tudo.
Parabéns, mas vida de mulher fácil é muito dificil
Gteixeira
Grande Lauro. Mais um de seus contos policiais que tanto gosto. Tava saudosa, hem? Beijão
LadyQueiroz · Rio de Janeiro, RJ 25/7/2010 21:16Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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