Carta em Harmonia Armada

georgesaraiva
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georgesaraiva · Guarapari, ES
8/8/2008 · 54 · 3
 

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Hoje eu sei, pude me esbaldar em somente uma noite só, uma voz sussurrante ou a voz quase nunca, uma navalha na carne da nuca, na língua e no dorso das costas ingenuamente arquejadas, prevalecendo sempre aquele desleixo primordial aos de má conduta, assim, a ascensão dos desajeitados amantes estava consumada. Quero a profana Itália de Dante Alighieri como cenário de delinqüentes fugas noturnas, quero cobri-la de dedos e lambidas, como um animal no cio. Quero cocaína, quero um vídeo de Blues, quero um feto in vitro, teu queixo em conserva, quero-a nua, vestida com vestidos sublimes para somente rasgar o tecido e consumar meu amor visceral, quero teu coração, suas diversas cores, suas estrelas e flores, suas pintas francesas espalhadas pela pele, seus adereços de metal, sua tristeza e sua confusão. Permanecerás em meu castelo, porque não sabes querer fugir. Cerceando minha alma e meu corpo, assim como sempre está perto do coração selvagem, beirando o abismo, deseje meu abraço e a escuridão não prevalecerás. Meu beijo em teu pescoço tem ares de profética febre, arrepios que encolhem a pele para elevar o espírito sedento de novidades supremas.
Sou um camaleão, sou sua serpente, habito cavernas no deserto, sou eu repulsivo e frágil que grita trágico ao pé do teu ouvido. Também sou maleável e esguio, houve momentos em que era óbvio; descobertas bebericadas na palma de sua mão, seu senhor, seu cão; gosto de tê-la entre meus livros, minhas cartas, minhas memórias, entre os símios convincentes que sonho ao despertar, entre meus filhos, minha neve, meu sorvete, meu aromático doce cachecol.
Tens medo? Eu conto o que é o medo, não outra coisa a não ser o que se instala no coração do outro e aproxima-o de si mesmo, envenenando lentamente, mortificando seus instintos para que no fim não reste nada a não ser uma angustia pesada composta de esfumaçados temores. Mas se quer voltar à tona e respirar com alívio, liberta-te da opressão de negar a si mesma. O medo justifica muita coisa, fora o fato de perpetuar a espécie, pois como se sabe, é melhor um covarde vivo do que um herói morto; o medo já cria zumbis putrefatos.
Eu me nego a fazer parte de seu teatrinho como coadjuvante, simplesmente por pensar a todo o tempo se esta mulher é uma daquelas putinhas de verdade ou das que fingem tão bem o prazer até acreditarem que é verdadeiramente real o que fingem. Bem verdade é que seria uma daquelas glutonas na cama, como se quisesse devorar todos os cacetes do mundo, fazendo-os de aperitivos em seus banquetes nefandos. Acho que nunca saberei a qual natureza ela pertence, sabia sim, que ela detestava o amor, difamava qualquer sentimento que não fosse uma boa gozada, apertando bem o sexo com as duas mãos cansadas e exaustas de tanta procura, e, aquele sorrisinho esculachado na cara, ridicularizando a frieza dos demais seres do mundo
Mas eu a amo e amo a sua falta de jeito e o seu desapego, a ponto de nunca mais querer tocá-la, somente submetê-la a minha poesia, antes que seja consumido por seus olhos agateados e sua boquinha boba.

Sobre a obra

Pretensão crônica de descrever o pecado.

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informações

Autoria
George Saraiva
Ficha técnica
Traidor do movimento
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito bom texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 8/8/2008 21:18
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Nic NIlson
 

Sou um camaleão, sou sua serpente, habito cavernas no deserto, sou eu repulsivo e frágil que grita trágico ao pé do teu ouvido
Puro poema, prosa, instinto e sobrevivência... que bacana! Aplausos de pé! Bravo!

Nic NIlson · Campinas, SP 9/8/2008 18:55
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georgesaraiva
 

muito obrigado pelos votos e comentários

georgesaraiva · Guarapari, ES 13/8/2008 14:36
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