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Cartas não entregues, não lidas... (Carta nº 3)

1
Lucas Melo · Campinas, SP
30/5/2010 · 3 · 2
 

Amostra do texto

Olinda-PE, 12 de novembro de 2006.
(Sem destinatário)
Bom, este final de semana foi maravilhoso. Trabalhei, visitei minha irmã Ana, fui à casa da Gracy com a Kátia e saí ontem e hoje com o [...] . Ontem fomos à praia ver a lua que estava belissíma e, hoje, fomos ao Recife Antigo ver a Feira de Cultura Judáica.
Só que, no intercurso dessas saídas com o [...], houve nossos desapontamentos, que foram contornados e, no final, “discutimos nossa ‘relação’”, como fala o [...].
No final de tudo isso, enquanto caminhava até minha casa, cheguei a uma conclusão importante, que se trata mesmo de uma decisão: dedicarei meus dias de vida ao estudo da sexualidade humana com ênfase, talvez, na homossexualidade, relacionando-a com aspectos de caráter social.
Na verdade, essa decisão é um trágico final que não foi feliz, pelo menos até hoje. E não voltará para ter um outro e/ou novo final. Porque as coisas não podem ter dois finais e, quando o segundo ocorre é apenas um reforço, uma repetição do primeiro. Pois o que muitos consideram ser o fim (a primeira vez que ocorre, para alguns) é o início de um processo, geralmente, irreversível de conclusão e de rompimentos de relações, de esvaziamentos de significados, de subtração de valores e fragmentação de sentimentos que perdem sua razão ou irrazão, já que as partes, por si e em si, não são o todo.
Muitas vezes o sinal do primeiro fim é um momento de negação. Preferimos ignorá-lo. Percebemos, sabemos que ele existe, mas não o aceitamos. Do primeiro aos demais é um doloroso caminho que a natureza humana não compactua com a ideia de percorrê-lo. Quanto mais longa, mais lenta a caminhada, mais vivida a dor da separação... É uma espécie de doença crônica, irreversível, em estado terminal, progride até o momento em que você admite a situação e o fim, de fato, se instala.
Acredito que a dose única do fim tem menos efeitos colaterais, a longo prazo. Tem sua agudização e prognóstico sombrio. Já a cronicidade do fim é cruel, pois insiste em agudizar vez ou outra.
Hoje vivo um fim crônico, com fases agudas intermitentes, quase contínuas. Não sei se há, ainda, neste meu ser moribundo imunidade suficiente para vencer cada um desses ataques. As drogas já não fazem o efeito desejável, são placebos. A equipe insiste, vê uma possibilidade de recuperação e, quem sabe, a cura.
Enquanto o fim não se estabelece, vivo profundamente a sua metástase implacável. É horrível sentir a ida, dita, de quem nunca se quer deveria pensar em ir. Sinto-me impotente diante de tudo isso. O que me revolta é que sou tomado por uma frieza, uma imparcialidade, uma ética para com o outro que fere e dilacera meu ser, meus valores, meu direito de viver... Não reajo! Nunca reagi! Aceito ser coadjuvante de uma história da qual não quero ser personagem. Pelo menos não como secundário. Sempre quis ser o protagonista!
Nem minhas lágrimas querem rolar neste meu rosto que leva consigo as marcas e a dor de ser perdedor, de não saber conquistar o bem mais precioso da minha vida. Essa lágrima solitária que cai, agora, de um único olho expressa minha unidade desconexa, minha incapacidade de lutar.
Talvez tenham compaixão de mim e, por isso, não querem rolar. Pois sabem que rolando para liberdade da minha exterioridade, deixarão à mostra um vazio, um espaço ocioso que passou a existir depois que começaram a tirar de mim o que achei que eu tinha. Não! Elas são minhas companheiras! E, nesses últimos dias, são mais que isto, pois receberam a gentil missão de preencher-me, já que sinto meu ser derreter-se em lágrimas.
Lucas Melo.



Sobre a obra

1. Tenho preferido usar esse símbolo [...] quando me refiro a esse meu grande amor para preservar sua privacidade. Portanto, não escondo por questões minhas, talvez nem dele também, mas acho que assim seja melhor.

2. Nota sobre a decisão de estudar sexualidade humana: Embora eu tenha dito isto naquele dia, hoje tenho estudado outras questões que nada tem a ver com a sexualidade humana. Penso que essa minha escrita tenha sido influenciada pelo fato de, na época, eu estar fazendo graduação em Psicologia, além de estar concluindo a graduação em Enfermagem. Por um bom período pensei em ter as duas graduações. Mas, como passei no Mestrado em Enfermagem da UNICAMP, em 2007, desisti do curso de Psicologia.

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Autoria
Lucas Melo
Ficha técnica
Lucas Melo
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito bom seu texto, parabéns.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 30/5/2010 23:18
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Cláudia Campello
 

chorar lava alma, Lucas, e nos faz ver um horizonte nunca dantes.....saca?
um texto leve, jovem, algo que todos sentem e tem
medo de expressar...vc fala por mtos. valeu!

bjsssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 7/6/2010 05:24
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