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Cartas não entregues, não lidas... (Carta nº2)

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Lucas Melo · Campinas, SP
24/5/2010 · 2 · 4
 

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Cartas não entregues, não lidas... (Carta nº 2)

Olinda-PE, 05 de novembro de 2006, às 23h49.

(Sem destinatário)


Nunca tinha sido impelido a escrever como nas últimas 24 horas. Estou só e não tenho com quem conversar e, pra falar a verdade, estou farto de conversar com os outros. Queria alguém para conversar, falar de mim, tecer análises à luz da ciência, criar hipóteses ou possíveis explicações... Só que não há essa pessoa ideal! Minha mente, como sempre, tem trabalhado em jornada especial, a ponto de me levar à exaustão.
Estou puto da vida! E cada vez mais me torno cônscio do estado de incapacidade relacional dos outros ou, quem sabe, meu. É detestável tudo isso. Estou com uma espécie de raiva. Mas, na verdade, não se trata de uma raiva comum: é um sentimento de conscientização da perda de espaço na subjetividade de alguém. Nossa, é apavorante! Causa esse estado de tédio, de raiva, de medo e insegurança. Não tenho estrutura emocional para assistir a esse processo doloroso de subtração. E questiono: até que ponto as relações humanas não estão fadadas ao desgaste, ao insucesso e à decepção?
Posso até responder que elas estariam livres disso, se não fossem neuróticas. Hoje me questiono a respeito do significado que atribui a algumas coisas/pessoas:
Será que algum dia esse espaço, que hoje sinto perder, existiu?
Será que tudo isso não se restringiu a mim mesmo e durante todo esse tempo manipulei minhas próprias percepções, sensações, emoções?
Será que fui capaz de manipular tanto a situação, a ponto de influenciar a percepção, sensação e emoção do outro?
Será que tudo isso que achei que vivia não passava de uma ideação que nunca passou um centímetro além de mim mesmo?
Será que através do que sei, não me utilizei da fragilidade do outro e construi, em mim, uma estória que achei ser nossa, mas sempre foi minha?
Será que cada situação que vivi, com tudo que foi experimentado, não passaram de cenas nas quais interpretei, e fiz com que interpretassem, o que, na realidade, eu queria viver?
Será que durante todo esse tempo eu me apeguei em questões que me interessavam, que me eram confortáveis e ignorei toda uma gama de questões paralelas?
Será que fui tão calculista a ponto de criar situações nas quais apenas meus desejos, minhas vontades, meus sentimentos foram centrais, e guiaram-me em busca do meu objetivo?
Será que eu sempre neguei o óbvio, o explícito, o claro, o dito?
Hoje, simplesmente, me questiono sobre a realidade do que eu achei que tinha vivido com o [...]. Acho que vivi tudo aquilo só, porque era o que eu queria, como eu queria... Porra!
Não consigo pôr fim nessa história maldita que construo dia após dia, sem falhar: minhas aventuras, irreais e sem sucesso, pela minha afetividade. É como se não gostasse de pessoas e, ao mesmo tempo, sinto um desejo imenso de estar com elas e lhes pertencer e ser pertencido.
Até hoje achei que tinha dado todo esse espaço ao [...], mas é como se ele nunca tivesse se apropriado disso. Embora eu sempre tenha achado que sim. Pensei que tinha deixado ele entrar em minha vida, mas ele não passou da varanda e confesso que ele foi o único ser humano a ir mais fundo.
Agora, sinto-me obrigado a expulsá-lo de mim, pois não suportarei sua teimosia em permanecer nas periferias do meu ser. E enquanto eu pensava que ele adentrava em minhas paredes, na verdade, ele circundava e examinava, apenas, sua estrutura/textura, nunca se aventurando em penetrá-las.
Eu, como uma criança inocente, achei que ele entrava. Mas nunca passou da varanda e, agora, retoma seu estado de espectador ao querer retornar para a externalidade dos meus muros, além do meu jardim improdutivo. Não consigo florir minha própria vida. Talvez por isso se torne desinteressante querer estar em meus atrios. Talvez suponham-se que seja vazio, sem vida, completamente hostil, insalubre, tornando-se incompatível com a vida.
Talvez, em mim, só existam uma séria de páginas escritas a partir de tudo que já li e do que julgo ser conhecedor. Na verdade, em minha casa não há o que os motive a estar nela. O que dói mais talvez não seja a retirada sutil que o [...] tem feito, mas o fato de, mais uma vez, ter-me iludido.
Ele não entrou. Ele não acessou por si mesmo. Eu o coloquei lá. Eu, na minha ânsia demasiada, o forcei a estar ali. O que houve, na verdade, foi sua consciência de onde estava e a decisão de não estar mais aonde ele não queria estar.
Saindo pouco a pouco, está me deixando tão só! Tenho sentido isso há dias e tenho lutado contra. Mas o que ocorre é que meus escritos são pouquíssimo atraentes e de nada servem aos seus olhos. Soam como nada. Pois o que sei apenas grita dentro de mim e acho que esses gritos são as únicas ondas sonoras, abstratas, não mecânicas, que ecoam e se negam em preencher um espaço que não é seu. Afinal, essas ondas não queriam estar presas, vagando em meu ser, num percorrer incessante do vácuo que me tornei no decorrer desses anos.

[...]

Não sei o que fazer. Acho que o melhor é cair fora dessa minha complicação. Viverei uma vida diferente. E, já que não posso ter uma presença em mim, terei o maior orgulho em ostentar quadros com retratos dos que, a partir de então, hão de passar na minha vida. Tirarei qualquer referência, ponto, possibilidade de temporadas em mim.
Lucas Melo.

Sobre a obra

Encontrei, hoje, nesta carta uma explicação para algo que buscava compreender...

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Autoria
Lucas Melo
Ficha técnica
Lucas Melo
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Doroni Hilgenberg
 

Lucas,
interessante e reflexivo
embora pese o amor que sentimos por alguém, as pessoas são o que são e não podemos molda-los segundo a nossa vontade.
Mas que seria legal encontrar alguem inteligente para criar hipteses e trocar ideias, isto não resta duvidas.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 25/5/2010 20:19
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Doroni Hilgenberg
 

digo: "hipóteses"

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 25/5/2010 20:20
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Cintia Thome
 

Interessante...
Gostei destes teus textos.efletem tantas coisas muito que tantas vezes sentimos. abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/5/2010 15:42
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Cintia Thome
 

refletem

Cintia Thome · São Paulo, SP 26/5/2010 15:42
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